30/09/2010

BERLIM



Ouvindo o novo disco do Royksopp... no apartamento Patryk... Em Berlim.



Berlim tem sido bastante... intensa. Já conhecia o norte da Alemanha, mas só agora cheguei a capital.

Ocupando o ponto que costumava ser de Cristiane F.


A cidade é linda. Mas é um país bastante... agressivo, continuo achando. Felizmente estou sendo muito bem recebido pelo Patryk, que conheci há oito anos num pubzinho em Hamburgo... É que ele não é bem alemão, é polonês.


Antenado.


Meu passatempo tem sido basicamente - e como sempre - caminhar. Passei por todos os pontos turísticos a pé, andei horas e horas... e também me perdi horrores e horrores no metrô, e também fui ao jardim zoológico e ao aquário.



Horrores.

E amores.

Patryk se tornou um jovem gourmet - e um tanto quanto esnobe para comida, o que é ponto positivo. Me levou para lugares extraordinários. E na primeira noite já comi um veado... digo, ragú.... digo, ragú de cervo com maçã e sorvete de cramberry.

(Nos almoços, aproveito que ele trabalha e vou escondido ao Burger King.)


O ragú.
E um pato, em mais um momento Ivana.

Nas compras eu estou maneirando, porque a viagem está só começando, claro. Mas não posso deixar de falar do disco novo do Royksopp, que vi por acaso, nem sabia que estava para sair.

"Senior" é uma espécie de Lado B de "Junior", o (excelente) álbum anterior. Enquanto que Junior era ultra-pop, chegando ao kitsch, com vocais de divas alternativas e melodias alegrinhas, Senior é um disco... sênior, sério, lento, ambient, um Brian Eno 2.1. Gostoso de ouvir, de viajar - música para uma trip leve de ácido ou hard de maconha - sem nenhum single memorável (até porque não tem letra, e só há leves vocais etéreos de backing).

Faixas como "Forsaken Cowboy" e "The Fear" encaixariam bem no meio de um dos álbuns anteriores, outras como "The Drug" parecem um lounge genérico de publicitário... Mas de qualquer forma, ouvi o disco o dia inteiro no Ipod, no metrô, no zoológico e no aquário. E como não gostar de uma banda que dá para a primeira faixa o nome de "...And the Forest Began to Sing.



Viajando.

Amanhã cedo vamos para Praga. Voltamos sábado à noite para Berlim, para farrear. Minha conexão com a Internet está bem precária, mas logo eu volto. Fique aqui, fique comigo.

Num café, agora.

25/09/2010

NOS TRILHOS, NA ESTRADA
Da última vez que estive na Alemanha... um trem passou por cima.

Parto neste domingo para uma longa viagem. 4 semanas na Europa, 2 semanas no Japão. Quase tudo de férias - só vou dar um pulinho na Feira de Frankfurt para encontrar minha agente, beber com editores e dar para as pessoas certas...

Também vou reencontrar ex-namorado em Berlim, ex-namorado em Tóquio, descobrir se resta algo do meu finlandês em Helsinque, procurar os óculos que perdi em Copenhague....

Tirando Japão, só voltarei para países que já conheço. Saudades da Escandinávia. E sempre é possível ver de novos ângulos...

O blog não tira férias não, isso aqui antes de tudo é meu diário pessoal, né? Apareço com fotos e novidades.

21/09/2010

PORNOFANTASMA


Acabei!

Livro novo terminado e entregue à editora (Record). Sexto livro, primeiro de contos, teve todo um novo sabor.

O desafio era contar catorze histórias, fazer contos de enredo, e essa também é a delícia. Enquanto que num romance você tem de se prender a um tom, a um certo número de personagens e uma ideia central por meses e meses, o livro de contos te dá mais flexibilidade para explorar vários temas...

Embora eu não tenha variado muito nos temas não. São os relacionamentos esquizofrênicos, a juventude perdida, os garotos andróginos e amaldiçoados de sempre. Isso também garante uma unidade ao livro. "Pornofantasma" não é apenas um dos contos, é o conceito de todos; todos tem algo bem sexual e algo fantasmagórico. Contos de sexo e morte.

Essa é a lista final de contos:

- Catorze Anos de Fome
- Conto de Lobisomem
- Apocalipse Silencioso
- Eu Sou a Menina Deste Navio
- As Vidas de Max
- Natrix Natrix
- Marshmallow Queimado
- Piranhitas
- O Velho e o Mato
- Trepadeira
- Você é Meu Cristo Redentor
- Pornô Fantasma
- A Mulher Barbada
- “Todas as Cabeças no Chão, Menos a Minha!”

Está prometido pela Record para março de 2011.

Até lá... tenho uma vida a viver!

19/09/2010

O EXÉRCITO DO (KITE) SURF


Eu, no kite...


(Tá, não sou eu, mas é porque quando estou na água não tenho ninguém com quem deixar a máquina pra fotografar, né?)


Estou terminando meu curso de kitesurf, o "surfe de pipa", em que você é amarrado a algo como uma vela voadora e desliza pela água numa prancha.


O kite.


Por mais que eu seja adepto do autodidatismo, kite não é algo que se pode aprender sozinho, até porque o equipamento é caro. Resolvi aproveitar que moro na praia aqui em Floripa e fazer direitinho, com o Magu, da Onda Tropical (http://www.ondatropical.com.br/ - Pronto, já vou pedir a última aula de graça). Ótimo professor... também porque diz que sou um ótimo aluno. Haha


Levando o equipamento na areia.


As primeiras aulas são na areia. Primeiro com uma pipa menor (pouco mais do que um papagaio de criança), só pra aprender a manejar. Depois com um kite mesmo; daí a coisa vai apertando porque você tem de ser puxado pela areia, deslizando; e claro que nessa fase caí, me esfolei, fui arrastado e comi muita areia.



Magu tentando fazer o bicho decolar.



É um animal selvagem. Só dá pra fazer essa comparação. Aquela pipa enorme te puxa, e você tem de aprender a direcionar no vento, para ser levado para um lado e para o outro. O kite é amarrado em você pela cintura (num cinto que é chamado de "trapézio), então todo o esforço fica no abdôme (que tem de ficar travado) e nas pernas (flexionadas para dar equilíbrio). Os braços não têm esforço, só precisam dar toquinhos na barra para que o kite se movimente - o que é traiçoeiro, porque um mínimo toque já faz você ser puxado com força de um lado para o outro.



Indo pra Lagoa.


Em termos de exaustão, as aulas mais complicadas são na Lagoa. Manejar é gostoso - finalmente chega-se à água e experimenta de fato o que é o kitesurf - o problema é CAMINHAR quilômetros com água até o peito (porque a Lagoa é rasa em sua maior parte) para encontrar um bom ponto para começar. Sofrimento. Depois é só diversão.




Ontem dei meus primeiros saltos pra fora d'água, quando o kite te puxa com força no vento, você decola de fato, faz um vôo e mergulha de volta. Engoli metade da Lagoa.



O bangolé aqui.


No mar mesmo confesso que ainda não fiz. Não sei se vou conseguir fazer antes de viajar (no meio da semana vou pra SP, e parto domingo que vem pra uma viagem de 42 dias pela Escandinávia e Japão). Quando eu voltar capaz de ter de começar tudo de novo... Haha.



Mega cansado depois da Lagoa.


Minha mãe veio para cá neste final de semana e confesso que a abandonei pelo kite. Já troquei também paquerinha pelo kite. Gastei todas minhas economias no kite. Quando o vento está bom, Magu me liga e eu largo tudo pra fazer kite. Ontem fiquei das 2 às 5 da tarde na Lagoa - no final Magu pegou o equipamento pra ele e eu tive de voltar à pé de novo pela água (e cheguei numa margem desconhecida, cheia de mato, entrei numa fábrica sei lá do quê, me perdi, acabei na estrada com aquela roupa de borracha, caminhando de volta pra casa.)



Depois, almoçar-jantar com dona Elisa Nazarian.



Estou digerindo esta comida até agora.


Abandonada pelo filho, Dona Elisa pensa em se matar pulando do alto do farol.
Voltei.



Olha que belezinha vimos na volta da trilha.

E a vista no fim do dia, no quintal de casa...

16/09/2010

VENDENDO O AVÔ





Convite da exposição de fotografias de meu bisavô, Gaspar Gasparian, que eu não cheguei a conhecer... só por fotos. Para quem não conseguiu ampliar o convite:

De 18 de setembro a 14 de novembro, Pinacoteca do Estado (SP).



Falando nisso, dia desses uma dessas revistas customizadas me encomendou uma crônica... uma crônica sobre meu avô; "saudades do meu avô", era o tema. Eu não tenho exatamente saudades do meu, mas como escritor faz de tudo, remexi o que lembrava...

Não foi exatamente o que a revista queria. Disseram que ia um pouco contra o "espírito de bem com a vida" deles, não iam publicar, mas agradeceram e prometeram me pagar. Muito bem. Afinal, por que uma revista "de bem com a vida" me procurou em primeiro lugar? É como ir numa churrascaria quando se quer comer sushi. Pode até se encontrar no buffet, mas não é o mais recomendado...


Eles ainda tiveram sorte que não pediram um conto sobre minha avó, daí sim a coisa seria surreal e sinistra...


Well, well, como o texto ia pro lixo mesmo... coloco aqui. Pode ser melancólico, sim, mas verdadeiro, e longe de ser agressivo...



Saudades do Avô.


Meu avô não empinava pipa. Não contava histórias, não bebia nem fumava. Não jogava cartas e não fugiu da guerra. Na verdade, ninguém sabia exatamente a sua história de vida, e seria um esforço recolher suas migalhas até para formar fatos concretos de uma crônica de revista.


Vivia retorcido, a voz rouca, vítima de um derrame que o fazia andar com dificuldade, com ajuda de um enfermeiro. Quando chegávamos em sua casa, nos finais de semana, o cumprimentávamos; e se ele fazia alguma pergunta trivial como “tubo bem com você?” eu rezava para que ele não perguntasse mais nada, porque era difícil de entender com seu tom sussurrado, seu forte sotaque armênio.


Era um industrial, pai de cinco filhos. Contavam que fora rígido e dominador, mas quando nasci já se encontrava subtraído. Morreu quando eu tinha doze anos, sem surpresas nem vestígios. Sempre o vi à beira daquilo. Não fui ao enterro. Não mudou as nossas vidas.


Meu avô nunca brincou comigo, nunca me levou ao circo. Na verdade, nunca o vi fora de sua casa e, pensando agora, a própria ideia de avô me parece abstrata. Meu avô não tinha dívidas, não sofria com a aposentadoria. Tinha mais dinheiro do que podia usufruir. Sua casa hoje é uma concessionária de carros de luxo no Jardim Europa.


Guardava uma lata de amêndoas confeitadas em seu escritório, vinda diretamente da Armênia. Enquanto ele dormia, eu entrava furtivamente no escritório, abria a lata, enchia os bolsos, e não precisava me preocupar em ser surpreendido pois sabia que seu avanço era lento, trabalhoso, percorria do quarto ao escritório em vários minutos.


Na volta às aulas, meus amigos contavam de viagens, pescarias com seus avôs. Avôs que nadavam e corriam. Avôs que empinavam pipa. Éramos crianças, e nossos avôs não deviam ser tão velhos assim. O meu era. E eu não tinha nada para contar. Mas não me importava, porque ele me mandara para Disney e me deu o Castelo de Grayskull.


Quando encontrava o avô de outro - de um primo, de um amigo – me intimidava. Não sabia como me comportar com aquele velho safado que contava piadas, que dava beliscões, eu era uma criança tímida. Torcia para que o mundo todo fosse lento, rouco e retorcido.


Se dizem que avô é pai com açúcar, o meu vinha com adoçante, em gotas, com parcimônia. Uma ausência e uma fraqueza que me ajudaram a construir as histórias melancólicas da precariedade da vida. Me ajudou a construir histórias, mas, pensando bem, não acho que teria sentido orgulho em ter um neto escritor.


Hoje fica a nostalgia do que não tive. A ideia abstrata do avô. E também o Castelo de Grayskull, empoeirado em algum lugar da casa da minha mãe. A lata de amêndoas há muito se foi, esvaziada domingo a domingo – desconfio que eu a comi sozinho. E talvez essa seja a lembrança mais forte, a sensação mais pungente. O gosto das amêndoas confeitadas, vindas de uma terra que não existe.

14/09/2010

A GAROTA DOS PÉS DE VIDRO


Cenários cinematográficos, paisagens paradisíacas, isso tem uma nova estranheza, uma imprevisibilidade, quando se encontra num grande livro. Pântanos congelados com animais feitos de vidro, florestas brancas, penhascos monocromáticos, um oceano de baleias, lendas e águas-vivas. Este é o universo fantástico de Ali Shaw, um novo autor britânico que renova as fábulas e cria uma inusitada história de amor.

Midas é um tímido fotógrafo ilhéu. Ida é uma jovem aventureira que vem ao arquipélago de Saint Hauda's Land buscar a cura para sua misteriosa doença. Ela está se transformando em vidro. Juntos, os dois explorarão o mapa dessa terra invernal, onde o passado ecoa em cavernas inacessíveis e o futuro pode partir-se num lago congelado.

Você pode já ter mergulhado nas profundezas do mar, escalado os Alpes suíços e saltado de bunge jump, mas se você ainda não conhece os cenários fantásticos das ilhas de A Garota dos Pés de Vidro, você ainda não viajou o bastante. - Santiago Nazarian


Orelha/apresentação minha para o livro de Ali Shaw, que traduzi no primeiro semestre e acaba de ser lançado pela Leya. Sem dúvida um dos melhores livros que traduzi, com um universo próprio riquíssimo. E teve um sabor especial trabalhar nisso exatamente quando eu me mudava para uma ilha...


No mais, vejo por todos os lados os blogs fechando, desmoronando, entrando em férias... E eu mesmo tenho tido pouco a viver por escrito, mas continue por aqui, continue comigo, que este continua sendo meu melhor mural, meu único espaço para eu dizer o que preciso, quando eu preciso, ou mesmo para registrar momentos especiais para mim mesmo. O blog também é isso para mim.

Estou aqui, na minha ilha, terminando um livro, traduzindo outro, me esfolando no kite e me preparando para grandes orgias...

06/09/2010

EU CONTRA O BRASIL

Da Revista N, do Clarín: "Desde las playas del Sur, el niño dorado de las letras brasileñas ofrece un cuadro de insatisfacciones, placeres y conflictos derivados de ser brasileño."


Haha. "niño dorado" é luxo.

Crônica minha publicada no Clarín - um dos principais jornais argentinos - em espanhol, este final de semana. Aqui você lê em português:

Eu não sei sambar. Não jogo futebol. Não mato cobras na porta de casa e sandálias Havaianas provocam bolhas em meus pés.

Sou escritor. Escrevo romances apocalípticos sobre suicidas, jacarés assassinos e cidades infestadas por zumbis. Quando minha carreira alargou fronteiras e eu comecei a ser convidado para eventos literários e publicações fora do Brasil, me vi estranhamente no papel de representante de um país. O país que me gerou, por certo, mas ainda não exatamente o país a que pertenço. Um país que não lê o que escrevo (porque não lê em geral), e que perturba minhas horas de escrita e de leitura com rojões, gritos de torcida, carnaval.

O que há desse país em mim, para eu representar?

Escrever sobre o Brasil... a mim me parece um paradoxo. O Brasil não existe por escrito. Não pode ser capturado nos dedos e não tem concordância verbal. Brasil pontuado e com todos os acentos está muito distante do que vive o povo, do que é feito o povo, do que se vive aqui de fato.

Num encontro com o escritor americano Daniel Mason, em 2003, na Festa Literária Internacional de Parati (FLIP), ele me revelou o desejo de escrever um romance passado no Brasil. “Mas não gostaria que fosse o olhar de um estrangeiro,” me confessou, o que para mim parecia uma missão utópica. Como se pode examinar algo quando se faz parte dele? Aquela velha máxima: só se pode perceber a Terra como redonda olhando-se de fora. O próprio escritor brasileiro deve adotar essa postura, sua porção de estrangeiro, se deseja realmente compreender e interpretar o Brasil.

Eu não me atrevo. Como escritor, me interessa sempre criar um universo próprio, impreciso, uma terra onde me sinto mais confortável... mesmo com zumbis. (Por sinal, aparentemente Mason transformou o projeto de Brasil num país fictício, em seu romance, A Far Country, publicado em 2007.)

O olhar do escritor será sempre o de um forasteiro. Escrever - quando estão todos sambando, comemorando gols, matando cobras na porta de casa – já torna você um estrangeiro, excluído, pária.

Bem, talvez eu esteja exagerando...

Talvez minha experiência como brasileiro seja atípica não apenas por ser escritor. Talvez haja a estranheza adicional por minha homossexualidade – veja só, mais uma minoria. Ou talvez seja apenas o trauma de infância por não jogar futebol...

“Para que time você torce,” é a primeira pergunta que todo menino escuta quando entra num novo colégio, quando conhece novos meninos. Sua habilidade para jogar bola na infância determinará se você será uma criança integrada ou não. Você vê os dois meninos mais populares da classe escolhendo os jogadores para seus times e você vai ficando por último, junto aos gordos, os mancos, os amaldiçoados.

Eu ainda conseguia conquistar alguns amigos pelo videogame – fui o primeiro a ter o Nintendo de 8-bits do meu colégio (veja só, um geek de raiz). Mas, no final, meus amigos sempre acabavam sendo roubados pelo meu primo, que jogava bola e tinha um campo de futebol em casa. (Eu ficava trancado no quarto, tentando matar o Drácula de Castlevania.)

Em meu romance Mastigando Humanos, um jacaré solitário tenta escrever num quarto de hotel, enquanto a cidade toda é sacudida por Godzilla. O jacaré prepara um grande romance sobre sua vida, mas se pergunta quem se interessará por essas picuinhas quando há um réptil tão maior, mais perigoso, sem a mínima delicadeza ou sofisticação destruindo a cidade. Ronaldo Fenômeno é meu Godzilla. Que se torna notícia instantânea em todo país (e além) apenas por uma contusão no joelho (ou por ser pego num motel com travestis), enquanto anos de meu trabalho se tornam um 1/4, quem sabe meia página, numa resenha de jornal.

Seremos sempre minoria.

Mas não é preciso nem pensar apenas em nós escritores (nós leitores), animais sempre tão exóticos, penso nos esportistas menos óbvios, ginastas, tenistas. Gente que passa anos e anos treinando contra todo o país, o país lutando contra, o país investindo apenas em futebol, sem conseguir patrocínio, sem lugar para treinar, as quadras ocupadas por campos. Esportistas que pagam caro para conseguir um ginásio, uma raquete, uma passagem internacional. E quando conseguem uma medalha num grande mundial.... Vitória do Brasil!!! Vitória do Brasil? Eu reclamaria essa vitória só para mim.

Lutar contra também forma o que somos.

E isso tudo é o que nos forma, o que me forma genuinamente brasileiro. Relendo este texto, vejo o que tenho para contar, que minha experiência de vida é intrinsecamente formada por eu morar no Brasil. As Copas do Mundo, os carnavais, o samba e todos os clichês inevitavelmente fazem parte de minha vida. (Aliás, levei chineladas de Havaianas na infância...). Ser excluído dos times talvez tenha tornado o futebol mais importante para minha formação do que para os campeões da minha infância.

Mas estou apenas nos clichês... Será que é só isso de que é feito o Brasil e os brasileiros?

Eu não saberia dizer. Como eu disse, me falta algo do olhar do estrangeiro, por isso não me atrevo a escrever (em livro) sobre o Brasil. O que há no meu país além do clichê é algo que eu, peixe mergulhado na água, não posso perceber. Só posso tentar decifrar e explicar minha experiência como brasileiro com o que existe de estereótipo, com o que se vê comentado pelo estrangeiro, com o que chama a atenção de fora. Há várias outras coisas em mim tipicamente brasileiras, que eu não poderia perceber.

Quando estive na Finlândia (o país mais distante a que cheguei até agora), recebi olhares curiosos. Tenho olhos e cabelos castanhos, um tom de pele certamente não- escandinavo, de repente também uma malemolência, algo que visto de fora, de longe, por olhos cristalinos, pode formar a figura precisa de um latino. “Você é brasileiro mesmo? Brasileiro nascido no Brasil?” Veja só, conquistei uma grife. Aproveito toda essa estirpe e chachachá num país que não está acostumado a receber tantos turistas.

Eu não sou moreno, não ouço Caetano e não tenho rixas com argentinos. Mas moro na praia, pratico kite-surf, e faço uma caipirinha como ninguém.

(Junto dessa crônica veio um belo convite do Clarín para eu participar de um encontro de escritores no final de setembro, na Argentina. Infelizmente estarei na... Dinamarca, depois Finlândia, Alemanha e JAPÃO. Não se pode ter tudo...)

04/09/2010

NA CIDADE MORENA


Borrachos em Campo Grande.


Ainda estou em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Terminou hoje minha participação aqui no Sesc. Tive um público curioso e querido, ainda que reduzido, e uma ótima divulgação nos três principais jornais da cidade.


Palestra.


Na quinta conversei com o público sobre minha obra, li textos inéditos e dancei o chachachá em coquette mode. Foi lindo ver leitores queridinhos com meus livros em mãos para eu autografar. Só não teve grandes surpresas ou reflexões, porque era uma palestra solo, e talvez tivesse sido mais proveitoso conversar com algum escritor local.


Higor, do Sesc, que me recebeu de forma impecavelmente atenciosa.

Wellington Furtado está fazendo uma tese de mestrado sobre minha obra, e não só por isso é alguém que me provocou empatia instantânea.


Leitoras fofinhas.

Na sexta dei uma "oficina" sobre o mercado literário: formas de publicação, divulgação, valores pagos, publicação no exterior, eventos literários, resenhas, etc. Tive onze alunos. Achei um número bom.

Os alunos.

Jardel, Dani e eu pós-debate, na pose "Sou Rica! Rica!"


O pessoal do Sesc também queria que eu fizesse alguma instalação nas paredes - nos moldes que fiz no Sesc Pinheiros. Como meu "sócio", Alê, não iria poder participar, sugeri que eu escrevesse um conto de próprio punho, que fosse afixado nas paredes. Escolhi Piranhitas, que tem uma temática de certa forma pantaneira, e é razoavelmente curto.
Enquanto eu escrevia, a televisão atrás passava minhas clássicas entrevistas de divulgação.
O artista plástico Thyago Celso de Oliveira também fez um desenho baseado no conto, mas ainda não vi pronto.


Com a escolta de Higor, Wellington e sua trupe também fiz um belo tour pela cidade; comi o inevitável soba e até sacudi ao som de Justin Bieber numa baladinha bem eclética ("Sis".)

Amanhã volto a SP, já que não havia vôo direto para Florianópolis. Quero aproveitar para ir ao teatro, cinema, rever alguns amigos e... sei lá, ir na Loca?


GANHAMOS NOLL

(João Gilberto Noll, 1946-2017) Perdemos Noll. Acordei nesta quarta com mensagens me contando, Rodrigo Casarin do Uol me pedindo um...