31/01/2012

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"O que você escreve?" Me pergunta todo mundo que nunca me leu. É difícil explicar. Comecei a publicar razoavelmente cedo, e essa pergunta traduzia a desconfiança de "é um escritor de verdade? Publicado? Ou tem apenas um blog?" Ser um jovem de vinte e poucos, tatuado, também não inspirava confiança. Não era essa imagem que se fazia de um escritor. Mas eu dizia com orgulho que tinha um, dois, três romances publicados...

Dez anos depois, já estou na meia idade. E os cabelos compridos, as tatuagens, vejam só, parecem hoje me dar mais credenciais. Um homem já formado, com esse visual, algum tipo de artista deve ser...

O orgulho de dizer "sou escritor" - com cinco, seis livros publicados - já não é igual. Talvez fosse mais saboroso poder dizer que eu era um escritor tão jovem. Talvez eu esperasse que a literatura me levasse mais longe, que a literatura fosse mais longe, que a literatura realmente importasse. Mas tenho a nítida impressão de que a literatura hoje tem muito menos importância do que dez anos atrás...

"Sobre o que você escreve?"
Respondo: "Ah, coisas com jacarés assassinos e zumbis..." - quase como se me desculpasse. Não é literatura séria. Sou meio propenso a dizer que faço literatura de terror. Não faço literatura de terror. É meio difícil explicar. E já estou na idade de "escrever coisas sérias", eu deveria escrever como "um homem sério". Escrevo apenas como eu mesmo; e pode ser orgulho ou vergonha, depende de quem lê...

Os cinco, seis livros publicados são uma credencial. Mas também começam a ser "livros demais." Cada novo livro publicado passa a ser "mais um." De quantos de seus autores prediletos você já leu toda a obra?

"Sou fã do que você escreve," escuto muito de quem leu Feriado de Mim Mesmo, Mastigando Humanos, talvez apenas este blog. Não dá para acreditar que o mundo esteja ansioso por mais um romance meu... (Procure Olívio nos sebos, que você ainda não leu.)

Mas o que faz um escritor? Escreve. Então entendo que não estejam dispostos a ler, mas não entendo quem me acusa de escrever demais. Um escritor escreve. Eu sempre tenho de estar escrevendo. Se eu não estou convivendo diariamente com um personagem, numa história, me sinto mais perdido, sozinho, inútil. Por isso acho que vou sempre escrever, mesmo se nunca mais publicar...

Um bestseller dá o que o público quer ler; um grande autor dá o que quer que o público leia. Eu não escrevo para mim mesmo, nunca escrevo para mim mesmo, sempre penso num público alvo, o que ele precisa ouvir, o que eu quero dizer, como quero seduzir, agredir, assustar. Então é preciso acreditar que fará alguma diferença - mais um, mais uma vez, mais uma tentativa - que afetará alguém. Não posso me queixar (tanto), tenho meu público, mesmo que para ele um novo romance seja apenas mais um...

"Sozinho aí nesse frio, deve ser ótimo para escrever." É o que mais escutei dos amigos nesses tempos. E pode ser. Mas a verdade é que passei os últimos 3 meses em duelos mentais e ideológicos comigo mesmo, com histórias fermentando, sem motivação para contá-las.

Não me faltam histórias, nunca me faltam histórias, mas é o velho clichê de que "um livro não é feito de ideias, mas de palavras." Nos últimos anos, tenho criado enredos inteiros só na cabeça, rascunhado no papel. E mesmo tendo uma história inteira, sei que ela só dará um livro quando eu encontro o personagem, alguém com quem eu quero conversar, conviver, ser. O personagem é meu veículo para a história acontecer. E se eu não encontrar essa pessoa, não vou conseguir fazer a história se materializar.

Eu também não escrevo o que eu quero, escrevo o que eu preciso escrever. Dúvidas e frustrações entram numa história que, antes de chegar ao papel, era muito mais idealizada. O importante para mim, hoje, é ter de ponto de partida um bom personagem, e uma boa história.

Sim, agora comecei um novo romance. Estou trabalhando em mais um romance linear. Absolutamente linear. Queria (mais uma) narrativa litorânea e fantasiosa, mas um novo romance urbano é o que está por vir. Eu não trabalhei sempre assim - nos primeiros quatro romances eu fui descobrindo a história conforme escrevia - mas nos últimos anos têm sido mais gostoso e confortável trabalhar no texto depois que toda a história já está lá.

Dessa forma, estou escrevendo um romance linear de forma fragmentada, talvez de maneira semelhante a que se rode um filme. Tenho vários capítulos abertos. Começo um antes de terminar o outro. Salto várias páginas, para depois retornar. O Prédio, o Tédio e o Menino Cego também foi escrito assim. (A Morte Sem Nome foi escrito assim, mas porque é um romance fragmentado, e eu apenas escolhia "uma forma de suicídio" para trabalhar a cada dia, depois é que pensei em como ordenar o romance.) Acho que isso dá mais liberdade para você falar o que precisa falar a cada dia, trabalhar no ponto da narrativa que, hoje, tem mais a ver com seu estado de espírito. Até porque, hoje eu sinto que, como "escritor profissional", que tem "uma história para contar", meu estado de espírito se comunica cada vez menos com o que eu escrevo. O que importa é a história e o personagem.

Editar é um grande exercício ao autor - até porque, hoje em dia praticamente não existe mais a figura do editor no Brasil, aquele que sugere alterações na trama, cortes no texto. Eu NUNCA tive isso em nenhum dos meus livros. Isso tem seu lado bom e seu lado ruim.

Editar também tem muito de edição de cinema, onde uma cena acaba, onde começa a outra. O que não precisa ser dito. Aonde você pode cortar. Feriado de Mim Mesmo foi muito pensado assim; a linearidade absoluta é interrompida no livro sempre que o personagem dorme ou sai de casa (e todo capítulo seguinte começa com ele acordando ou voltando da rua - até porque eu não queria nenhuma cena externa). Em Pornô Fantasma (a novelinha contida no Pornofantasma) eu me baseei mais na edição de videogames, isso inclusive é dito textualmente. Level 2: Hotel. Level 3: Confeitaria. Faltaram os chefes de fase. Na verdade, essa edição em cenários (e a idéia do pai buscando pelo filho/filha) veio do Silent Hill clássico para Playstation (que também é citado no texto).

O novo romance vai por outra linha. E ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa mais. Mais do que satisfazer leitores ansiosos por um novo livro, esse post é mais uma reflexão, ou uma pequena oficina, para tanta gente que me pergunta "como é que se escreve um livro", "você tem toda a ideia pronta de antemão?" Essas não são fórmulas, apenas possibilidades. E estou achando que este texto ficou chato pra caralho.






29/01/2012

"FUI VER 'O GATO DE BOTAS', LEMBREI DE VOCÊ"

O gato de bot... Não, foto errada.

"Saapasjalkakissa."

Fui ver o Gato de Botas, não me lembrei de ninguém. Filme fofinho, mas só. Não entendo esse povo que fala que Shrek não é só para criança, que O Gato de Botas não é só para criança. É para criança. Um adulto pode achar fofinho, divertidinho, mas é para criança, o tipo de coisa que prefiro ver em avião. Mas valeu ver no cinema, pelo visual, 3D, etc.

(Fui ver numa cidade no interior da Finlândia, com um rapazinho loirinho local, meio pretexto para o que viria depois, ok? O depois foi muito bom, obrigado, não vou resenhar.)

Como o filme não tem nada para se extrair (fora a diversão), fiquei meio viajando nessa "antropomorfia" do gato, como criaram um gato tipo amante latino e tal, e como funciona. Mais do que isso. Fiquei pensando como o conceito de "beleza" pode se aplicar não apenas a seres humanos, mas também a animais (e a lugares, paisagens, objetos). O senso comum dita que "beleza é uma questão cultural", que o padrão muda com a época, blablablá, mas como podemos reconhecer então que um gato é bonito, um javali é feio? Será que não existe um conceito absoluto de beleza? Por que um ser peludo, com orelhas pontudas, bigodes projetados (como um gato) pode ser identificado como belo? Onde está o fator da beleza? Enfim, devaneios...


Belezas indiscutíveis.


Estou em Tampere, quase duas horas ao norte de Helsinque. Mais uma viagem turística para me aprofundar em Suomi. O Ministério do Turismo da Finlândia devia me dar uma medalha (ou me pagar em dinheiro, seria melhor) pelo tanto que estou viajando, consumindo, e divulgando o país (o mesmo eu poderia dizer de Florianópolis/Santa Catarina). Mas os amores por paisagens são tão não-correspondidos...

Deixa eu confessar: Quando você me vê numa foto, na neve, vestido levinho, sem chapéu, sem luvas, é porque eu tirei tudo só para fazer a foto, só para não ter todas minhas fotos assim, encapotado, e é um sofrimento terrível, e geralmente eu visto tudo de volta com minhas mãos já anestesiadas pelo frio. Está -14 hoje aqui, e é assim que eu tenho de sair.

Tampere é a segunda maior cidade da Finlândia, com 200 mil habitantes, vejam só. É bonitinha, mas confesso que essas paisagens nevadas estão começando a parecer todas iguais para mim - não parecem todas iguais para você? A verdade é que quanto mais você conhece o mundo, mais o mundo fica pequeno, sem graça e insuficiente para você... Bem, eu nunca fui abduzido, mas já experimentei grande variedades de tóxicos, isso amplia o mundo, sem dúvida, mas também aumenta a insatisfação com o everydaylife depois.


Patinhos, patinhos, fujam daqui! Vocês podem voar, saiam dessa água gelada, amiguinhos!


Tampere tem a "boate gay mais antiga da Escandinávia" e a "boate gay mais ao norte do mundo!" mas não sei o que disso pode ser considerado um atrativo turístico. Eu não vim para cá por isso, te juro! Vim apenas porque era a segunda maior cidade da Finlândia e eu precisava conhecer. Ok, conheci a "boate gay" - Mixei - mas me pareceu a mais antiga, a mais ao norte e a mais esquecida do planeta, e acho que isso basta como resenha.

Acredite em mim, essa estrada nevada não leva a nada.


Amanhã volto a Helsinquia. Devo dizer, deve ser meu lado masoquista, mas estou gostando de morar aqui. Estou sofrendo horrores, horrores, a vida tem sido uma solidão, uma insatisfação, uma nostalgia... Mas estou cumprindo meu destino. Talvez eu esteja destruindo utopias - descobrindo que "a felicidade que poderia estar em outro canto" simplesmente não existe.


24/01/2012

CIDADE IDEAL


Se alguém pode destruir São Paulo, sou eu. Não há ninguém mais paulistano do que eu. Às vezes tenho a impressão que sou o único escritor genuinamente paulistano que ainda vive, nascido e criado por lá. Então não tenho pudor em falar mal. Se alguém pode destruir São Paulo sou eu. É uma cidade feia, sufocante, estressante, onde tudo requer tempo, paciência, tudo é caro e complicado... mas que de certa forma ainda funciona. São Paulo é que destrói a mim.


Mas como estamos de aniversário (da cidade), isso deveria ser uma homenagem. E eu, que já morei (e moro) em alguns outros lugares, não posso desprezar o que só São Paulo tem a oferecer.



Acho São Paulo uma cidade extremamente receptiva - provavelmente porque a maior parte do povo veio de fora. É claro que existe preconceito - mas em São Paulo isso não se traduz em bairrismo. Não tem essa coisa de "orgulho gaúcho", não tem essa coisa de "jeitinho carioca"; em São Paulo não importa de onde você veio, e a gente acaba convivendo com muita gente que a gente nem sabe direito de onde é.


Isso se reflete também na variedade de opções: de gostos, programas, estilos, mentalidade. Você consegue encontrar o que procura, e muito mais. É possível sempre se renovar. É possível sempre encontrar pessoas novas. Acho que essa variedade é a qualidade principal de São Paulo para mim.


Trabalho em casa, e meu apartamento em São Paulo fica lá naquela zona, perto da Paulista, baixo-augusta, então eu tenho a São Paulo ideal. É perto de tudo, eu não pego trânsito. Dá para fazer tudo a pé. É pertinho de Higienópolis a pé, é pertinho dos Jardins a pé, dá até para ir a Pinheiros a pé (mas paisagem já outra questão...).

Em termos de cultura, vida noturna e restaurantes, São Paulo também é imbatível, e não só em relação ao Brasil. Sempre há o que fazer. Eu me lembro no ano passado, numa sexta-feira, escolhendo qual peça de teatro eu iria ver à meia-noite, e havia várias, várias opções. (Na maioria das cidades da Europa, depois das 23h você não tem nem direito aonde jantar).


Eu vou voltar para São Paulo - não ainda - mas eu sempre volto. E acho que talvez meu traço tão paulistano seja de ficar eternamente insatisfeito. Nenhuma opção me basta. Nenhuma cidade me oferece o bastante. Talvez o melhor de São Paulo seja poder ir e voltar.


E isso não é exatamente saudades, é mesmo apenas uma homenagem. Saudades tenho de Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo já carrego em mim.


Tirei essas imagens de um antigo post meu, de anos e anos atrás, aqui mesmo do blog. Acho que eu estava com uma digital nova... e tempo de sobra. Foi tudo desenhadinho a mão e recortado no Paint, com o talento para as artes e design que me é peculiar. Acho que a poesia desse ensaio nunca foi compreendida, então o trago de novo, anos depois, para ver lhe fazer justiça. Quanto será que a cidade mudou? E quanto da minha profecia sobre esses cenários realmente se concretizou?




Giz de cera sobre São Paulo.


20/01/2012

NO FB....


Nazarian says: Esta cidade está uma meleca.
Cris Lisbôa says: Por...?
Nazarian says: Neve por todo lado, lama. Na verdade neve é como areia, se comporta como areia, tem textura de areia. Andar de bike na neve é como andar na areia.
Cris Lisbôa says: Tu queria neve. Tu tem neve
Nazarian says: Agora eu quero SANGUE.
Cris Lisbôa says: Credo. Larga essa gotiquice. Não tá mais na moda.
Nazarian says: Voltará. E daí o mundo dirá: "Bah, Nazarian já escrevia essas coisas em 2003. Ele sim foi o PRECURSOR."
Cris Lisbôa: Hahahaha.
Nazarian says: É por isso que não deixo ninguém me fotografar sorrindo.
Cris Lisbôa says: Tenhos fotos tuas sorrindo.
Nazarian says: Precisarei me livrar de ti.

18/01/2012

OS LIVROS DO ANO

Bons leitores não formam (necessariamente) bons escritores. Para escapar do repertório lido, e criar algo novo, é preciso algo mais. Mas um mau leitor também não tem por quê escrever, e cada vez mais me pergunto por quê...

Tem sido difícil engrenar em boas leituras. Eu não tenho dó, ah, eu não tenho dó. E largo grande parte dos livros no meio, no começo, ou mesmo perto do fim. Por isso é bom os períodos que sou soterrado (por editoras) em leituras críticas, sou obrigado a ser fiel ao livro, acabo recuperando o prazer de ler em si, e ainda sou pago para isso.

Mas agora não sou pago para isso.

Vim para a Europa com um estoque bem limitado de livros. Ainda não me adaptei aos e-readers, e livro pesa, pesa, ocupa espaço. Em São Paulo tenho toda uma biblioteca, e os livros continuam chegando sem esforço. Aqui, estou tendo de recorrer à livraria Academica, no centro, que tem uma seção boa seção de literatura em inglês – e os paperbacks por volta de 10 euros, veja, saem mais barato do que os livros nacionais no Brasil. O problema é que eu não sei escolher...

Já falei muito sobre as prateleiras intransponíveis, como é difícil saber o que há em cada livro, por trás de uma lombada, qual será aquele que tem a ver com você. Nenhum tem a ver comigo. Escolho errado. Volto com uma pilha de mau gosto para casa.

O primeiro livro de 2012 foi Luke and Jon, um “romance de formação” de estreia do britânico Robert William, esse eu consegui ler até o fim. É um livro bonitinho, da amizade entre dois meninos meio losers numa cidadezinha rural. Bonitinho, eficiente, mas nada de novo, nada de memorável. Um livro “bonzinho” demais, que não ofende ninguém. Não me empolgou.

Swamplandia - outro romance de estreia, da americana Karen Russel – prometia (ao menos para mim), ambientado naqueles parques de jacarés da Flórida. Achei que não tinha como eu não gostar. Mas não consegui terminar. Achei meio... livro de mulherzinha.

Luka and the Fire of Life é o elogiado romance de Salman Rushdie, que há tempos eu queria ler, por todo o tom de fábula e ter uma influência forte dos videogames. Mas na prática achei apenas... infantil. E com essa “fantasia mitológica” que me aborrece. Não consegui terminar.

Achei que The Mammoth Book of Best New Horror (de 2010) fosse ao menor ser divertido. Mas quando comecei a ler percebi meu erro: “best NEW horror”, de 2010, ou seja, é um volume publicado anualmente, trazendo os melhores NOVOS autores do ano. Não é possível que todo ano surjam tantos novos bons autores de terror. Nem é possível que novos autores sejam lá tão bons. Então pelo que fui notando, saltando entre contos, o livro é uma bangolice de histórias de vampiro e zumbis (“boooo!”), nada perturbadoras de fato. Mas desse eu ainda não desisti, talvez eu ainda consiga encontrar um ou outro conto que preste.

Então lembrei de As Certezas e as Palavras, livro de contos que Carlos Henrique Schroeder me deu em Jaraguá do Sul, e que eu havia trazido na mala. Foi uma boa escolha. Não só porque eu estava precisando ler algo em português do Brasil, mas porque me trouxe de volta Santa Catarina. Schroeder é autor catarinense e batalhador da cena literária por lá (ele que organiza o Festival Nacional do Conto, de que participei ano passado). Apesar de estar longe de poder ser considerado um livro “regionalista”, em vários contos se nota esse Brasil tão peculiar (e tão pouco visto na grande mídia, na grande literatura) que está muito mais inserido num contexto de América Latina, pela proximidade e intercâmbio com o Uruguai, com a Argentina. Finalmente, esse eu gostei bem, e eu até poderia dizer que me trouxe uma nostalgia do que eu não vivi, mas... eu já vivi. É, agora eu posso dizer que já vivi, e talvez esse Brasil me inspire e preencha meu universo interno muito mais do que... sei lá, minha infância paulistana nos Jardins?

“Ela tem os olhos mais belos que já vi (verdes ou azuis ou verdes-azuis, como ela prefere), embora agora não possa vê-los (pois é noite e na beira deste rio não há luzes), eu sei que ela me olha (ou tenta). Está frio e estamos molhados, mas de mãos dadas.” – de As Certezas e as Palavras, de Carlos Henrique Schroeder.

Universo interno... regionalismos... Me fez pensar também nos posts mais recentes do blog do Marcelino. Ele é um cronista afiado e tem comentado de forma lírica das pedras do crack no meio do caminho aos estupros do Pedro Bial – e eu com isso? E eu com isso, me pergunto, principalmente ao ler coisas como essas:

"Escrever ou não escrever? É pouco o que eu escrevo. Diante do que li hoje na Folha de S. Paulo. Em reportagem sobre a Cracolândia. Se tivesse sido eu o autor das frases. Ali faladas. Diriam com certeza. Como esse escritor viaja. Cachimba-se na maionese. Pega pesado. Tipo. Quando alguns de meus personagens soltam a língua. Esbravejam. Defendem seu lar. Custe o que custar. Brigam por um sofá. Uma mobília. Pedem disciplina. Respeito. Tratam bem suas visitas. Quer um pouco de Coca? A gente tem. Umildemente. Tem. Ah. Meu caro. A ficção é que não está com nada. Diante da fala do povo. Morto. Zumbis zangados. Expulsos de suas moradas. Covas rasas. Porém honestas. A ficção dá pena.” de Shakespeare na Cracolândia, do blog do Marcelino, Ossos do Ofídio - http://marcelinofreire.wordpress.com/

Concordo. A ficção dá pena. Concordo. A ficção está com nada. E fico pensando o que resta, então, a mim, como ficcionista. Eu, que sempre acreditei na ficção pura, percebo que nem é isso o que se espera de um escritor. A mágica de criar do nada, dar a luz ao que não existe, mostrar o que não há, não interessa mais a ninguém… Espera-se é que o escritor seja um comentarista da realidade, o cronista, que diga com melhores palavras o que todos já sabem.

As pessoas querem ler sobre suas próprias vidas. As pessoas querem se identificar. E minha bandeira, que foi sempre a de trazer a diferença, a estranheza, parece mais o emblema de um alienado.

Por isso eu mato.

Até que se procura, o que se pede, o que se encomenda a um escritor é apenas uma visão mais bem formatada dos tempos atuais. Convida-se o escritor para fazer resenhas, crônicas, análises, entrevistas – o que menos se pede a um autor é para fazer ficção. Ainda espero (e desafio!) pelo dia que serei convidado por algum veículo a ter uma coluna de histórias de ficção semanais.

Sinceramente o que eu tenho sentido é isso, que esse esforço por fazer o novo, por trazer o novo, apresentar ao leitor algo que ele ainda não viu, não é mais, ou nunca foi valorizado.

Mas prefiro morrer (e matar) a comentar o BBB.


13/01/2012

MALDITO EQUILÍBRIO

Life outside is black and white.

A Finlândia é o melhor do mundo para ficar deprimido. E retiro da frase um suposto sarcasmo. A falta de luz realmente deprime; o frio tranca as pessoas em casa; e o temperamento reservado do finlandês favorece a solidão e garante a privacidade.

Jyväskylä.


Mas isso também torna tudo mais fácil, o frio, a reclusão, a privacidade. Digo que é bem mais dramático viver deprimido com os passarinhos cantando na sua janela, o sol entrando pelas frestas, o calor, o barulho, a obrigação de ser feliz, no Brasil. É um terror se arrastar pelo trânsito, é um sufoco conseguir um minuto de silêncio. É triste ser depressivo em São Paulo. Aqui, apenas faz parte da vida. A Finlândia, no inverno, é o melhor lugar do mundo para ficar deprimido.


Aqui não se escuta um pio. No prédio, nas ruas. As pessoas falam baixo, não falam nada. Ninguém fala comigo; eu não entendo nada do que é dito. Quatro horas da tarde já está escuro, oito horas da noite já é madrugada. Num sábado, por exemplo, depois das 18h é difícil encontrar um supermercado, as lojas estão fechadas.


Eu nunca entrei nesse fuso horário. Aqui, mais do que nunca, não tenho horário para nada. Eu nunca preciso acordar. Só depois de me revirar muito na cama decido que não tenho mesmo mais sono e me forço a levantar. Sigo com as traduções. Um texto ou outro encomendado. Nunca me perco nos prazos, mas são basicamente ditados por mim mesmo, são meus próprios trabalhos. É quase uma delícia viver como depressivo, sem ninguém para cobrar.

Dormir é tão difícil quanto acordar. Vou enrolando pela madrugada escrevendo, lendo, assistindo todo tipo de coisa pela Internet. Esta semana assisti o Roda Viva do Eike Batista, do Jô Soares, do Datena. Marília Gabriela entrevistando Danilo Gentili, Danilo Gentili entrevistando Marília Gabriela, os dois episódios de “Mulheres Ricas”. Pois é, são madrugadas longas...

Mas nunca consegui me perder. A rotina eu mesmo me imponho. E é trabalhar todo dia, todo dia academia; e agora voltei a estudar finlandês, só uma vez por semana.


Segundas e quartas pratico “Body Balance”, que apelidei de Bloody Balance, maldito equilíbrio. É algo entre o alongamento e o pilates, mas já está me dando nos nervos. No início, achei hilário o tom de auto-ajuda da instrutora: “Sinta o amor dentro dei si; você é um guerreiro do coração” – agora já não suporto mais, principalmente porque são sempre as mesmas músicas, os mesmos exercícios, na mesma sequência. Será que isso é manter o maldito equilíbrio?

Bem, a vaidade, ao menos, mantém o meu. A vaidade é que salva minha vida. Me tira de casa todos os dias, para a academia. Me resgata das drogas, da bebida. Se não fosse minha vaidade, não sei o que seria da minha vida.

Jyväskylä.

Então este final de semana fui para Jyväskylä, um pouco mais frio, um pouco mais norte. Conheci um leitor brasileiro querido, há algumas semanas, que está estudando aqui, e abusei de um convite cortês aceitando-o de verdade.

Sérgio, novo amigo nesse fim de mundo.

Jyväskyla é uma cidade universitária, há 4 horas de trem de Helsinque. Cidadezinha pequena, sem muito o que fazer, mas bem gostosa para um final de semana. Toda coberta de neve – me lembrou aquela cidadezinha do Alasca do filme 30 Dias de Noite – com paisagens lindas para se andar de bicicleta durante o dia, bares e clubes para a noite.


No cemitério...

Foi ótimo passar um final de semana entre amigos, era o que eu estava precisando. O Sérgio e a namorada dele, Noora, me guiaram pela noite, me apresentaram os amigos. Fomos em barzinhos e clubes bem legais, repletos de estudantes de todas as partes do mundo.

Um autêntico boneco de neve.

O Jere eu deixei para trás, apenas para trás, sem ligar, atender, sem mandar mensagem. Isso, em São Paulo, seria mais fácil. Aqui, me sentia na obrigação de aproveitar ao máximo as possibilidades. Mesmo quando não estava realmente rolando; em São Paulo seria mais fácil. E um relacionamento pode deixar você mais fraco. Aqui, que não conheço ninguém, é fácil me apoiar demais em alguém. Não quero mais. Os relacionamentos, afinal, provam como as pessoas são fracas.

As pessoas são fracas, e sempre precisam de algo ou alguém para se apoiar. Manter o maldito equilíbrio. Ou pílulas para dormir. Pílulas para acordar. Pílulas para ser feliz. Eu entendo bem como é – é tudo uma questão de química, seja pelas drogas, ginástica ou o amor. De manhã (ok, às duas da tarde) a cafeína realmente me ajuda. Álcool também, mas é um equilíbrio bem mais delicado, precisa ser muito bem dosado (e esporádico) ou te mergulha de vez na depressão. É tudo uma questão química, eu sei bem, para mim e para você. Por isso mesmo nunca tive muito respeito por quem se vangloria: “Oh, eu tomo remédios. Oh, eu sou problemático.” Eu me arrasto da cama, e tomo cafeína.

Fazendo anjos na neve. Eu bem que tentei fazer um demônio, com chifres e tudo.

Sérgio e a namorada, Noora.


E está tudo lindo – oh, está tudo lindo. Veja só as fotos, não está tudo lindo? É tudo parte da vida – é disso que estou atrás. A dose, o equilíbrio, a química da vida. Privilégio meu, que posso balancear alterando a luz, o amor a temperatura, enquanto você se gaba de suas conversas no analista.

Com Sérgio e Noora.

Com Noora no "Free Time", clubzinho indie bem bacana em Jyväskylä. Tocou Pulp, Blur, Prodigy, Killers...


Não me entenda mal, estou feliz de estar aqui. E vou sair fortalecido. A Finlândia é o melhor lugar do mundo para se estar depressivo.


O lanchinho da noite é carne de alce.



12/01/2012

NO FB.

Karvax says: O tecnobrega tomou conta do Brasil. Tá tudo muito lindo!
Nazarian says: Ai, não vou voltar então.
Karvax says: Haha, juro!
Nazarian says: E o senhor está feliz com isso?
Karvax says: Muito! Vou ter gente para levar na minha festa.
Nazarian says: Leva gente bonita, limpa e barbeada.
Karvax says: Olha, já estão fazendo super-produções [link para um clipe tecnobrega que eu não vou postar aqui, porque meu blog não promove esse tipo de coisa.]
Nazarian says: Está na Bíblia, Fabiano: "A infelicidade virá àquele que chamar o bem de mal e o mal de bem. Que apresenta as trevas como luz e a luz como trevas. Que apresenta o que é amargo como doce... [Bem, daí os finlandeses estariam todos condenados]
Karvax: Haha, palhaço.
Nazarian says: Se eu tivesse meus poderes, os emos teriam dado certo.

Link para banda paulistana nova, fofa, de banho tomado e abençoada por Deus:


07/01/2012

BRANCO DE NEVE

Mamãe sempre disse que queria um filho com pele branca como a neve, lábios vermelhos como sangue e cabelos escuros como a asa da graúna.

Tem sido um inverno atípico. Só esta semana tivemos neve de fato em Helsinque. Escandinávia no inverno sem neve é foda. Já tem muito pouca luz, os dias são todos nublados e escuros, a cidade fica bem cinza, um clima bem deprê; a neve vem para trazer um pouco mais de luz, um pouco mais de branco, acaba trazendo um astral mais positivo...

Kamppi, um complexo de lojas e restaurantes no centro da cidade, onde fica minha academia.

Depois da nevasca de segunda, os dias foram esquentando, esquentando e a neve derreteu durante a semana. Ontem de noite estava levemente abaixo de zero, uma noite clara, eu rodei a cidade de bicicleta esperando pela neve. Hoje de manhã, acordei com Helsinque branquinha.

Estradinha encantada.

Saí de casa correndo para fotografar, nas poucas horas que temos de luz. Voltei para pegar as luvas. Saí esquecendo o gorro, e minhas orelhas foram queimando pelo caminho. Deixei assim mesmo...

Na frente de casa.

Fotografar neste gelo é foda. Tem de tirar a luva toda hora para ajustar a máquina, os dedos vão congelando. Na volta não conseguia nem pegar a chave para abrir a porta. Fora que já perdi uma máquina no verão passado pela areia de Florianópolis. Estou vendo quando vou perder essa pelo frio e a neve.

Branco de neve encontra uma casinha no meio da floresta: "Oh, que pequena, quem será que mora aqui?"

Basta um close para Branco de Neve se transformar em Bruxa Velha.

"Europe is our playground"



Até Kallio, o bairro dos junkies onde eu vivo, fica mais encantado.




Depois, é correr para um banho quente.


Deixo então vocês com uma música que tem um pouco esse clima - escutei direto esta semana. Nem sou lá muito fã de Lykke Li, mas o clipe é foda. E o Fábio me chamou a atenção que lembra bem a cena de A Morte Sem Nome em que Lorena janta com o pai. Fiquei com saudades de mim mesmo



Sadness is a blessing.

02/01/2012

ANO NOVO

Brindando ao fim do mundo.

Reveillon para mim é indispensável viajar. Morando em São Paulo, sempre acho deprê passar em São Paulo. Ano passado estava morando em Floripa, e achei sem sentido sair de lá, já que é um grande destino de verão e eu tinha uma casa na praia para receber amigos.

Este ano, mesmo morando temporariamente em Helsinque, achei meio deprê passar aqui. Pesquisei lugares mais bucólicos, como a Lapônia, e estava tudo lotado, caro e complicado.

Minha gravata dândi comprada em São Petersburgo para o fim de ano. (Ela tem algo de metalizado, sim.)

Estocolmo não é das minhas cidades favoritas, mas acho a viagem entre Helsinque e Estocolmo bem divertida. Há diversas ferries que fazem essa travessia, que leva cerca de 17 horas – você pega de tarde e chega na manhã seguinte. São grandes navios com cabines, restaurantes, bares, boate, karaokê, cassino e tudo mais – é uma balada em si, e muita gente faz a travessia só por isso.

Eu já fiz essa travessia umas 4 vezes (a última tinha sido em outubro do ano passado, com post no blog inclusive) e comecei a pensar que seria uma forma engraçada de passar o ano novo. Os navios da Viking Line são bem, bem cafonas, com umas famílias comprando loucamente nas lojas duty-free, adolescentes bebendo até cair, e o povo se entupindo de comida nos bufês. Chequei então a disponibilidade, eles ainda tinham cabines para o ano novo, propus ao Jere e lá fomos nós...


O patinador e seu empresário.

A virada foi no navio em si (“Mariella”), e achei mais engraçado do que nunca. Estava bem, bem lotado, mas o Jere parecia ser o único finlandês à bordo. Muitos, muitos russos, alguns somalianos, indianos, enfim um programa para turistas. Parece glamuroso dizer que passei o ano novo à bordo de um navio, indo para a Suécia, mas a coisa é relativa. Todos os finlandeses com que comentei que ia passar o réveillon lá, inclusive, me pareceram um pouco assustados – “Hum, vai ser... uma experiência” – e acho que o Jere mesmo se arrependeu várias vezes de eu tê-lo convencido, especialmente quando embarcou.

Finlandeses e russos não se bicam – a Finlândia já esteve sob domínio da Rússia, a guerra foi feia e até hoje o jeito bruto e despojado dos russos assusta um pouco o povo tímido daqui. “Olha só a roupa dessa mulher,” comentava o Jere sobre uma menina de micro-saia, “uma finlandesa nunca usaria uma coisa dessas.”

Um bom exemplo dessas diferenças foi que ouvimos mais gritos e comemorações às dez da noite (quando era meia noite em São Petersburgo) do que à meia noite.

Você sabe o que é caviar? O buffet de ano estava repleto de renas, filés, salmões e camarões, mas a gente afundou mesmo nas ovas, de todas as cores.


O navio também é um programa majoritariamente heterossexual, repleto de famílias. Alguns russos vinham puxar papo e combinei com o Jere a história de que ele era “patinador de gelo” e eu era empresário dele. No final, nos entupimos no bufê, compramos no free-shop, jogamos no cassino, bebemos no bar, aproveitamos bem a cabine e foi tudo lindo.


Almocinho de domingo com a família do Jere em Estocolmo.


Passamos só o domingo em Estocolmo, que eu já conheço razoavelmente bem. Encontramos um primo do Jere, casado com uma chilena, passeamos pela cidade com eles e voltamos no final de tarde para o navio. A viagem de volta foi bem mais tranquila, o “Mariella” bem mais vazio. Mas achei bem gostoso ficar vendo a banda tocar ao vivo aquelas músicas de festa de casamento (“Mamma Mia”, “La Bamba”, “I Will Survive”) com uns velhinhos dançando de rosto colado, uns bêbados perdidos na pista, crianças dançando com as mães - Ah, e tinha um barzinho mais “cozy” com um cara que cantava ao piano e fez inclusive uma versão de “Hurt” do NIN, quando estava pronto para encerrar a noite.


Perdidos na Suécia.
Vanessa, uma chilena nordizada.


Acreditando na neve: essa aí tinha sido tirada de uma pista de patinação.

Enfim, foi de fato um EVENTO, como eu acho que ano novo tem de ser. Jere também se divertiu e deu o braço a torcer que foi uma boa ideia, afinal. Eu mesmo tenho certeza de que se ele fosse para o Brasil iria querer me arrastar para uma micareta, um carnaval de rua, os desfiles do Rio ou qualquer coisa bagaceira desse tipo.

Os drinques finais do novo ano.


Chegamos hoje de volta a Helsinque, e de tarde a cidade começou a se cobrir de neve; já não era sem tempo. Fui e voltei à pé para a academia, debaixo de uma nevasca. Não vim para a Finlândia para fugir disso. Cruzando parques vi coelhos correndo, patos voando, a vida selvagem enfim tomando conta da cidade...


Agora sim!

GANHAMOS NOLL

(João Gilberto Noll, 1946-2017) Perdemos Noll. Acordei nesta quarta com mensagens me contando, Rodrigo Casarin do Uol me pedindo um...