10/11/2017

O MACACO E A CAFEÍNA

Na Biblioteca Parque Villa-Lobos
Sábado agora tenho a última mesa do ano, um debate com Manuel da Costa Pinto no Parque Villa-Lobos, com entrada gratuita. Já fiz um debate desses com ele, recentemente gravei entrevista para o programa dele no Arte 1, em 2014 gravamos o Metrópolis com BIOFOBIA, é sempre ótimo. Manuel é um cara que entende profundamente de literatura e trata minha obra com respeito e consistência. Acho que poderemos aprofundar questões de Neve Negra que ficaram em segundo plano...

O livro está indo bem. Consegui muita mídia regional pelo país, devido às minhas viagens e aos leitores fiéis que vão ganhando poder. Tive página inteira no Paraná, Pernambuco, Bahia, Ceará, Minas, Santa Catarina (nada no RJ). Na grande maioria das vezes sou eu mesmo falando do livro, em entrevistas, o que é um pouco frustrante. Toda divulgação é preciosa, mas a falta de opinião, das resenhas, deixa a gente sem termômetro. Pelo menos não surgiu nenhuma crítica negativa - bem, talvez hoje em dia isso seja substituído pelo silêncio...

Muitos colegas escritores têm postado sobre o livro, redescobrindo minha obra - acho que é algo do tipo: "Hum, ele foi para a Companhia, de repente o livro presta..." Alguns apontaram como uma boa volta ao que eu fazia no começo de carreira (com Feriado de Mim Mesmo), sendo que BIOFOBIA é um livro irmão. Dos colegas-amigos mais próximos, silêncio total. De repente acham que não preciso mais da força, de repente é uma questão de competição, ou descaso, de repente tudo junto... Só sei que para mim seria impensável não divulgar o lançamento de um amigo. Sei bem a batalha que é, na editora que for.

Agora é deixar o livro caminhar com as próprias pernas, se arrastar com as próprias patas, e focar no próximo, que estou rascunhando há um tempo, ainda não encontrei a estrutura ideal, e está exigindo muita pesquisa, leitura. Não ajuda a fila interminável dos contemporâneos, dos colegas, que não posso deixar de ler...

Passei as últimas semanas literalmente trancado neste apartamento, terminando uma tradução, trabalhando num pequeno projeto para o ano que vem, deixando minha barba crescer, meu cabelo crescer emaranhado, sem precisar de xampu e desodorante, sendo visitado ocasionalmente por pedreiros que estão quebrando o prédio a procura de vazamentos, que estão deixando meu banheiro pior do que o impossível... De tempos em tempos, a geladeira vazia ("só a luz, e o ar...") me obriga a ir ao mercado em frente; só então me olho no espelho do elevador, confirmo que envelheci 40 anos, e penso se não deveria ao menos ter passado uma escovinha na minha camiseta cheia de pelos de coelho. Dia desses serei barrado no mercado como mendigo (marcado no bairro como banido).

Gaia sempre comigo. 

A coelha é minha grande companheira, sempre. É um objeto inanimado, claro, fruto da minha imaginação - animal de estimação só faz sentido para quem tem. Mas responde ao que falo, me obriga a verbalizar, é a única que esquenta minhas cordas vocais. Trancados os dois aqui, ela se torna extremamente carente, quer carinho o tempo todo, é o que me obriga a levantar todas as manhãs para dar comida, está sempre desperta-saltitante nos filmes de insônia da madrugada.

A insônia é fruto dessa absoluta falta de horário, efeito da cafeína que me deixa mais acordado do que produtivo. Será que não posso mais nem isso? Não sei se é sintoma residual dos excessos da juventude, de uma genética fodida; há anos que não uso nenhuma droga ilícita, nunca tomei psicoativos, o álcool sempre acalma, mas estou dando um tempo; agora é a cafeína que me ferra. Li esses dias de um macaco que sofreu overdose de cafeína na índia. Não é preciso ir tão longe, sinto o macaco dentro de mim. Nessa vida-água-parada-aquário-sem-bolhas o café tem efeito absurdo. Começo a tretar nas redes sociais, escrevo emails destruidores ao meu pai-fascista, volto a postar neste blog... Como o bêbado arrependido do que disse, ou Mr. Hyde dos baristas, não me reconheço sob efeito de cafeína; sem café sou mais silencioso, consciente e depressivo.

Mas sou feliz porque ainda tenho marido... acho; acho que ele está na cozinha. Temos nos visto pouco, última vez há quinze dias, falado pouco. Exilado em Maresias, vive para o restaurante, mesmo quando estou lá ele não está comigo. Devo voltar para lá no final do mês e passar o verão - a casa é grande e será bem vinda a companhia de amigos.



Antes disso, tenho a viagem de "imersão" na literatura de horror, organizada pela Cássia Carrenho. Parece que restam ainda 2 das 15 vagas, porque teve gente que desistiu. Tenho lido o formulário de inscrição dos participantes e tem muita gente interessante, de diferentes backgrounds. Acho que serão dias de conversas muito enriquecedoras. Sou fã da Ilana Casoy e vai ser lindo ver tudo o que ela tem a dizer; a Mariana Rolier é grande editora e vou aprender muito com o "outro lado" trazido por ela; Raphael é eficientíssimo e traz conquistas impressionantes na literatura comercial. Eu nunca me considero um modelo nem tenho fórmulas para ensinar ninguém a escrever, não dou oficinas. Mas acho que tenho alguma experiência para dividir - bem ou mal, são quinze anos de carreira, nove livros publicados pelas maiores editoras do país e... SESSENTA livros traduzidos.

(Prometo lavar os cabelos, passar desodorante e maneirar na cafeína para o encontro).

Informações aqui:

https://www.cassiacarrenho.com/fim-de-semana-do-terror




PRÓXIMOS, PÓS E PARALELOS

Já à venda. Saiu esta semana o Perdidas - Histórias para Crianças que Não tem Vez - uma antologia de contos e poemas de grandes autore...