21/03/2013

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
Marion: Só pelo visu já não tem como eu não gostar. 

A volta do Suede reavivou meu espírito indie rocker e me fez revirar minha (imensa) coleção de CDs, para resgatar algumas pérolas esquecidas. Nessa leva me lembrei do Marion, banda de britpop da qual já falei aqui, mas que tinha deixado meio de lado. 

Lançaram o primeiro CD - This World and Body - em 1995, o segundo - The Program - em 1998 e só. Nunca chegaram a fazer sucesso, nem mesmo na Inglaterra nativa, mas foram daquelas bandas queridas da minha adolescência - e não só porque o vocalista Jamie Harding é das coisas mais deliciosas que existe.  

Embala pra viagem, por favor. 


O som é um britpop pesado, com vocais miados, talvez precursor do emo. Lembra muito bandas que hoje são hiperpopulares, como Killers e Muse. Talvez tenha surgido cedo demais para virar moda. Talvez tenha tido uma má administração. Mas o motivo principal que matou a banda foi o vício pesado de Jamie em heroína.

Pesquisando mais esses dias sobre a banda - vi que a coisa foi brava. Foram dez anos de vício - de 1996 a 2006 - e Jamie só não morou na rua porque, como inglês, conseguia viver parcamente de DIREITOS AUTORAIS. Isso, segundo ele conta numa entrevista, tendo lançado apenas dois álbuns que não fizeram sucesso, dez anos depois ele ainda ganhava 200 libras por semana de direitos. Longe de ser uma fortuna, dava para mantê-lo precariamente (por mês é bem mais do que um salário mínimo brasileiro, afinal).

Em 2006, eles tentaram reformar a banda, fizeram alguns shows, mas o vício de Jamie continuava pesado e ele acabou no hospital, quase morrendo do coração e tendo de ser operado. Hoje, ele conta, não pode trabalhar pelos problemas cardíacos e vive da assistência por invalidez. Não é uma beleza?

O (também excelente) guitarrista Phil Cunningham teve mais sorte - ou foi mais centrado - e se tornou guitarrista do New Order e do Bad Lieutenant (opa, peraí... o Killers não tirou o nome de uma banda fictícia que aparece num clipe do New Order? E o Killers não soa bem como Marion? O mundo não é justo mesmo...).

Voltando a ouvir Marion esses dias, redescobri várias faixas que eu nem conhecia direito, e que são fodásticas. Aliás, quase todas as faixas dos dois discos são boas. Mas o melhor foi saber que o Marion VOLTOU em 2012, lançou um CD ao vivo com várias faixas inéditas e prepara o terceiro disco de estúdio. Já baixei o ao vivo e é ÓTIMO, a banda continua em boa forma, a voz de Jamie continua igualzinha (e eu ainda comia), então carrego a bandeira dos excluídos e divulgo aqui. Graças a um post no Facebook, já sei que consegui tornar pelo menos uma leitora fanática pela banda.

Ouve aí um dos melhores singles da banda (dos anos 90):



E saiba mais (inclusive como comprar/baixar o disco ao vivo), aqui:

http://www.marionuk.co.uk/


17/03/2013

NOVOS ADULTOS, VELHOS LEITORES


Finalmente sai esta semana na Espanha a tradução de Mastigando Humanos, pela Ediciones Ambulantes. O livro também sai daqui a alguns meses na Itália e devo fazer uma pequena turnezinha pelos dois países em breve. 

Não tenho tido muita sorte com minhas publicações no exterior... Bem, não tenho tido muita sorte com minha VIDA em geral, parece que há um bom tempo que fizeram um trabalho contra mim, amarraram meu nome na boca do sapo, empacaram minha vida profissional, financeira, amorosa, NADA vem dando certo e só não desisti ainda de respirar porque chafurdo no passado glorioso onde conheci a felicidade em suas versões orgânicas, sintéticas e abstratas.  

Marco Feliciano, Silas Malafaia e Edir Macedo bem que tentaram me alertar. Quem cultiva o mal, quem investe na sordidez não pode colher nada além de sofrimento, eu entendo. Não é brincadeira não, eu sempre busco retratar o lado negro, contestar os valores do bom senso, atentar contra a moral, e por isso pago o preço. Mas assim como Lúcifer tem sua função nos planos do Senhor, eu também estou realizando um trabalho importante ao expor o lado sórdido do ser-humano. E acho que por isso Deus não favorece os planos de felicidade para mim. 

Voltando a mastigar humanos, postei o aviso da publicação espanhola no Facebook, e foi lindo ver os comentários de antigos leitores: 

"Eu assumo: roubei mastigando humanos da biblioteca da escola por não achar em lugar
nenhum pra comprar. Não me arrependo."

"Eu tambem roubei um da biblioteca da escola. Graças a essa edição escolar, li o melhor livro que  um adolescente podia ler na vida!!! Simplesmente fantástico!!!"

"Melhor livro da minha vida pqp. Quem diria que eu ia achar alguma coisa de interessante na biblioteca da escola."

"Adoro esse livro!"

"Quase peguei o Mastigando Humanos da biblioteca também, mas consegui achar todos os livros dele pela internet. Meu mastigando humanos chega amanhã <333 font="">

"Poxa... E eu pensando que tinha sido a ÚNICA a roubar esse livro na biblioteca da escola! Cerca de um ano atrás (ou mais que isso, nem lembro) eu até enviei um e-mail pra o Santiago Nazarian, falando sobre o roubo e reclamando do preço salgado de "O Prédio, O Tédio e O Menino Cego" (infelizmente não achei ele em nenhuma biblioteca ainda ). Acho que ele nem lembra mais desse meu e-mail... Mas foi muito engraçado. Tudo. A adolescência com Mastigando Humanos, bom demais."



"Parabéns! Emprestei o meu volume a uma aluna, e ela adorou. Agora, há a divulgação boca a boca. Já tem outros alunos perguntando sobre a obra." 


Mastigando Humanos não foi escrito especificamente para o público juvenil (como Garotos Malditos), mas entendo que um livro ilustrado, narrado por um jacaré de esgoto encontre leitores com mais facilidade entre os adolescentes. Acabou sendo comprado pelo governo no PNBE para o ensino médio, em 2008. 12 mil livros foram distribuídos em bibliotecas escolares, somando às duas edições de livraria que o livro já havia tido, tornando-se o mais próximo que tive de um bestseller.


Essa venda escolar foi o que aproximou o livro de tantos adolescentes, que hoje são "novos adultos", alguns dos quais já estão no mercado editorial. Minha editora na Record é uma antiga leitora. Também já fiz diversas traduções para (novos) editores que me leram na adolescência. Para editores de 25, 28 anos eu já sou um senhor escritor, veja só. Já sou um senhor...

Esses dias dei uma entrevista para o jornal "O Tempo", de BH, sobre esse mercado, "jovens adultos" ou "novos adultos", que é uma nova categoria contemplada no mercado literário, que chega aos leitores de até trinta e poucos. Obviamente é o meu público, meu primeiro livro (A Morte Sem Nome) eu escrevi aos 23, a temática da adolescência está presente em grande parte da minha obra; porém os temas vêm acompanhando as fases da minha própria vida, e em Pornofantasma já começaram a entrar os fantasmas da maturidade ("Conto de Lobisomem", "Apocalipse Silencioso", "O Velho e o Mato", "Natrix  Natrix", "Você É Meu Cristo Redentor"). Resta saber se o leitor de meia-idade se interessa por mim...

Não é fácil... "Sua literatura não é mainstream", ecoam sempre as palavras da minha agente. Sou rapaz bem-nascido dos Jardins, não posso me considerar "marginal"; ainda assim, o caráter... alternativo da minha obra faz com que ela só repercuta entre os perdidos, os malditos, aqueles que não estão no poder e não podem me levar além. (Veja só, parece que Mastigando só incitou a juventude ao furto de bibliotecas). Talvez o mais surpreendente seja que, até hoje, eu tenha conseguido publicar sempre por grandes editoras, com razoável repercussão.


A repercussão de Mastigando Humanos, na época, foi quase unanimemente positiva. E por isso eu não esperava. Eu vinha de livros mais... sérios, e com Mastigando eu já esperava pedradas (que enfim vieram com O Prédio, o Tédio e o Menino Cego). Mesmo a infame foto de orelha (em que eu estou babando iogurte) só foi questionada mesmo por... Alcir Pécora (é claro, que surpresa). Hoje eu não colocaria uma coisa dessas num livro. But I was being young...


A edição brasileira está esgotada há um tempo. Você sabe, eu saí da Nova Fronteira batendo a porta, e eles não reeditaram mais o livro. Estou conversando há um tempo com minha editora para trazê-lo de volta, e espero que isso aconteça em breve. Eu pessoalmente prefiro olhar para frente, investir sempre num próximo, mas não posso negligenciar o que já escrevi, já são sete livros lançados, e acho que estão longe de terem rendido tudo o que poderiam render (em todos os sentidos). Preciso administrar melhor a minha obra e meu patrimônio. Mas é uma cruzada tão solitária...


Fora reedições e traduções no exterior, 2013 não verá uma nova obra minha. Não sei nem se 2014 ainda me verá respirando. É bom você começar a me amar imediatamente e reverter essa áurea de decadência em que me encontro, ou não terei nem mais forças para continuar a fazer você sofrer.



O creme não compensa. 

10/03/2013

A VOLTA DO GRANDE DRAGÃO BRANCO 


Quando Brett Anderson terminou com o Suede, em 2003, disse que "precisava fazer o que fosse necessário para recuperar seus demônios". Dez anos depois, a banda volta com o novo álbum Bloodsports, que parece ter seu título tirado daquele filme do Van Damme, O Grande Dragão Branco (que em inglês se chama Bloodsport). Sabe-se bem qual era o dragão branco que ele alimentava no passado - ("let´s chase the dragon", cantava Brett na faixa de abertura do primeiro álbum da banda), a pergunta agora é: será que ele recuperou essa fera adormecida?

Sim. Bloodsports é o álbum de rock sucessor de Coming Up (o campeão de vendas da banda, de 1996), é rápido, energético e certamente soa mais Suede do que a carreira solo de Brett Anderson, sua banda The Tears e talvez até mais do que A New Morning (o último álbum da banda). Eles já haviam liberado duas faixas - Barriers e It Starts and Ends with You, as mais acessíveis do disco, que são gostosinhas, pop, mas davam um certo medo do álbum se direcionar demais para um som acético de "stadium rock".

Bloodsports tem essa pegada, sim, e não chega nem perto da genialidade de Dog Man Star, mas se encaixa perfeitamente no legado da banda. Eu ainda não ouvi o suficiente para assimilar totalmente (ou cansar), mas vamos arriscar um faixa-a-faixa?

Barriers: a primeira faixa liberada pela banda representa bem o clima do disco, mas está longe de ser seu ponto alto. É stadium rock com uma letra enigmática: "Aniseed kisses and lipstick traces, lemonade sipped in Belgian rooms couldn’t replace the graceful notions that clung to me when I clung to you." (WTF?). Tudo bem, pelo menos ele não está mais rimando "house" com "mouse". Acho ok.

Snowblind: É minha favorita. Tem uma pegada "Starcrazy" (embora "Starcrazy" esteja longe de ser das minhas favoritas) e é totalmente Suede. Até começa com guitarras miadas e vocal de "uh-hu's!" Acho que se eles tivessem liberado essa primeiro os fãs teriam orgasmos.

It Starts and Ends with You: Devo dizer que se a banda buscava um hit, essa era mesmo a melhor aposta. Não chegou a estourar como single, mas as críticas foram bem favoráveis. É das mais pops do disco, tem três refrões, e o tom está sempre lá em cima. Se não ouviu, veja o clipe:



Sabotage: Essa eles vêm tocando há um tempo, já foi bem ouvida em clipes ao vivo no Youtube, e representa bem o "lado B" do álbum. Na versão de estúdio ela ganhou um clima meio spagetti western. É bacana, só acho que pedia uma edição mais longa, com uma introdução maior, um longo solo de guitarra no final. Bloodsports é um disco curto, afinal (40 minutos cravados), e senti sim falta de um instrumental mais elaborado. Brett Anderson praticamente não para de cantar em momento algum (quando não há mais letra ele fica nos "uh-hu's" e "lalá´s"), a banda está lá para lhe dar apoio - um bom apoio, mas nada além disso.

For the Strangers: Junto a "It Stars" esse é o segundo momento mais pop do disco, que pode dar um bom single. É fofa; eu já gostava bem da versão acústica que está disponível por aí, e no disco ela ganha o ar de stadium rock, que não compromete, mas não surpreende. Bacana.

Hit Me: Começa com uma bateria meio "She", meio "Killing of a Flashboy". E aqui é que a voz de Brett Anderson soa mais Suede, esganiçada no verso, falsete no refrão, completando com uma ponte "de lalalás". Gostosinha, mas meio "Suede genérico".

Sometimes I Fell I´ll Float Away: Com certeza o momento mais alternativo do disco. Aqui começam as baladas. Versos lentos de guitarra e órgão, crescendo no refrão com entrada da bateria e baixo. Um pequeno solo de guitarra pesado na metade. Parente distante de "Daddy's Speeding" ou talvez "The Ghost of You". Bem bacana.

What Are You Not Telling Me: Segue uma linha Dog Man Star distante. Uma balada de piano, sem bateria, com clima de música sacra. No final entra o arranjo de cordas - sim, a orquestra está aí no álbum. Mas não comove; inquestionavelmente um B-side.

Always: E continua a linha das baladas esquisitas. Mas essa preciso dizer que é... chata, chata, a pior do disco, sem dúvida. Refrão: "I´ll always be near" repetido à exaustão. Boooooring.

Faultlines: Preciso dizer que é outra chatinha... Brett dá nos nervos gritando "celebrate!" esganiçado a música inteira. É mais uma balada na linha de "Always" e termina o disco num clima meio down.


 Na coletiva em São Paulo, fazendo promessas que não foram exatamente cumpridas. 


E esse é o Bloodsports. Curto demais. Não é uma decepção, não, mas deixa com vontades. Ainda não estou certo se não gosto mais de... Black Rainbows, o último solo de Brett Anderson (que tem faixas surpreendentes e fodásticas como "Unsung", "Brittle Heart" e "Actors"). Ele parece querer sempre frustrar seus fãs (por que a banda volta com um disco de apenas 10 faixas?). No show que vi na Rússia, em 2011, tocaram 7 músicas novas (das quais só "Sabotage" entrou no disco). Perguntei pessoalmente a eles, na coletiva de imprensa aqui em São Paulo, ano passado, sobre o destino das outras músicas. Eles disseram que haviam sido deixadas de lado mas que "pode estar certo de que as do disco serão melhores". Não foi exatamente verdade - sinto falta de "I Don´t Know Why" (um popzão estilo "Trash) e "Falling Planes" (uma balada gótica com ótima letra:"sometimes when you cycle by the kicked dog in me smiles. I shudder and salivate. We keep the things we hate."). De qualquer forma, eles conseguiram soar como Suede novamente, sem virar auto-paródia, e até conseguindo fazer coisas diferentes, estranhas e sombrias. Já se sabe que há mais quatro músicas para serem lançadas, em B-sides e edições especiais. Estarei esperando ansiosamente.


Na Rússia (Brett ainda segurando as letras). 


Quanto ao novo do BOWIE, digo apenas que não gostei. Baixei há umas duas semanas e ouvi umas três vezes só. Sou fã de David Bowie (até traduzi a biografia dele, lançada pela Benvirá, sabe?), mas nem de longe tanto quanto de Suede, e achei o disco dele barulhento, chato, sem novidades. Não entendo por que ele ficou dez anos sem lançar nada, daí aparece com um disco exatamente na linha dos últimos (Heathen e Reality, que ao menos tinham uma ou outra faixa brilhante, como "Slip Away" e "Bring me the Disco King"). 



Next. 


Se quer saber o que MAIS me empolgou musicalmente este ano... foi minha segunda banda favorita de todos os tempos (ok "banda" não é o termo mais preciso). O novo single do Röyksopp com a Susanne Sundfor, "Running to the Sea". Aquilo é a Escandinávia concentrada em cinco minutos. De chorar. Escutaí:





03/03/2013

FICCIONAIS


Esta semana, Marcelino Freire e eu demos uma entrevistinha para Fabrício Pietro, do Espaço Mix (Mega TV, Canal 23 da Net) sobre o livro Ficcionais, que fala sobre o processo de escrita de diversos escritores. Dá para ver aqui:

http://www.megatv.com.br/programas/?cat=3&p=3927

Sem grandes novidades ou vontades por aqui. 

01/03/2013

Depois de tanto tempo sozinho sabia que estivera o tempo todo sozinho – e sempre estará. Cada amor, cada relação sexual em que participar terá a participação dele mesmo, inevitável. Impossível conseguir, e ter prazer, com a intrusão de si mesmo em suas fantasias sexuais. Ele não devia estar lá. Não foi isso que lhe fora propagandeado. Ele, nas revistas com as mulheres peladas. Ele, nos vídeos pornôs na Internet. Ele nunca fizera parte de suas próprias fantasias, mas teria de estar para que elas se concretizassem – o longo animal áspero, ácido, rançoso, em sua cama. Cada vez que se deitasse para o amor encontraria a si mesmo deitado, impotente, inevitável. E isso seria algo impossível de amar.

A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados.  É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é leva...