18/12/2015

ENTÃO É NATAL...

Na vila do Papai Noel, na Lapônia. (Não me pergunte por quê, mas já fui três vezes pra essa bagaça)


A menina senta no colo do papai Noel: 

"Papai Noel, você rói unha?"

"Roo-roo-roo"

Então é Natal! E como é para falar de coisas bonitas e alegres, resolvi compartilhar com vocês minha playlist de clássicos natalinos. Pensei em fazer no Soundcloud, mas dá um trabalho desgraçado editar as músicas e depois só a Ivana Arruda Leite e mais meia dúzia de pessoas escutam. Mais fácil disponibilizar algumas dicas aqui via Youtube e vocês que corram atrás. 

Vamos lá: 


Acabei de baixar o CD de Natal da Kylie Minogue. E é ÓTIMO. Sério, melhor CD dela em muito tempo, dos melhores álbuns natalinos de TODOS OS TEMPOS. São 16 faixas na edição de luxo, incluindo muitos standards em arranjos clássicos, um ou outro som mais dance, músicas natalinas inéditas e alguns covers interessantes como de "Only You" (da Alison Moyet, que não é bem uma música natalina). Tem até um cover dela com o Iggy Pop. Geralmente quando um artista grava álbum de Natal é porque não sabe mais o que fazer para vender disco no final de ano, mas Kylie fez bonito. Uma delícia. 



Esse é provavelmente o álbum natalino mais clássico que existe (e o vídeo tem o álbum inteiro; disponha). Lançado originalmente em 1963, apresenta os maiores sucessos interpretados por girl groups como as Ronettes, com a produção do lendário Phil Spector. Para um bom Natal das antigas. 


A dupla norueguesa Röyksopp - das minhas favoritas de todos os tempos - há alguns anos disponibilizou essa faixa natalina para download gratuito. Cover de uma música não tão conhecida por aqui, que apesar da roupagem eletrônica não deixa de ver uma vibe bem natalina, etérea; dá para tocar no jantar de família sem medo. 


A versão de Santa Claus is Coming to Town da Cyndi Lauper com o Frank Sinatra é das mais clássicas (e foi bem copiada pela Kylie no disco novo). 


Falando em clássicos, Bing Crosby gravou vários. O tema da "rena do nariz vermelho" é dos meus favoritos. Clássico com uma pegada kitsch. 


Os Jackson 5 também gravaram um álbum de Natal em 1970, com diversos clássicos. Minha favorita é essa, Frosty the Snowman. 


Simplesmente outra das mais clássicas que se pode ter. 


Annie Lennox lançou um CD solo de Natal em 2010, provavelmente quando não sabia o que gravar, e é um disco bem fraquinho. Mas essa versão de Winter Wonderland que ela gravou com os Eurythmics para uma coletânea de 1987 é bem bacana. 


Entrando num terreno trash, Jordy, aquele francesinho fofinho, também gravou um álbum de Natal em 1993 (basicamente para tentar capitalizar seu sucesso no ano). Tem músicas inéditas e versões dance para clássicos franceses de Natal. 


O Brasil tem poucos temas natalinos, sendo a maioria versões em português de músicas de fora. Mas Assis Valente, compositor de Carmen Miranda, escreveu essa que, pelo menos na minha casa, é um clássico. Tem uma letra bem deprê (especialmente sabendo que ele se suicidou por dívidas): "já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem. Com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem." Continua atualíssima no Natal 2015. 


E para ter vários temas natalinos revisitados nos tempos politicamente corretos, fique com Jon Cozart, gatcheeenho norte-americano que grava tudo sozinho, a capela, em arranjos geniais. 



Silent Night (a versão original de Noite Feliz) já foi gravada trocentas vezes, mas continuo achando a versão da Sinéad a melhor. Tristíssima, dá para você colocar no fim da festa, quando quiser que a família vá embora. 


Se o povo não for embora, apele para essa versão da MARLI!



E essa fica de bônus. Para mim, não deixa de ser um clássico. E não creio que ainda tenha menos de dez mil visualizações. (Só eu partilhei essa porra umas dez mil vezes...)


AH! Quase esquecendo. Fique com essa também, da melhor boy band de todos os tempos. É um tema de ano novo, pois na Rússia a comemoração e a troca de presentes se dão principalmente na virada. É para entrar em 2016 com o pé direito. 



15/12/2015

BURIED ALIVE BY LOVE

HIM, sexta passada, no Carioca Club. 

Não sou lá muito fã de show. Nunca fui. Prefiro ouvir música em alta qualidade, em casa ou nos fones de ouvido, acabo indo só nos shows de artista de que gosto muito.

Este ano não assisti a quase ninguém. Esperava ansiosamente o show da Sinéad O'Connor em agosto - que já suspeitava que não fosse acontecer. Ela anda louca de pedra e cancelou semanas antes do evento. Morrissey também eu nunca vi; fiquei sabendo dos shows dele bem em cima e desisti. Semana passada fiquei sabendo do show do HIM, vi que tinha uma promoção da Kiss FM no Facebook sorteando ingressos, participei e ganhei horas depois, fácil assim.

Já tinha visto um show do Peter Murphy no Carioca Club, e tinha achado o som ok. Mas sexta agora estava muito, muito ruim, tudo uma maçaroca grave só. A banda também não ajudou - pau mole, tocando no piloto automático, sem grandes performances. O vocalista Ville Valo está em boa forma física e vocal, mas parecia sem saco nenhum de estar lá, tanto que nem deu bis. Blasé, mal falou com a plateia, conversava com a banda de costas para o público, mal se movimentou. Pau no cu.

Tudo bem que nunca fui grande fã de HIM. Acompanhava mais no começo dos anos 2000, quando estudava finlandês; tenho três álbuns e um DVD; cheguei a ver o Ville Valo uma vez na rua em Helsinque, rapidinho. Para mim eles foram uma espécie de precursores do emo - com o que eles chamam de "Love Metal", um som pesado com letras melosas e títulos como "Join in me in Death", "Your Sweet Six Six Six" e "Buried Alive by Love" (das minhas favoritas). Daquelas coisas divertidas, mas que a gente sabe que é de gosto discutível.

Infelizmente o show só piorou minha imagem em relação ao som dos caras. Eles tocaram todas minhas favoritas que eu esperava ouvir, sem o menor tesão. E para o Murilo, que não conhecia, foi decepção total.

Ainda assim, como fomos de graça, valeu. Me fez ficar com vontade de ir mais em shows, na verdade. Melhor do que o som deles foi ver a animação da plateia cantando junto, essa energia que só se tem ao vivo. E, apesar do som do Carioca Club estar muito ruim, ainda é um lugar tranquilo para chegar, sair, beber, ir ao banheiro.

Observando os fãs, Murilo comentou: "É um povo bem nerd." Ao que tive de responder: "Góticos são apenas nerds vestidos de preto."

Setlist:

Buried Alive By Love
Poison Girl
The Kiss of Dawn
Pretending
Killing Loneliness
Your Sweet Six Six Six
Join Me in Death
Bleed Well
In Joy and Sorrow
The Sacrament
Rip Out the Wings of a Butterfly
Wicked Game
Heartache Every Moment
Right Here in My Arms
The Funeral of Hearts
Razorblade Kiss
Soul on Fire
When Love and Death Embrace
Rebel Yell


11/12/2015

O TERROR DE 2015



É Natal. Época de falar só coisas bonitas e alegres. Eu pouco a pouco vou me tornando um autor/roteirista de horror. Além do Biofobia e do livro novo, estou envolvido em outros projetos do gênero, que dependem sempre do resultado de editais. É o universo que mais me interessa, principalmente as coisas mais obscuras e psicológicas (menos "fantásticas") e eu e Murilo assistimos a uma quantidade absurda de filmes de terror todos os finais de semana.

A imensa maioria é tosca, descartável, embora alguns sejam divertidos. De muitos eu mal me lembro, tendo assistido em avançado estado alcoólico, em muitos nem chegamos até o fim. Mas puxando pela memória, dando uma olhada pelos sites, lembro os melhores (ou mais interessantes) filmes de terror que vimos este ano, mesmo com ressalvas e defeitos. 

Infelizmente, apesar de ser um gênero crescente no país, não consegui colocar nenhum título nacional entre os dez melhores. Bem que eu queria. (“A Bruxa” quase chega lá - a ser brasileiro, digo - tendo entre os produtores o Rodrigo Teixeira). Os exemplos abaixo mostram que nós ainda temos um longo caminho a percorrer...


FOUND



Ok, já falei desse aqui, é um filme que beira o amador, nas atuações, no roteiro, mas tem um argumento estranhíssimo e um desfecho ultra hardcore. Sobre um pré-adolescente que descobre que seu irmão mais velho é um serial-killer. Já gerou um spin-off – o filme que o personagem assiste neste filme foi transformado num longa próprio, “Headless”, graças a uma campanha do Kickstarter. (Esse acho que é exploitation total – daqueles filmes dirigidos por maquiador de efeitos especiais - mas ainda quero ver.)


THE WITCH


No século XVII, uma família isolada numa fazenda à beira da floresta começa a sentir a presença do mal rondando. Filme de arte que está sendo bem aclamado, com ótima atuações e um clima de tensão permanente. É um pouco "etéreo" pro meu gosto, mas não deixa de ser um filmaço. 


APOCALYPTIC



Um found footage bem convincente, sobre uma seita que vive isolada no meio da floresta. Uma dupla de repórteres fazendo um documentário descobre que só restam mulheres por lá, e um patriarca. “The Witch” me lembrou bem dele, mas esse é menos sobrenatural, mais sobre os horrores do fanatismo. Tem um clima bem creepy, e final excelente.

THE VISIT 


A volta do Shyamalan (“Sexto Sentido”) ao terror. Tem um argumento brilhante: um casal de irmãos pré-adolescentes vai visitar os avós maternos, que eles nunca conheceram, e se deparam com o “pesadelo da velhice”: demência, incontinência, caretice. Aos poucos vão percebendo que o terror não termina aí... É bem divertido, apesar de os dois atores mirins serem péssimos e o filme ser feito em found footage (whyyyyyy?!!).


THE BOY


Esse já é um filme de arte - lento, psicológico - sobre um garoto que mora num motel de beira de estrada, coleta restos de animais atropelados e começa a desenvolver instintos psicóticos. O final é meio pau-no-cu, muito didático, mas é um filme bem bonito e impactante.

HOWL


Filme de lobisomem. Bem descartável. Mas tem uma ambientação ótima e um belo clima. Um trem sofre um acidente, para no meio de uma floresta, no interior da Inglaterra, e os passageiros são encurralados por criaturas...


FLOWERS


Esse é outro que beira o amador, mais um projeto artístico do que um filme convencional, sobre mulheres aprisionadas num purgatório. Não tem diálogos e é bem asqueroso. Mas é uma “experiência” e tanto.


IT FOLLOWS


Outro dos mais festejados do ano, numa boa medida entre o indie e o comercial. Após uma transa com um desconhecido, uma garota passa a ser perseguida por uma “entidade” que caminha lentamente, mas nunca a deixa. Uma alegoria esperta de DST, que poderia ter um “monstro” de visual mais marcante.

A GIRLS WALKS HOME ALONE AT NIGHT


Filme iraniano que mistura máfia e vampiros.  Tem um roteiro meio sem sal, mas um visual lindo, preto e branco. Vale ver no cinema, se estrear.


GOODNIGHT MOMMY



É dos meus favoritos. Filme austríaco minimalista de dois irmãos gêmeos que desconfiam que a mãe – que voltou para casa com o rosto enfaixado, depois de um acidente – não é quem realmente diz ser. Tem uma “sacadinha” extremamente previsível no final, mas é um filme bonito, lento e com cenas bem corajosas. 



E para terminar o terror de 2015, vamos hoje ao show do HIM, banda de metal farofa finlandesa que eu ouvia bastante no começo dos 2000. Participei meio por acaso de uma promoção da Kiss FM e GANHEI dois ingressos para o show de hoje. Viu, quem precisa de Jabuti, Oceanos, Prêmio São Paulo quando ganha um prêmio da Kiss FM?



04/12/2015

MINHA RETROSPECTIVA


Pedindo ajuda divina para 2016, na Armênia. 

2015 foi um ano siniiiiistro. Mar de lama de todas as formas, crise econômica, crise ideológica, muitos absurdos. Mas talvez, vendo de forma positiva, tudo fique mais aparente porque estamos mais conectados, menos alheios. O absurdo parece maior porque agora nos damos conta dele, podemos nos indignar, e cobrar...

A virada foi em Itapoá, Santa Catarina.
Pessoalmente, para mim, foi até um belo ano. Teve meses melhores, meses piores, esse final parece que deu uma puxada de freio, mas apesar da crise nacional, não me faltou trabalho, consegui emplacar alguns bons projetos e recebi algumas encomendas que estão movimentando minha carreira como autor e roteirista. 

Uma das primeiras mesas do ano, em Lajes, SC. 

Não foi tão movimentado de eventos como ano passado – porque também eu não estava lançando livro novo – mas tive algumas boas mesas; curiosamente foi dos anos que mais tive eventos literários em São Paulo – só em novembro foram três (talvez a crise tenha feito com que se investisse menos em passagens e hotel e se investisse mais no autor local – pelo menos uma vez na vida vejo algum valor em ser autor paulistano).

Fliaraxá

Das viagens para outros estados, destaco a mesa na Festa Literária de Lajes (SC), em abril; a Fliaxará (MG), de que participei novamente em agosto, e a Armação Literária em Búzios, em outubro.


Em Búzios. 

O meu aniversário passei em Florianópolis com o Murilo, fazendo meus programas favoritos de longas pedaladas, ótimas refeições com frutos do mar e a linda acolhida na Pousada do Marujo. Este ano também voltei a nadar e malhar, e chego em dezembro seis quilos mais magro do que entrei em janeiro. 


Trishyia, Ida e Murilo, no meu aniversário em Floripa. 

Logo depois, Murilo estreou no Masterchef Brasil, o que mudou totalmente a vida dele e, por tabela, um pouco da minha. Pude conferir de perto esse louco mundo dos realities – divertido, mas bem esquizofrênico. Disso ficaram frutos que Murilo segue colhendo e bons amigos, como a Jiang, Aritana, Cecília, Carla...

No dia que ele entrou. 
Com os amigos "famosos". 

Em meio ao Masterchef tivemos também o momento mais triste do ano, um dos mais tristes da vida... Asda, nossa amada coelhinha morreu de complicações de uma cirurgia. Ficou um vazio enorme aqui em casa, roído por ela, que não conseguiremos preencher. Mas ainda quero compensar um pouco com uma nova coelha aqui em casa, logo no começo do ano.

Saudades. 

Um grande momento foi a viagem com minha mãe para a Armênia, em outubro. País de nossos antepassados, foi lindo, emocionante e surpreendente. Consegui cumprir a meta de “um país novo por ano” (foi o 27º) e ainda pude esticar para dois outros que há muito não visitava: França e Inglaterra. Londres foi especialmente agradável, com boas compras, longas caminhadas por parques e canais, revisitando cenários do meu passado. Ano que vem quero ver se consigo fazer uma viagem dessas com o Murilo.

Armênia. 


As perspectivas para 2016... são as piores. Nah, pessimismos à parte, as perspectivas para o MUNDO não parecem boas; não parecem boas também para mim. Não deve haver livro novo, já adianto. Estou com um livro encomendado, pago, muito bem encaminhado, mas devo entregar até julho, o que muito provavelmente significava que sairá no começo de 2017 (pois é, os processos são lentos), vamos ver.


Desembarcando em Paris. 

Estou com outra meia dúzia de projetos de filmes, séries, o longa de BIOFOBIA já inscrito em vários editais, mas nada disso será lançado em 2016. Se eu conseguir viabilizar algumas dessas coisas para serem produzidas (filmadas) no próximo ano, eu já fico feliz.


Londres. 

Reveillon deve ser aqui do ladinho, com o Murilo, no “Solar Biofobia”, a minha casa de campo, em que minha mãe não vai estar. Poderemos passar só nós dois tranquilos, com boa comida, boa bebida, mato, cachorros, uma jacuzzi ao ar livre. Não dá para reclamar. 


Floripa ainda é a melhor do mundo. 


01/12/2015

A ENTREGA

Íntegra da resenha que assinei na Folha, semana passada. 


“A Entrega” é um filme dirigido por Michäel R. Roskam, com roteiro de

Dennis Lehane, baseado num conto seu. Com o lançamento do filme em 2014,

Lehane decidiu romancear o roteiro e o resultado é uma novela noir recheada de

clichês.


Bob é um “bartender solitário” que trabalha servindo bebuns e mafiosos,

tentando deixar para trás um passado obscuro. Uma noite, encontra numa lata de

lixo um filhote de cachorro vítima de maus tratos e resolve adotá-lo. O cachorro

redirecionará seu rumo na vida, ao mesmo tempo que o aproxima de Nadia, uma

mulher problemática também vítima de agressões.


Se o enredo está longe de ser brilhante e original, funciona como

representante de um gênero cinematográfico. Infelizmente, se como romancista

Lehane se tornou um bom roteirista, como roteirista não conseguiu dar vida ao

romance. “A Entrega” é um dos raros casos em que o filme é melhor do que o

livro, ainda que o filme nem seja lá grande coisa.


Além de clichê, o texto é raso e mal estruturado. Bob aparentemente é o

protagonista da história, mas o foco narrativo oscila constantemente, de forma

desequilibrada, migrando para personagens secundários que ganham uma

importância parcial sem nunca justificar o discurso indireto livre. A ideia de

“homem durão amolecido por cachorrinho” já é de gosto discutível, mas nem na

pieguice o livro consegue se apoiar. A relação de Bob com o cachorro não se

materializa e não justifica as ações do bartender no terço final do livro. O autor

não consegue dar uma personalidade ao cão, tornando-o o personagem mais

apagado da história.  As metáforas são pobres, colocadas como comparações:

“começou a sacudir[...] como se fosse a cordinha de um motor de popa [...] Era

um som horrível como se ele estivesse inalando cacos de vidro [...] o rosto

esticado como uma espécie de  máscara mortuária” – isso tudo apenas como

exemplos tirado de um único parágrafo.


No final, A Entrega se mostra um romance pulp dos mais baratos,

moderadamente divertido. Faz mais feio pelo nome do autor – que escreveu

“Entre Meninos e Lobos”, entre outros - e da editora que o publica aqui.

Avaliação: Ruim.

27/11/2015

FIM DE PAPO

Com Manuel, ano passado, no Metrópolis. 

Esse sábado estarei com Manuel da Costa Pinto debatendo minha produção literária na Biblioteca São Paulo (Avenida Cruzeiro do Sul 2630 – Metrô Carandiru), às 11h. Vamos?!

Fico especialmente feliz com o convite – porque por muito tempo achei que o Manuel menosprezava minha obra. Mas ano passado já tive um feliz encontro com ele no programa Metrópolis (foto acima), onde ele elogiou bastante meu BIOFOBIA.

E esses encontros são bons para isso, tirar cismas, birras, ver que nossa grama não é tão marrom ou que nenhum gramado é tão verde assim. (Lembro de uma frase ótima que o Nelson de Oliveira me disse na mesa que tive com ele no Emil: "Tem autor que a gente acha que está em todas, mas é só a gente parar de seguir no Facebook que nunca mais ouve falar". Hahaha. È bem verdade. Estamos todos alimentando ideias equivocadas...)

Enfim, o debate desse sábado deve ser meu último evento literário de 2015, que até foi bem movimentado.

Na Balada, semana passada. 
Minha mesa semana passada na Balada Literária, por exemplo, foi ótima de público, e deu para discutir em profundidade sobre adaptações literárias para o cinema com Hermano Penna, Marçal Aquino e Paulo Lins. Depois, esticamos para o almoço e fiquei para ver a mesa com a Del Fuego, Guiomar e Edyr Augusto, autor paraense do romance Pssica.


Estava há alguns meses com o livro dele na minha pilha. E a mesa dele na Balada teve participação de uma fã entusiasmadíssima, que vendeu muito bem o livro e me fez tirá-lo da pilha. As primeira linhas já deixaram claro que era um grande autor. O primeiro capítulo me deixou em dúvida se eu conseguiria embarcar no estilo telegráfico dele, que me parecia exigir uma atenção que eu não tenho. Mas avançando na leitura me deixou claro que mesmo os grandes fatos se tornam detalhes dentro de uma narrativa enlouquecida e a força do livro está no universo fascinante e assustador que consegue criar, sobre o tráfico de meninas no norte do Brasil. Estará certamente na lista dos finalistas de grandes prêmios do próximo ano. E daria um grande filme na mão do diretor certo. Fica a dica.

18/11/2015

GUERRA SANTA



“A vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico [...]. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno [...]. Já com os evangélicos neopentecostais [...], o caso é diferente [...]. Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie.” – de Eliane Brum, Revista Época:

Aqui: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html

Relia esse texto da Eliane Brum, de novembro de 2011, postado por alguém no FB diante da atual Guerra Santa Mundial (da França, do Brasil...). Recortei os trechos acima, poderia ter reproduzido tantos outros, e pensava em como a visão (e a previsão) dela permanece atual 4 anos depois. Concordo com quase tudo o que ela coloca, mas os pontos de discordância é que me fizeram discorrer um pouco aqui.

“Sabe o que eu acho curioso?” – coloca ela no diálogo do artigo. “Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico.”

Não acho curioso e não acho totalmente sincero. A fé (nas igrejas evangélicas) pressupõe não apenas a crença na salvação individual, mas (na visão mais positiva possível) a salvação do próximo. Quem acredita que a salvação pela fé é o melhor para a humanidade, quer salvar também o outro, como em qualquer ideologia e militância. Quem acredita que reciclar o lixo pode ajudar a salvar o planeta, vai tentar convencer o vizinho, o condomínio, o bairro, as subprefeituras...

Historicamente o ateu não quis “tirar a fé” do cristão porque isso sempre lhe conveio, o “ópio do povo”, blábláblá. A religião é que manteve o povo manso, o povo servil. Agora que os costumes civilizados, da elite educada, avançam num ritmo impossível para o tradicionalismo religioso, o atrito se forma. É um conflito típico de uma sociedade dividida entre os que lêem, estudam e estão conectados com as mudanças do mundo (elite brasileira, elite ocidental) e os que permanecem à margem com a (falta de) cultura ditada pelos únicos livros a que têm acesso (“os sagrados”).

A minha visão já denota, é claro, uma outra discordância e até um preconceito em relação à visão exposta no artigo. “Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico.” Conheço pouco a Eliane (viajamos juntos por alguns dias numa turnê pelo Paraná, em 2012) e posso estar errado, mas não acredito que ela pense exatamente isso. Há a visão comum do ateu em pressupor o crente como inferior. Eu pressuponho. Há um componente racional – de entender que a religião têm mais força nas classes menos favorecidas - já escrevi aqui no blog: "
se o cara acredita em Jesus-Deus-Bíblia, eu já fico com pé atrás. Já acho que é um coitadinho suburbano que cresceu sem uma boa escola, que teve a educação e o lazer centralizados na igrejinha da rua". Há uma incapacidade de ver como intelectualmente capaz um adulto que “acredita em contos de fada”. É um preconceito que eu próprio admito possuir. Como preconceito procuro mudar minha visão – nunca consegui totalmente.

Sei que há grandes pensad... bem, talvez pensadores medianos que tenham fé. Ou talvez a fé presente nos grandes seja uma fraqueza desculpável – sim, talvez isso esteja mais próximo do meu pensamento -, algo como um “guilty pleasure”.

Crentes costumam dizer que “na hora do desespero, todos recorrem a Deus”. Eu não vejo nenhuma incoerência nisso. Sou ateu não por certeza, mas por ser aberto às dúvidas. Não tenho como acreditar que Deus é como pregam os cristãos, ou os muçulmanos, os polinésios... Pode ser uma mistura de tudo, pode ser algo totalmente diferente, pode ser apenas o vazio. Ao meu ver o reconhecimento da dúvida é o que torna alguém ateu.

Então na hora do desespero, na turbulência do avião, não é contraditório que ateus busquem todas as possibilidades de salvação. Mais contraditório talvez seja que CRISTÃOS, prestes a entrar na terra prometida, rever seus entes queridos, entrem em desespero...


No fundo, acredito que a imensa maioria (dos grandes, dos ínfimos) tenha dúvidas, seja racionalmente ateia, tenha a fé como wishful thinking (oooh, perdoe meus anglicismos - pensamento mágico, quis dizer). Por isso todos dão suas escapadinhas, cometem seus pecadilhos, ninguém leva a coisa totalmente a sério, não é, minha gente?

E não é contraditório que quem acredite PIAMENTE em seu Deus tente converter o próximo, salvar o próximo, seja pela cruz, seja pela espada. Isso, meu irmão, é ser religioso de verdade.



Obs: A única coisa a mais que discordo da Eliane é o uso da analogia "como vender gelo para um esquimó" - metáfora gaaaaasta que não faz jus a escritora FODA que ela é. Desculpável, enfim, para uma grande ateia ;)

Saudades, Eliane. Beijos. 

13/11/2015

NOVEMBER SPAWNED A MONSTER

Com Nelson de Oliveira, em mesa hoje, no Emil. 

Novembro é sempre um mês intenso. Concentram-se os festivais literários, lançamentos, festas e eventos em geral. Todo mundo parece estar numa corrida frenética para não virar abóbora, e é por aí mesmo. Semana que vem, por exemplo, tem a Balada Literária, organizada pelo querido Marcelino Freire, e já perguntei há tempos por que ele não faz a Balada em outra época do ano, menos concorrida, tipo logo depois do carnaval. Mas o que acontece na prática é que os projetos, os patrocínios e tudo mais só conseguem ser viabilizados a partir do segundo semestre, então tudo se acumula, o calendário encurta e o povo se agiliza para realizar antes de o ano virar.

Assim, semana que vem estarei em mais uma Balada Literária, numa grande mesa com Paulo Lins, Marçal Aquino e Hermano Penna (sexta dia 20, 11h, na Vila da Fradique).

A Balada tem muito mais coisa legal, muito mais coisa melhor, homenageando Suzana Amaral, com show de Chico Cesar, autores como João Silvério Trevisan, Andrea del Fuego, Paulo Scott, Lourenço Mutarelli e tudo o que está aqui: http://www.baladaliteraria.com.br/

Daí, daqui a quinze dias, dia 28, tenho uma mesa também às 11h, na Biblioteca São Paulo, com mediação do divo Manuel da Costa Pinto. Aqui: http://bsp.org.br/1900/10/29/segundas-intencoes-25/

E HOJE, participei de uma mesa do Emil - Encontro Mundial de Invenção Literária (pomposo, o nome), que teve a mediação surpresa de Nelson de Oliveira, com um público reduzido... mas interessado (o que já é um alento, acredite); é sempre ótimo conversar de literatura com o Nelson. O evento continua até domingo com grandes nomes, em vários pontos de SP. Confira programação aqui: http://www.emil.art.br/

Ao pisar no João Caetano, tive uma emoção especial lembrando que já vi DENISE STOKLOS naquele mesmo palco. É um teatro lindo que precisa ser preservado... (E juro que só vi agora que tinha uma mulher fazendo libras atrás).  

Esta semana TAMBÉM, começou o Festival Mix Brasil, no qual farei uma performance de pompuarism... Mentira! Mas sempre estou presente, seja como público, juri, palestrante, performer, até diretor de curta já fui nesses 23 anos de história. Estive na abertura na quarta e quero ainda conferir alguns filmes. A programação toda está aqui: http://www.mixbrasil.org.br/2015/index.asp


Meu sorriso sempre irresistível e meu "companheiro" mulato na abertura do Mix.


E neste final de semana TAMBÉM estreou o slasher nacional de terror Condado Macabro, do Marcos de Britto e André de Campos Mello (que vi na pré-estreia na terça). Vale bem como exercício de gênero - gosto das homenagens aos clássicos, do gore, do flerte com o absurdo - mas tem uma montagem um pouco longa demais (115min para um slasher?!) e um humor que mira no trash e acerta no tosco. Enfim, são cineastas para ficar de olho:



Estreia também hoje, AGORA! o documentário "Vestidas de Noiva", das minhas queridas amigas Fábia Fuzeti e Gabriela Torrezani, sobre o casamento homoafetivo (gay!) no Brasil. Acabo de desistir (publicamente) de ir. Cheguei em casa correndo, achei que conseguiria fazer este post em 15 minutos e ir à estreia no Itaú Cultural, mas fui respondendo emails em paralelo e agora vejo que faltam quinze minutos para o filme começar e... Fica para a próxima. Estou cansado.

Confira o trailer abaixo e saiba mais sobre o filme aqui: http://www.vestidasdenoiva.com.br/



Nessa corrida desenfreada consegui até ir à Feira Escandinava ontem, arrastando o Murilo. Queria repor meus estoques de salmiakki, matar saudades dos sabores de lá, mas... chegamos um dia atrasado. A feira terminava na quarta. Fica para novembro de 2016, se eu não pousar por aquelas pistas antes...

Daí no meio dessa efervescência toda... recebo um email de Santo André... Tenho saudades de Santo André... Me lembro todo dia de Santo André... Estive em Santo André há três meses, na Casa da Palavra, numa mesa com o filósofo Brunno Almeida Maia. Me lembro bem da data, não por ter sido especialmente feliz, mas por estar HÁ TRÊS MESES cobrando o cachê por uma mesa lá. Hoje me oficializaram o calote, pelo menos em 2015. Fico especialmente irritado porque há algumas semanas recebi num grupo de email uma mensagem de outro autor cobrando uma mesa realizada em ABRIL. Ou seja, quando me contrataram já estavam devendo outros há MESES, já não tinham intenção de pagar.

Não tem dinheiro, amiguinho, abre o jogo; já fiz muita mesa de graça. O que não pode é combinar cachê, autor emitir nota, ficar esperando, se programar, PAGAR impostos e não ser pago. Resumindo PAGUEI para participar de um debate na Casa da Palavra em Santo André. Continuarei cobrando. Ficarei de olho na programação da Casa da Palavra em Santo André. Cuidado com a Casa da Palavra de Santo André. PREFEITURA de Santo André é caloteira.

Novembro passará e ficará só o marasmo, tenho certeza. Em janeiro, fevereiro, março, nada acontece no mundo mágico das letras. Para mim é sempre bom para escrever, para ler. Não entendo autor que vive numa eterna efervescência, festejando, rindo, viajando. Que horas ele lê? Quando ele escreve? Como ele SOFRE? Gosto de poder acordar (tarde) com uma longa manhã, ir tomando café e trabalhando num livro até a hora do almoço, daí migrar para as traduções. Para ler, preciso de madrugadas livres, preciso trabalhar junto com as cáries; sou mega ansioso, infelizmente não sou daqueles que consegue ler em qualquer lugar, em qualquer condição, qualquer coisa me tira a atenção. Mas também preciso comer. Tenho credores. O Itaú depende de mim. Também tenho a fraqueza de querer ser feliz. Oh! Maldito câncer que me faz sorrir!

Com Brunno Almeida Maia, em Santo André, ainda esperando...

02/11/2015

ZÉ DO CAIXÃO


Estreou neste final de semana no MIS em São Paulo a exposição À Meia Noite Levarei Sua Alma, sobre o cinema de Zé do Caixão. Trechos de filmes, objetos de cena, figurinos e roteiros são apresentados numa espécie de labirinto, que é finalizado com um pequeno trem fantasma. Eu e Murilo fomos no sábado mesmo, na abertura, receosos se conseguiríamos entrar sem convite, visto as filas absurdas que têm se formado nas exposições do MIS (Kubrick, Bowie, Castelo Ratimbum e afins). Estava completamente VAZIA, talvez pelo feriado, talvez pelo tema. Conseguimos ver tranquilamente e ainda assistir a um debate em seguida.

A exposição, na verdade, não é grande coisa. Pequena, apresenta algumas curiosidades aos fãs, mas não creio ser muito didática a quem não conhece bem o universo do personagem e de seu criador. De toda forma é uma homenagem justa a José Mojica Marins, grande cineasta que nem sempre é bem compreendido.

O debate girou um pouco em torno disso - com Liz Marins (a filha do homem), Paulo Sacramento (que produziu o último filme de Mojica, "A Encarnação do Demônio"), Virgílio Roveda (assistente de direção) e Marcelo Colaiacovo (curador da mostra), mediados por Carlos Primati, jornalista especialista em horror. Discutiu-se muito sobre o reconhecimento de Mojica no Brasil e exterior. Primati apontou bem a falácia sobre as injustiças em relação a Mojica. Apesar de estar longe de ser uma unanimidade, poucos cineastas brasileiros têm tanta repercussão, receberam tantas homenagens e prêmios e são tão conhecidos (se não "reconhecidos") e cultuados como Mojica. A exposição no MIS é um dos exemplos disso.

O debate (foto de Patty Fang) (Mojica está bastante debilitado e não foi ao debate - mas soube que fez uma rápida aparição no MIS, mais tarde, quando já havíamos ido embora). 

Discutiu-se bastante também o rótulo de trash que o personagem e o cinema de Mojica receberam. Eu concordo em termos - embora os fãs exaltem o diretor como "gênio", o caráter artesanal de seu cinema às vezes resvala no trash das atuações, dos diálogos. Isso não tira o mérito de Mojica como criador. Há antes de tudo uma personalidade muito forte em seu cinema; ele conseguiu criar um universo próprio e fazer horror nacional de verdade. O clima surrealista, de pesadelo, que Mojica confere ao seus filmes é, ao meu ver, seu grande trunfo; e clima é o principal que um filme de terror precisa ter.

Por esses motivos o meu favorito é "Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver", o segundo da trilogia do Zé do Caixão. É bem divertido e tem um clima de insanidade além dos padrões. Estou longe de ser um especialista na obra dele, mas todo filme novo que assisto, me surpreendo com a ousadia. Fui assistir "A Encarnação do Demônio", no cinema em 2008 com um certo cinismo, meio preparado para achar engraçado, e me deparei com uma obra pesada, em grande sintonia com o melhor cinema de horror alternativo atual. Ao meu ver, o pior do filme é Mojica como ator, que por vezes se torna risível, e traz o carimbo de trash à película.

E as homenagens a Mojica não se restringem à exposição. Agora em novembro estreia no Space a série de TV baseada na carreira dele, com Matheus Nachtergaele interpretando-o e alguns amigos queridos meus no elenco e produção. Ainda não vi, mas estou ansioso.



Também será relançada a biografia de José Mojica Marins - "Maldito" - escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, que eu tenho, li anos atrás e amei. Mas não perderei essa nova edição "de luxo" pela Darkside Books (que tem feito tanto pela literatura de terror no Brasil) com 200 páginas a mais (provavelmente atualizando a biografia até os dias atuais).

Olha que beleza de edição. 

E quem quiser se aprofundar ainda mais na carreira de Mojica pode participar do curso sobre o cinema dele, ministrado pelo Carlos Primati, também no MIS, a partir da próxima segunda. Já fiz dois cursos com Primati (de cinema de horror em geral e de cinema de horror nacional) e sempre é fascinante; o cara é um profundo conhecedor e apaixonado pelo tema. Informações aqui:
http://www.mis-sp.org.br/icox/icox.php?mdl=mis&op=programacao_interna&id_event=1957



Espero que tudo isso contribua com o espaço para o horror nacional, na literatura, no cinema. Eu cada vez mais tenho me entregado ao gênero (o filme de BIOFOBIA que estamos fazendo é afinal terror psicológico; meu próximo romance também será) e vejo com alegria amigos e colegas criando uma nova cena para todos nós.


26/10/2015

ADMIRÁVEL VELHO MUNDO

Tio San em Londres. 

"O mundo de que eu gosto está deixando de existir", constatou minha mãe dia desses. Ela esteve em Nova York, antes de me encontrar em Paris, e atualizou sua visão das cidades, agora com menos livrarias, livros de qualidade discutível, menos cultura. Envelhecer tem muito a ver com a incapacidade de readaptação, prender-se "ao mundo que não existe mais", assim é que saem as frases que começam com "no meu tempo…"


A cidade em que William Blake nasceu não existe mais.

E eu entendo. Tive sensação semelhante, talvez em menor grau, ao vir agora para Londres. Há mais de uma década que morei aqui, trabalhei como barman numa boate, tinha vinte e quatro anos e a cidade era outra.

Reencontrei a querida Rebecca, com quem trabalhei no Ghetto em 2002. 

Para mim Londres sempre foi muito associada à música, meus maiores ídolos, meus discos favoritos, Suede, Bowie, Morrissey, Siouxsie, Pulp, Eurythmics… Aqui comprei centenas de discos, singles, conheci pessoalmente alguns desses artistas. Então para mim é inconcebível uma Londres sem loja de discos, ainda que o disco já pertença a um mundo "que está deixando de existir".

Perguntei ao meu amigo Márcio Custódio (dono de loja e ativista do vinil em São Paulo) onde ainda podia encontrar boas lojas de disco (vinil e CD) por aqui. Das outras vezes que estive em Londres, ainda existiam mega lojas como Virgin, Tower Records, o paraíso de qualquer fã de "britpop". Agora resta um punhado de lojinhas escondidas, que parecem mais sebos do que lojas de novidades (Paris ao menos ainda tem as Fnacs com grandes seções de música - ou seja, estranhamente, é mais fácil comprar discos de artistas ingleses na França).

(Não por acaso, um dos discos que comprei foi a edição dupla de "The Inevitable End", do Roykopp, o título já anuncia o fim do formato - e eles declararam que foi o último "álbum" que lançaram, agora só faixas soltas em formato digital.)

Não que eu esteja tão desadaptado assim - todos os discos que acabei comprando eu já havia baixado há algum tempo. Mas baixar disco já está ficando ultrapassado em si. Semanas atrás, jantando na casa de minha amiga Vanessa Krongold (vocalista do Ludov), discutíamos sobre os serviços atuais de streaming. A isso eu ainda não consegui me adaptar - não entendo como essa coisa de precisar estar online para ouvir a música pode funcionar melhor do que ouvir num iPod, sem depender de sinal, conexão. Fora que quem ama a música quer ter, eu mesmo já perdi muita coisa em iPod sem backup que deu pau; se um serviço de streaming deixa de existir todas suas playlists vão embora para sempre… não?

Então já estou nesse mundo intermediário - baixo músicas, mas quando gosto quero comprar o "disco"; tiro fotos pelo celular, mas mando imprimir de tempos em tempos as favoritas. Quantos arquivos digitais vão resistir (e existir) daqui a vinte, trinta anos?

Eu sei, eu sei, sou um tiozinho...

Voltando a Londres, a cidade não tem mais loja de música (a música de Londres pode ser encontrada online, em qualquer lugar do mundo), mas ainda tem muito a oferecer. Fiquei impressionado em como a cidade está vibrante e cosmopolita. A quantidade de lojas, de gente, de ofertas. (Hoje de manhã me peguei vasculhando os 4 andares da loja dos M&M's, que além dos chocolates vende de tudo, de brinquedos a roupas, canecas e doces personalizados). Há também mais livrarias do que em Paris (por enquanto). Talvez tenha sido especialmente impressionante para mim por ter acabado de voltar da Armênia, um país ainda tão vazio, tão desprovido de turistas. (Lá ainda não tem nem MCDONALDS). Mesmo os pontos mais conhecidos da Armênia ainda são tranquilos de se visitar. Aqui é tudo tão excessivo...

Hyde Park

Apesar de tudo, Londres ainda preserva sua enorme quantidade de parques e opções de lazer ao ar livre. Ontem, passeando aqui pelo bairro (King's Cross) encontrei um "parque natural", com um foco todo na preservação da "vida animal urbana" (basicamente insetos, morcegos, alguns pássaros e anfíbios). Também encontrei o Regent's Channel, que leva até Camden Town, com patos, gente correndo, andando de bicicleta.

O canal

É deprimente pensar que São Paulo briga para ter opções como "abertura da Paulista", "fechamento do Minhocão". Alguns domingos atrás passeei com o Murilo no minhocão fechado e achei das coisas mais deprês da vida - talvez seja até melhor passar o domingo no shopping - um viaduto horrível, cinza, cercado de uns prédios pixados e detonados, parecia que eu estava num pós-apocalipse zumbi e o povo todo andando sem carro no asfalto tentando encontrar abrigo. Pobre paulista, pobre São Paulo.

Camley Natural Park

As vespas interditando o parque (!)
E é para lá que volto. A viagem agora está acabando. Amanhã de tarde pego o trem para Paris e de noite o vôo de volta ao Brasil. Embora eu ache que viagens profissionais, como autor, tenham mais sentido, foi bom ter sido turista. Caminhei muito em Londres, fiz ótimas refeições em Paris, Armênia foi o ponto alto. Volto com a conta bancária arrasada, mas a mala cheia de compras e presentes. Saudades do meu lôro e da coelha… (É, da coelha não tem jeito…)

A cidade, agora há pouco


22/10/2015

MAMA ARMÊNIA

Pagando meus pecados em grande estilo.
Como típico brasileiro, minhas origens são uma mistura incerta (que não deu lá muito certo), mas que, no caso da minha família podem ser rastreadas principalmente na Armênia. Meu lado materno vem de lá, de meus dois avós, filhos de imigrantes que vieram ao Brasil em diferentes momentos do genocídio causado pelos turcos (com auge em 1915).

O Monte Ararat é símbolo do país, pode ser visto da capital, mas atualmente está em território turco. 

Talvez tenha sido um trauma que atravessou gerações, mas estranhamente ninguém da família próxima, tios, primos, nem mesmo minha avó (que já nasceu no Brasil) nunca visitou o país, ainda que nossas origens armênias sempre tenham sido exaltadas.

Ararat da janela do meu quarto de hotel. 

Eu também demorei. Armênia se torna agora o 27o país que visito. E confesso que esperava menos - talvez um país mais pobre, talvez menos bonito ou menos interessante de se visitar. Mas vim a tempo.
A paisagem compensa. 

Apesar da crise, este foi um bom ano profissionalmente para mim. E me orgulho que minha literatura tenha me proporcionado isso, possibilitado que planejasse a viagem e convidasse minha mãe. Estamos muito bem instalados num hotel quatro estrelas no centro de Erevan, com uma bela vista do Monte Ararat. Aproveitamos esta semana para conhecer não só a capital como fazer uma série de excursões turísticas pelo interior - Lago Sevan, Tatev, Noravank, mosteiros e mais mosteiros…

Mosteiros e estradinhas...

No campo. 

Pegamos uma agência de turismo local e planejamos o que poderíamos fazer com o tempo que tínhamos; o passeio de ontem durou treze horas, num ônibus lotado de russos. As paisagens são magníficas, de florestas a montanhas nevadas, regiões semi-desérticas e vilas. O turismo aqui é muito baseado na religião (a Armênia foi a primeira nação cristã e resiste bravamente cercada pelo mundo muçulmano) e cansa um pouco ouvir os guias contando (monocordicamente) sobre as construções das igrejas, mas o visual compensa. É curioso conhecer a história daqui e, de certa forma, identificar como minha própria história, faz com que me sinta, em certo grau, menos turista. Eu passaria um tempo aqui.

Dona Elisa Nazarian perdida na neblina.

O povo tem aquele tipo caucasiano - as mulheres bem mais bonitas do que os homens. Como estou numa viagem familiar, e passei grande parte do tempo na estrada, não conheci o "fervo", mas também, pelo que sei, Erevan está longe de ser uma cidade boêmia. O clima está ok, um friozinho de outono. Só ontem que demos azar no teleférico de Tatev, que estava coberto com uma neblina absurda e praticamente não vimos nada.

Os carneiros parando o trânsito. 

Em termos culturais, a marca da união soviética (da qual a Armênia fez parte) ainda é muito forte. O russo é a segunda língua do país, a comida tem muito a ver com a de lá, e um pouco do temperamento. O povo não é muito simpático, ninguém fala inglês e eles não se esforçam para ajudar. Mesmo minha mãe, que é exemplo de simpatia e sociabilidade, fica constantemente no vácuo ao dizer bom dia ou tentar engatar uma conversa com alguém. Há aquela tentativa constante de enganar e tentar tirar mais dinheiro do turista, mas também me pareceu um país seguro.


Recorrendo ao cardápio turístico em inglês. 

Essas bagaças com nozes que vendem nas vilinhas são uma delícia. 

A capital é bem cuidada, ruas, canteiros, limpa, tranquila, bonita, ainda que longe de cosmopolita. Tem um clima europeu, talvez de cidade menor. Os supermercados têm uma ótima oferta - bem integrada ao resto da Europa - e as gôndolas enormes de vodca (armênia, russa e escandinava) me impressionam; acho que descobri de onde vem minha predileção. E, para se visitar, é um país barato.

Uma pequena amostra do paraíso das vodcas. 
Dona Elisa Nazarian também está positivamente impressionada, gostando bastante. É o que sempre digo para ela: bom que ela pode vir a tempo, enquanto ainda está andando, comendo com os talheres, raciocinando razoavelmente…

Elisa Nazarian reencontrando as origens.

Amanhã já volto para Paris, no final do dia pego o trem para Londres, onde fico sozinho por quatro dias, daí de volta para o Brasil. Não sei qual será o próximo país novo que vou conhecer - na lista de desejos estão Islândia, Tailândia, Austrália e Itália (onde até já publiquei livro mas, infelizmente, nunca fui convidado). Minha lista atualizada de países fica assim, em ordem alfabética:

ALEMANHA
ARGENTINA
ARMENIA
BELGICA
BRASIL
CHILE
COLOMBIA
DINAMARCA
ESCOCIA
ESPANHA
EUA
ESTONIA
FINLANDIA
FRANÇA
HOLANDA
HUNGRIA
INGLATERRA
JAPAO
MEXICO
NORUEGA
PERU
PORTUGAL
REPUBLICA TCHECA
RUSSIA
SUECIA
URUGUAI
VENEZUELA

Dona Elisa solta a franga, digo a pomba, no Lago Sevan.

16/10/2015

FELIZ EM FRANCÊS

Com minha mãe, em Paris.
Há algo de melancólico em Paris. Para além do charme, da beleza, da comida divina, há um clima cinza que não vem só do frio (e da chuva) que estamos passando esses dias. Talvez seja exatamente isso, o cinza. Esse concreto envelhecido de cidade histórica, que pede por mais vida.

Estou aqui há três dias. Minha mãe chegou há dois. Estamos a caminho de Erevan, na Armênia, nossa primeira vez e meu 27o país. Foi minha ideia e meu convite. Aproveitei que foi um bom ano de projetos e encomendas para mim e decidi que era hora de conhecermos a terra de nossos antepassados, uma das nações mais antigas do Cáucaso, ex república socialista soviética.

Quis começar por Paris porque, apesar de diversas passagens pela Europa, há treze anos que não vinha aqui. Na primeira tinha vinte e quatro, começando um mochilão pela Europa que iria me levar a Londres, onde acabei trabalhando alguns meses como barman. Em Paris, foi quase um mês, basicamente sendo um "club kid"- os dois primeiros dias de Louvre e turismo, depois só vi e vivi a cidade de noite, nos clubs, nos afters, pastilhando-me em delírios. Eu era jovem e tudo era lindo.

Reencontrando o Gary, amigo de 2002, de quando éramos "club kids".

 Agora reencontrei a mesma cidade e adorei ter vindo. Mas serviu também para reafirmar a mim mesmo como essas cidades "cosmopolitas" me estressam. Como lugares tranquilos, de praia, de natureza, onde eu possa praticar atividades físicas intensas, e ao mesmo tempo manter um ritmo mais tranquilo é bem mais meu ideal de férias. "Paris é a sua cara", diz muita gente que me conhece, mas não me conhece tão bem assim (basicamente, todos os meus amigos); agradeço porque creio ser um elogio, mas eu sou paulistano, vivi quase toda a vida em São Paulo, não consigo me seduzir por ruas movimentadas, transporte lotado e filas para o caixa.

Assim, Paris ainda perde feio para Florianópolis como minha cidade favorita no mundo.

Partimos para Erevan amanhã cedo. Vamos ver o que (me) identifico na Armênia. Ainda terei mais um dia em Paris na volta, e quatro dias em Londres.

Prometo passar por aqui.


E renovando meu culto por Wilde, no Père Lachaise.

DIA DA CRIANÇA

Feriado de Dia das Crianças - embora alguns insistam que é dia da Nossa Senhora Aparecida, como se o Brasil não fosse um país laico... V...