27/09/2013

PLANTAS, PETIZES E PIRATAS. 


Novo do Cansei de Ser Sexy. 


E estava para postar do novo do CSS. Eu gosto, gostei e sempre ouço. Acho lindo como uma banda "do baixo augusta" explodiu no mundo com toda a esperteza do submundo paulistano. Não são exatamente amigos, mas já dividi palco (na época que eu mesmo tinha banda) e papos com Adriano Cintra, e Luisa Sá é uma querida amiga de baladas ancestrais. Me sinto representado.


Encontrando Lovefoxxx na Escandinávia em 2011.

Acontece que eles mesmos brigaram entre eles. Adriano Cintra, mentor-produtor da banda, resolveu sair em 2011 e temia-se pelo futuro da banda. Vi um show em Oslo, no final de 2011, conversei com a Luisa e fiz uma materiazinha para a Noize sobre isso:(http://www.santiagonazarian.blogspot.com.br/2011/11/css-rockfeller-oslo-resenha-que-fiz.html)
A banda continuava à toda fazendo shows, mas e o que faria em seguir?

O resultado é "Planta", o novo álbum de estúdio, lançado a poucos meses.

Como eu disse, eu gostei. Não amei. Acho bem seco, a ausência do Adriano é sentida nas melodias e produções, mas ainda há bons momentos, especialmente nas baladas, "Frankie Goes to North Hollywood" e "Hangout" (minha favorita). Eles parecem ter dado vários passos atrás, voltado ao som básico e descompromissado que os fizeram célebres, em primeiro lugar. Seria mais legal se fosse um pouco mais espontâneo (ou sem-noção, como as primeiros demos do CSS), mas ainda há coisas bem gostosinhas. Pior do que o primeiro e o terceiro, melhor do que o segundo.

Na verdade, acho que entendo os dois lados. Adriano - que estava cansado de uma banda que não tocava, e queria profissionalizar as meninas - e as meninas, que só queriam se divertir e manter a tosquice marca-registrada. De qualquer modo, acho uma pena. Porque (a vocalista) Lovefoxxx tem um carisma e uma presença de palco absurdos e (o cérebro) Adriano Cintra é um grande músico-produtor, e um poderia continuar se beneficiando horrores do outro. Quem sabe não fazem as pazes num futuro próximo?





Mas além deles, uma série de amigos lançaram coisas bem bacanas esses tempos. Gosto sempre de divulgar (embora nem sempre sinta uma reciprocidade...), e não acho nada vergonhoso dizer "Ei, ele é meu amigo! Eu conheço! É meu amigo!" Mais vergonhoso é invejar os amigos e não ajudar na propagação, não?

Dani Umpi é um cantor-performer-escritor uruguaio (e meu editor peruano jurou que ele seria meu tradutor de Mastigando Humanos no Peru, que nunca foi lançado) apaixonado pelo Brasil, que sempre faz coisas fora da casinha. O clipe novo dele é um ótimo exemplo de como não é preciso grandes produções para se fazer um viral, só uma ideia bacana. Achei lindinho e compartilho.













Olha que cult no último: Michel Melamed (que assina a orelha da nova edição de Mastigando Humanos), Dani Umpi e eu, na balada literária de 2009. 

E continuando, o querido Guilherme Weber dirigiu um lindíssimo clipe a la Anthony and the Johnsons para o Paulo Carvalho, com participação da fofíssima Salete Campari. É o baixo augusta novamente no poder.




E o meu muso Thiago Pethit (que se você acompanha este blog há tempos, você viu bem antes aqui) lançou um clipe que já é hit, dirigido pelo grande Heitor Dhalia, que já me pagou um pão de queixo no Metrô Sacomã, Tem participação do musinho Vini Uehara, que bem que podia continuar com sua banda Youth Parade, que era uma delícia e também já postei aqui.





E de bonusssss... o novo da MARLI a Rainha das Trevas brasileira: Macumba Pirata.

Empane o bebê negro, farinha de trigo até o dedão, vamos banhar em óleo, e jogar na boca do vulcão. Quero ser amigo dela também!




Vamos lá gente! Quero ver todo mundo pirateando essa macumba!

26/09/2013

REGURGITANDO HUMANOS

Sempre um Papo, com a querida Ana Rosa, em BH (Fotos Jackson Romanelli)

Minas Gerais foi mais uma vez muito carinhosa comigo (isso devia estar no plural?). Fui à convite do Sempre um Papo, mas consegui emplacar também matérias bem bacanas nos jornais Hoje em Dia e O Tempo e uma nota do lançamento no O Estado de Minas, além de gravar uma entrevista para a Rede Minas. A apresentadora, Daniella Zuppo, do Agenda, foi uma querida e parecia mesmo já ter lido o livro (e gostado). São essas coisas que fazem valer a pena e por isso que adiei meu suicídio para daqui a quinze dias.


A mediadora do bate-papo - que tinha o incrível nome de Ana Rosa, como no livro - além de ser uma fofa, fez muito bem o dever de casa e conversou em profundidade comigo sobre meus sete livros, e eu também dei uma palhinha do oitavo. Tudo foi gravado para um programa da TV Senado. Assim que eu tiver o link, posto aqui. 

Acabei de entregar esse meu próximo para a editora, estamos começando a conversar sobre o lançamento no próximo ano, então estou naquela fase de achar que os anteriores estão aquém, com uma certa ansiedade em mostrar que estou vivo, produtivo e com sede de vingança. 

Mas está sendo ótimo que Mastigando Humanos teve essa revival espontâneo este ano em que não estou lançando nada novo. Principalmente porque me sinto esquecido e desprestigiado no meio (ou nas panelinhas?) literário. E é bom ver que o livro continua sua carreira, independente da minha vontade ou da sabotagem alheia. 

Daniella Zupo, do Agenda. 

Não foi planejado. Já havia conversado com a Record sobre uma nova edição, mas com a adoção do livro no vestibular da UEPB, apressamos o processo. Daí ainda teve as edições espanhola (já à venda) e a italiana (que já vi para encomendar por vários sites na Itália, mas acho que ainda não saiu. Nem vi a capa!) e fez com que esse livro fosse (novamente) meu grande lançamento este ano. 

Ele já teve uma bela carreira quando teve a primeira publicação, em 2006 - é dos livros que não tenho nada a reclamar da divulgação/repercussão - então tudo o que surge agora é lucro. 



Autógrafos em BH. 

Com pouco mais de dez anos de carreira, sete livros lançado, a gente fica naquele dilema. É claro que conquistei mais do que muitos autores, tenho meus leitores, meu espaço. Mas o espaço da literatura já é sempre restrito, e fica a dificuldade de sobreviver (como autor e como ser humano, pagar as contas, etc) se você não está no primeiro time. Eu me contentaria em ser de um time alternativo, paralelo, porque realmente acho que é aí que pertenço e não busco ser mainstream. Mas não há muito essa alternativa neste país. E não falo nem só em termos de literatura. Se você é artista, ou você está entre os grandes, ou precisa encontrar outro emprego para sobreviver. Eu nunca vivi exclusivamente dos meus livros, mas eles é que promovem minhas traduções, roteiros, palestras, textos de jornal. Para conseguir esses trabalhos correlatos, é preciso estar em evidência como autor, e esse é um processo tão árduo...

Felizmente tenho motivos para ser otimista e acreditar que minha obra permanece e que repercussões positivas continuarão a vir com o tempo. O desafio é sempre imediato, como vencer dia a dia.

Aproveitando:

Para quem pediu, perguntou, quer saber. Não posso vender "Mastigando Humanos", nem tenho estoque aqui pra isso. Mas ainda tenho um estoquezinho de FERIADO DE MIM MESMO (das primeiras edições, da Planeta) que está ESGOTADO nas livrarias e posso vender autografado. Me manda email no santiagonazarian arroba gmail.com, que mando as coordenadas. É para acabar com os que sobraram aqui em casa, hein? Depois só quando (e se) sair uma nova edição pela Record. ("Morte sem Nome" e "Olívio", sem chance por enquanto. Os outros 4 estão à venda nas boas casas do ramo)

20/09/2013

SEMPRE UM PAPO


Nesta segunda, 19:30, no Palácio das Artes, em BH.

Vou estar lá batendo um papo sobre literatura com o público e lançando em primeira mão a nova edição de Mastigando Humanos.

"Sempre um Papo" é um evento de literatura bem legal, organizado pelo jornalista Afonso Borges. Eles contam com uma ótima estrutura e assessoria de imprensa, que sempre faz a diferença para divulgar um livro. Eu estive lá em 2011, lançando Pornofantasma. 

Parece que o evento será gravado e transmitido pelo site. Mas quem estiver em Belo Horizonte, apareça, porque não terá sentido eu ficar falando com as paredes (ou com uma webcam).

Provavelmente será o ÚNICO evento literário de que participarei este ano, no Brasil, não me pergunte por quê. Por um lado é bom, porque livro novo mesmo eu lanço ano que vem, e sempre prefiro viajar quando tenho algo novo a divulgar. Mas é preocupante eu estar tão afastado do meio literário. Preciso reverter isso; é o preço que se paga por tentar fazer algo diferente. Os não-integrados se desintegrarão...

Por enquanto, sobrevivo das glórias do passado, me arrastando como jacaré. Além dessa nova edição da Record, Mastigando Humanos saiu há alguns meses na Espanha (com minha turnezinha por lá) e no final do mês será publicado na Itália; além de ser leitura obrigatória da Universidade Estadual da Paraíba.

Ainda não entendi por que NINGUÉM organizou um evento para mim em João Pessoa...


13/09/2013

TRÊS GRANDES NOVELAS - 
TRÊS PEQUENOS ROMANCES


Tive uma daquelas temporadas de só ler contemporâneos. Alguns eu não gostei - então não vou citar aqui; teve um ótimo romance inédito de estreia para o qual fiz o prefácio - então coloco quando for publicado; e teve ainda os três que comento a seguir.

O que é um romance? O que é uma novela? Discuti isso no post anterior. O novo romance de Andréa del Fuego e o de estreia de Guille Thomazi poderiam ser considerados novelas - pelo tamanho e pela estrutura (focam um episódio num curto espaço de tempo). O novo do Michel Laub, embora curto, tem mais estrutura de romance não-linear - um período mais longo, entrelaçando diversos momentos de um mesmo personagem. Mas a rigor isso não importa muito, os três são grandes novelas, grandes romances pequenos.


Já era tarde avançada quando os cachorros anunciaram que vinha alguém. Caminhei até a janela e vi que meu filho vinha a galope. Mais cedo do que o esperado. Meu coração apertou quando vi que ele vinha sem a Isabel na garupa. Ele surgiu pequeno através da janela. A princípio eu quis interpretar que era uma brincadeira deles, ele a cavalo fugindo dela, ela reclamando e depois ele voltando para buscá-la. Mas ele não parou, nem olhou para trás. Súbito percebi que estava prendendo o fôlego, esperando que a imagem aumentasse para poder distinguir no seu rosto algum auspício para meu alívio, mas não. Não foi o que vi. 

Guille Thomazi é um jovem catarinense que lançou no primeiro semestre seu livro de estreia, Gado Novo, pela 7 Letras (que já foi casa de estreia de grandes nomes dessa geração, como Ana Paula Maia, Veronica Stigger e Carola Saavedra, entre outros). É uma novela rural-pecuarista, na qual o assassinato de uma menina é visto por diversos pontos de vista espalhados pelo campo. Com frases curtas, diálogos indiretos (que salvam a narrativa de qualquer tom paternalista ou falso de "linguagem do homem do campo") Thomazi constrói uma narrativa de forte densidade poética, que justifica e sustenta a brevidade do livro (de 66 páginas). Mais um trecho:

Um engole o cuspe,  o outro cospe em demasia. O de sotaque paraguaio fuma cigarro de pala. Olho de vidro, cicatriz na cabeça nua sob o chapéu surrado. De pele curtida de sol e poeira, fala mansa e voz grave. Engole o cuspe. O mais jovem limpa e corta as unhas com o facção e evitar olhar nos olhos. Cospe. Feio e dentes podres. Subalterno. Ainda não fumou. Botas limpas de couro de potro. Guarda o facão, responde minha pergunta e não lhe vejo os olhos. Mira o horizonte. Cospe. Galpão organizando, conquanto sujo. 

São imagens telegráficas que criam um cenário muito rico, cinematográfico. Um roteirista habilidoso, que se dispusesse a destrinchar a estrutura eminentemente literária do texto poderia transformar Gado Novo numa bela obra cinematográfica.

Ótimo. Não conheço Guille Thomazi pessoalmente - o livro veio por assessoria de imprensa - mas é daqueles novos autores que respondem a pergunta: Quem mais que está aí, que ainda não está nos holofotes? Que talvez devesse estar aparecendo mais? Eu, apesar do meu alcance restrito, quando encontro um desses não posso deixar de divulgar.



Gilsinho precisa entender que a mãe dele é chegada em homem, ele não precisa ficar ameaçado por ser um. Sendo filho, ele está em lugar privilegiado. Ele terá amor, mesmo que eu o odeie. 

Esse é o tom mordaz, irônico e por vezes absurdo do novo livro de Andréa del Fuego, As Miniaturas. Pelo olhar de uma mãe taxista, de um filho frentista e um "oneiro" - um funcionário que trabalha no campo dos sonhos - del Fuego desconstrói as fronteiras entre o surreal e o cotidiano, o onírico e o banal. É algo como uma "capirinha de Kafka", ácida mas deliciosa. Os capítulos passados no campo dos sonhos - num edifício onde os oneiros trabalham sobre os sonhos dos personagens - na verdade me interessaram menos, porque os capítulos "cotidianos" já têm um humor tão absurdo e delicioso, que revelam o verdadeiro talento de del Fuego, e não precisariam escancarar para o surreal. De todo modo, ela confirma uma voz muito própria, e uma inventividade genial como contadora de histórias.




É preciso alguma coragem para se machucar de propósito. Algumas pessoas passam a vida toda sem conseguir aplicar uma injeção em si mesmas. Não é qualquer um que tira um espinho usando a ponta de um canivete. É mais fácil pensar em tomar um frasco inteiro de remédios para dormir para sempre sem sentir nada do que bater uma porta no dedo indicador. 

E só Michel Laub poderia lançar um romance chamado A Maçã Envenenada e ser levado a sério. Seu protagonista é um jovem fã de Nirvana que analisa a ascensão e morte de Kurt Cobain em contraste com o final de sua própria adolescência, o relacionamento com a namorada, a banda de amigos, o período no exército e uma viagem para Londres. Com um tom por vezes jornalístico, Laub faz pensar quanto daquilo tudo é fato (e relacionado com sua própria biografia), o quanto está a serviço da literatura.

Conversei recentemente sobre isso com um grupo de oficineiros - uma menina me apontou que tinha a impressão de que essa geração (a minha geração) só escrevia sobre si mesma, que era mais uma questão de ego do que literatura. Eu discordo em parte. Acho que há muitos livros com protagonistas próximos de seus autores, mas, nos bons casos, isso vem a serviço de uma história e confere uma verdade única ao texto - bem preferível do que autores que adotam tons falsos para tratar de algo que não conhecem bem. É essa proximidade com o biográfico que torna textos, como o de Laub, tão íntimos, e que os expandem muito além da autobiografia.

Michel Laub é pouco mais velho do que eu - e lendo seu livro parecia que eu acompanhava visões paralelas, às vezes coincidentes, às vezes tão distintas das que eu mesmo tive em 1993-1994. Nunca fui fã de Nirvana, mas obviamente vivi nesse período, também já morei em Porto Alegre (onde se passa grande parte do livro) e estive na Inglaterra em 1994 (mesmo período do personagem - e enquanto lá ecoava para ele a morte de Kurt Cobain, eu descobria o brit pop, e as verdadeiras bandas da minha vida - como Suede).

Acima de tudo, A Maçã Envenenada é uma bela amostra da estrutura literária Laub - que tem uma trama muito bem definida, contada de maneira não-linear e entremeada de digressões. Eu gostaria de saber mais como foi armado o romance (se houve uma escaletagem prévia, se ele alterou capítulos de lugar, etc). Gostei bem.

E ainda tem tanta gente com quem estou em falta, tanta gente lançando livro este ano - para aproveitar Frankfurt, a Copa, o fim do mundo - mas vou dar uma pausa para voltar aos clássicos - tantos que ainda faltam ler da biblioteca básica - vamos ver para onde sigo.


06/09/2013

O ROMANCE, A NOVELA, A CRÔNICA, O CONTO E A FRASE DE EFEITO...



Esses dias apareceu no meu Facebook:


Ele: Cara recentemente li o seu livro ''Mastigando Humanos' e achei ele muito interessante...Porém não entendi porque que ele é um romance?
Eu: O que é um romance?
Ele: Poxa isso foi socrático...
Eu: Romance é um formato literário, mais do que um gênero. Uma categoria.
Ele: ...
Eu: As categorias mais conhecidas atualmente são POESIA, CONTO, NOVELA E ROMANCE. O romance é simplesmente (em linhas gerais) uma narrativa longa, ocorrida num espaço longo de tempo de um ou mais protagonistas.
Ele:...
Eu: Não tem nada a ver com amor ou coisa assim, necessariamente.
Ele: Maldito ensino médio público.

Haha. Achei fofo. E compreensível e desculpável um adolescente fazer essa confusão. Afinal, até Adriane Galisteu quando me entrevistou sobre o livro perguntou algo parecido...


(Ela deve ter estudado em colégio público.)

Menos clara - mesmo dentro do meio literário - é a distinção entre "romance" e "novela" - aliás o termo novela praticamente não mais é usado (deve ser o medo de que o público em geral - que nem entende exatamente que um romance não precisa ser romântico - ache que os autores passaram a escrever para a TV). 

No seu livro "A Oficina do Escritor", o falecido Nelson de Oliveira define assim: 

"O que diferencia a novela do romance são basicamente o número e disposição de unidades dramáticas: na novela, há a sucessão cronológica, em linha reta, de várias unidades dramáticas, sucessão que pode ser prolongada indefinidamente. No romance, há menor número de unidades dramáticas e todas estão interligadas."

Eu não sei se entendi direito, ou se concordo. Para mim, a distinção se dá muito claramente, e é mais ou menos o que disse para o leitor no Facebook. O romance foca uma história mais macro, de um grande período da vida do protagonista ou mesmo de vários personagens (épicos familiares, etc). A novela se concentra num episódio da vida do protagonista ou um episódio da vida de vários protagonistas (um mesmo acontecimento flagrado por diferentes pontos de vista) num curto espaço de tempo. 

Isso faz com que geralmente o romance seja maior em extensão do que a novela, mas não necessariamente. E sim, isso faz com que a IMENSA maioria dos romances que se produz hoje em dia no Brasil seja novelas. 

 Se eu fosse categorizar minha própria obra, colocaria assim: 

Olívio - novela
A Morte Sem Nome - romance
Feriado de Mim Mesmo - novela
Mastigando Humanos - romance
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego - romance
Garotos Malditos - novela

(No caso, Garotos Malditos é mais extenso do que A Morte Sem Nome e Mastigando Humanos).

Na prática, essas categorias não existem mais. Nas divisões das livrarias, dos prêmios literários, novela e romance são a mesma coisa. Sem grandes crises. Isso até gera a impressão de que, quando um crítico chama o seu "romance" de "novela" é para diminuir sua obra. Pessoalmente, eu não considero "novela" uma categoria "menor" do que romance. Admiro horrores obras concisas, focadas ("Metamorfose", "A Paixão Segundo GH", "Morte em Veneza", para citar só alguns dos favoritos) e não tenho muito saco para romances épicos.

De toda forma, se para o grande público e para o mercado essas distinções não importam, acho importante para o autor ter a consciência do que está escrevendo, para estruturar melhor sua obra. 

Eu valorizo muito a prosa espontânea, acho que seguir o fluxo de consciência dá um sabor (e uma insanidade) muito especial para o texto. Mas cada vez mais procuro fazer isso dentro de uma estrutura pré-definida, para que os arroubos criativos ajam a favor da consistência literária. Finalizando agora uma nova NOVELA, sinto um sabor especial em ter podido viajar dentro de bases bem definidas. Já é meu oitavo livro, e estou com mais consciência do que nunca do que estou fazendo. Ao ponto de já conseguir estimar, quando comecei o livro, quantas páginas ele teria. Acertei na mosca. (Será um livro maior do que "Feriado de Mim Mesmo" e "Olívio", menor do que todos os outros.) 

Já o conto todo mundo sabe o que é... Bem, nem tanto. Dessa vez eu concordo mais com a definição de Nelson de Oliveira: 

A crônica é a prosa curta, amena e coloquial, com toques de malícia e humor, sobre os fatos políticos da atualidade ou sobre os hábitos e costumes dos diversos segmentos sociais. O conto é todo o resto, toda prosa curta que não é crônica. 

A crônica foca uma observação do cotidiano; como Nelson coloca, trata da realidade atual. É basicamente um "causo" do dia-a-dia. Isso também não faz dela uma obra menor, mas me interessa menos. Muita gente faz crônica sobre a vizinha ao lado achando que está escrevendo um conto sobre a verdade universal. (Ou um post de blog, achando que está fazendo literatura.)

Já a diferença entre conto e novela parece mais óbvia (pela extensão), mas eu mesmo me confundo quando trato de Pornofantasma. Alguns contos lá chegam a cinquenta páginas (como o conto título) e são divididos em capítulos. Costumo brincar que um escritor mais preguiçoso (e menos produtivo) diagramaria com letra grande, espaço duplo e lançaria como um ROMANCE de cento e poucas páginas. Então alguns contos de lá eu prefiro chamar de "mini-novelas", basicamente pela extensão e pela divisão em capítulos. 

E há ainda a praga dos MICRO-CONTOS...

Esses eu abomino. Primeiro porque grande parte dos micro-contos são apenas piadas ou frases de efeito. Depois porque muita gente recorre a eles para se auto-intitular escritor sem ter de escrever. "Escrevi um livro!" E o que há lá é uma dúzia de frases engraçadinhas. (É como o cara que se dizer fotógrafo porque comprou uma câmera profissional). Micro-conto não tem estrutura, não tem personagem, não tem esforço. Qualquer rafinha pode fazer.

Mas...

Eu mesmo já fiz dos meus. Em 2004, início de carreira, o brother Marcelino Freire organizou "Os Menores Contos do Século" uma coletânea de micro-contos bem interessante para analisar o formato e ver o que diversos escritores - novos e velhos, incluindo Lygia, Proust e Sallinger - tinham a dizer neste formato. Achei importante participar, como currículo, mas não me orgulho do que fiz lá. Na época, pensei bem o que definiria um "micro-conto." Tem aquele, o mais famoso, do hondurenho Augusto Monterroso: 

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.  

É bom. Mas é pouco. E me faz pensar muito no que constitui um micro-conto.

Se for para seguir a minha análise pessoal, muito do que se há por aí nem de micro-conto pode ser chamado. Para ser um micro-CONTO é preciso ter um personagem e contar uma história, mesmo que seja em uma frase, como a acima. Ainda assim... Não dá para desenvolver?

(bem, vocês sabem, poucas linhas nunca me bastam; o Twitter mesmo nunca me cativou. E eu basicamente abandonei o meu.)

Enfim, ando pensando e pesquisando sobre tudo isso, até porque tenho conversado com alguns alunos de oficinas literárias, em aulas isoladas, como autor convidado e tento racionalizar o que aprendi basicamente na prática e de forma intuitiva.




03/09/2013

LIÇÕES DE GÊNERO



Na verdade, eu queria ser um escritor de terror. Num mundo ideal, é isso o que eu faria, livros e roteiros, mas não estamos num mundo ideal, muito menos neste país...





Os dilemas do gênero... Já discuti um pouco sobre isso, em algumas palestras, posts, e entrevistas.  Eu mesmo já escrevi (anonimamente) pornografia para a indústria, e conheço bem as limitações. Quando você cria algo especificamente para um gênero (pornô, terror, comédia, comédia romântica) você tem uma função praticamente fisiológica a satisfazer. O filme pornô é feito (basicamente) para um cara ficar de pau duro; um filme de terror precisa dar medo; a comédia é para rir; comédia romântica para suspirar, etc, etc, não sobra muito espaço para nada mais. 

Isso é o que ferra. Para excitar, assustar, enternecer, o autor acaba recorrendo a fórmulas comprovadas, que impedem que a obra transcenda ao gênero. Excita e nada mais. Assusta e nada mais. Não te traz nada de novo. Não há espaço para reflexões. Fica uma obra rasa em conteúdo.

É por isso que a literatura e o cinema de gênero são, em geral, tão rasos. 

Falo "em geral" mas a verdade é que, "em geral", as obras que transcendem são as que não ficam restritas (ou não são vendidas) num gênero. 

Por essas (entre outras) é que admiro tanto o Lars Von Trier, um cineasta que basicamente se empenhou em experimentar sua autoria usando elementos de todos (ou vários) gêneros conhecidos. 

Musical: Dançando no Escuro
Teatro: Dogville
Comédia: O Grande Chefe
Terror: Anticristo
Western: Querida Wendy
Pornô: Nynphomaniac
Sci-Fi: Melancolia

E por aí vai...

Na verdade, eu queria ser um escritor de terror. E todos meus livros estão no terreno do terror-suspense-thriller-humor negro. Mas se eu fosse vendido como um autor de terror, sabe-se lá onde eu estaria, por que editora estaria publicando, com aquelas capas medonhas, aquele público desavisado. Não quero me restringir a isso. 

O Brasil é ainda mais restrito aos gêneros, você sabe. Apesar do espaço-público continental, o Brasil é muito uma coisa só. (Impressionante, por exemplo, não haver dinheiro na indústria pornô neste país). Então se associar a um gênero é uma sentença de morte.

Mas tudo bem. Nós podemos fazer outras coisas.

De todo modo, esses dias tive minha revelação internacional sobre a realidade de gêneros ao constatar as críticas do Rotten Tomatoes.

Rotten Tomatoes (www.rottentomatoes.com) vocês sabem, é um site americano que basicamente faz um apanhado das críticas que um filme teve e diz se foram mais positivas ou negativas. 

Esses dias, assisti a dois filmes que foram baseados na mesma história. E tiveram críticas distintas. 

A história: Nos anos 1950, uma adolescente vai morar com uma família próxima de seus pais. A mãe da família é uma vaca abusiva alcoólatra que tranca a menina no porão, e todas as crianças da casa e da região abusam da menina.

Essa premissa é igual nos dois filmes. Mas um foi feito como um filme de terror surrealista de baixo orçamento, o outro foi transformado num drama de tribunal com Ellen Page e Catherine Keener.

O filme de terror tem 67% de aprovação no Rotten Tomatoes - significa que mais das metades das críticas a ele são favoráveis. Essse aqui: http://www.rottentomatoes.com/m/10008563-girl_next_door/

O drama de tribunal tem 23%.. Esse aqui: http://www.rottentomatoes.com/m/american_crime/

Agora, qualquer SER HUMANO PENSANTE que veja os dois filmes não poderá dizer que o filme com a a Ellen Page é inferior. É um veredito vergonhoso, constrangedor, mas possível. Porque o Rotten Tomatoes só se baseia nas críticas de seus veículos associados. E o primeiro filme foi resenhado só pelos veículos de terror; o segundo foi resenhado pelos mesmos que resenham... sei lá, Titanic.

O filme com a Ellen Page é doloroso, real, cruel, e deixa uma sensação desconfortável. O filme de terror é pesado, trash e deixa a sensação: "uh-hu, queremos mais sangue!" A mãe feita por Catherine Keener é real, nós entendemos como ela pode ser tão cruel, e por isso é tão dolorosa. A mãe do filme de terror (Blache Baker) é uma vilã sem nuances, que só merece a morte.

Então o veredito basicamente é que como filme de terror "The Girl Next Door" é ótimo (que não não acho mesmo) e, como drama de tribunal, "An American Crime" é uma merda (daí eu não poderia dizer ao certo, porque não sou fã ou especialista em dramas de tribunal, só não acho). Enfim, o público alvo faz toda a diferença. E dois filmes de qualidades bem distintas acabam tendo avaliações totalmente discrepantes devido ao gênero em que foram encaixados.

Se a crítica morreu, como tantos dizem. È questão não só de levantar o olhar crítico, mas de levantar seus criticados. A crítica pode ter morrido, mas as obras, peças, filmes, discos, ainda precisam de quem tenha opinião real. Não seja um coió e saiba divulgar - que seja no Facebook, já que essa é a crítica de hoje em dia.

Talvez o mais positivo (e importante) é que o público da internet hoje tenha uma opinião, um senso crítico, saiba se guiar por resenhas aleatórias ou conheça quem realmente o represente em críticas e resenhas. 

A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados.  É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é leva...