30/04/2010

NEO HIPPIE




Não, não estamos nos anos 70, nem na Escandinávia. Bandinha nova, da Califórnia. Alex Kazuo me passou o link ontem e já virou hit na minha ilha.

29/04/2010

FALTOU O CHÁ DE COGUMELO...

Uma Alice genérica.


Tim Burton é provavelmente o gótico mais bem-sucedido do planeta. Começou a carreira como animador da Disney e, após realizar alguns curtas, conseguiu emplacar projetos de peso, se tornando um dos principais diretores comerciais dos Estados Unidos. Nos seus primeiros filmes (“Beetlejuice”, a antiga franquia “Batman” e “Edward Mãos de Tesoura”) sua escola gótica era flagrante tanto na temática, quanto na estética, e até em seu visual pessoal (com aquele cabelo desgrenhado à la Robert Smith). Como “gótico consciente” (e bem sucedido) ele foi além do clichês e adotou também um tom lúdico, por vezes kitsch, que o tornou mais palatável para as massas. Com essa mistura ele conseguiu tocar seus projetos mais pessoais e improváveis (“Edward” e “Ed Wood”), mas também errou a mão feio (em “Marte Ataca”.)

Não sou gótico, sou "neo-noir".


“Ed Wood” e “Peixe Grande” são meus favoritos. Acho que têm a dose perfeita de sua estética noir com um humor kitsch, e vão além do mero filme de entretenimento. “Marte Ataca”, “Sleepy Hollow”, “O Planeta dos Macacos”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “Sweeney Todd” são, ao meu ver, deslizes feios - aburridos, tolinhos e vazios filmes de entretenimento que só se salvam pelo visual.


"Beetlejuice" - filme da minha infância - toda sua estética já estava aqui.



Infelizmente, coloco “Alice no País das Maravilhas” nesse último grupo.

É um filme de fantasia. Apenas. E é um filme para crianças – mas não sei nem se as crianças se empolgam (no cinema que assisti, por exemplo, não ouvi nenhuma gargalhada, nenhum entusiasmo, o filme não pareceu provocar graça, em nenhum sentido). O principal problema é o roteiro: banal - transforma o absurdo e o surrealismo da história de Lewis Carroll num conto de fadas tipo Nárnia, sem ironia, sem humor, sem novidade alguma. Um reino contra o outro; o povo esperando o Salvador prometido que vai empunhar uma espada e matar o dragão – que argumento mais genérico é esse?

O visual me incomodou menos do que achei que incomodaria (tenho uma birra monster dessas coisas ultra computação gráfica), mas não achei nada espetacular, nada divertido, e não entendo essa febre do 3D, para mim só surte efeito no começo, depois torna mais difícil e cansativo assistir o filme.

Enfim, eu não diria que é uma decepção, porque já estava esperando pouco. Ainda achei melhor do que “A Fantástica Fábrica” (que é visualmente equivocado e metido a engraçadinho) e “Sweeney Todd” (que é chaaaaaaaato pra caralho), mas me pareceu isso, um filme genérico. Fiquei tentando caçar Tim Burton – talvez na maquiagem abatida dos personagens, nas árvores retorcidas da floresta ou... principalmente, nos trejeitos de Johnny Depp (que faz o que a gente já o viu fazendo).

Willy Wonka 2.0.


- Se Tim Burton está precisando de uma boa história (adulta) de fantasia, recomendaria a ele “The Girl with the Glass Feet”, romance do (jovem escritor britânico) Ali Shaw, que acabei de traduzir para a Leya e deve ser lançado no segundo semestre aqui no Brasil. É uma bela fábula, recheada de estranhezas.

- A missão de Burton como ex-animador da Disney parece ser destruir clássicos alternativos do estúdio. Além de “Alice”, “Sleepy Hollow” (“O Cavaleiro Sem Cabeça”) também tem uma (óoooooootima) versão anterior em animação (curta metragem), com narração e músicas do Bing Crosby.

Também da infância.


Uma boa dica do próximo desenho da Disney para ele destruir seria... “O Caldeirão Mágico”, lembra? É um desenho macabro e maldito da Disney, do começo dos anos 80.


E com uma infância gótica dessas, como eu escaparia?


- Mais genérico do que o roteiro de “Alice” só... a TRILHA de Danny Elfman. Puta merda, como esse cara ainda tem trabalho em Hollywood? Ele faz a mesma trilha para Batman, Spider-man, Hulk Alice, Edward, o Lobisomem e o Caralho...

- Tristeza que “Alice no País das Maravilhas” é dos poucos filmes assistiveis (entre os pouquíssimos em cartaz) aqui em Florianópolis. Bem, pelo menos vou conseguir ver "Homem de Ferro 2" e "A Hora do Pesadelo" nas próximas semanas.

25/04/2010

ALÉM DO LAGO, DEPOIS DA FLORESTA, AOS PÉS DA MONTANHA....


Barra da Lagoa, Saint Hauda's Land, minha casa.




Hoje, domingo.

23/04/2010

SALVE O DRAGÃO!


Aproveito o dia de São Jorge, para louvar o Dragão com uma cândida fábula de minha autoria (crio minhas próprias fábulas... embora não entenda a moral...). Você não merece, e o texto é razoavelmente longo, mas é o melhor que tenho a oferecer.



Natrix Natrix - Santiago Nazarian

Mataram o Dragão. E o rio de lava voltou a fluir fresco e turquesa. A floresta de carvão refloresceu em cores e frutos. O céu cinza desembrulhou-se azul e todos na vila abriram suas portas sentindo um novo ar a se respirar. O Dragão estava morto.


O alívio tranqüilo que se sentia logo foi substituído por euforia e comemoração. Era preciso festejar. Comer e beber todos os frutos que agora podiam ser colhidos. Virar em dia a noite que não precisava mais ser temida. Dançar sem poupar energias para a luta e cantar alto porque a fera não poderia mais ser despertada. Nada mais seria necessário conter.


As mulheres podiam voltar a ter filhos. As crianças poderiam crescer além das fronteiras. Braços e pernas poderiam se reestender para dentro de rios e lagos, subindo árvores e esfolando os joelhos. Ninguém precisaria temer a gota de sangue que caísse sobre a terra. Não era mais alarde o cheiro de suor suspenso no ar. O Dragão nada iria farejar. E o sexo poderia ser vigoroso. Os prazeres todos derramados. Todas as possibilidades possíveis, todas as alternativas alternadas.


Nos pés do vilarejo, as uvas em vinho foram rapidamente esmagadas. Velhos vestidos estendidos ao sol para recuperarem o ar. Na clareira, as mulheres resgatavam as maçãs coradas de suas bochechas; homens faziam a barba e velhos voltavam a sorrir. Preparavam-se todos para a grande festa, a grande oportunidade, a primeira vez que muitas moças veriam quem eram os meninos, seus futuros maridos, a vida eterna que se reiniciava.


Desde o começo da tarde, em toda a vila, o cheiro de torta assada. Conversas animadas por trás das portas, janelas escancaradas. Vizinhos se cumprimentando, indo e voltando, carregando sacos de farinha, tábuas de madeira, um palco sendo montado. E poeira foi soprada para fora das flautas. Tambores e violinos reafinados. Os jovens poderiam sonhar novamente que o sonho de artista era possível, pois era possível dormir e sonhar.


De noite, a festa. Música alta e cantoria. Naquela noite, ninguém dormiria. As crianças corriam ao redor da fogueira. Os homens comportavam-se como crianças. Um ou outro escândalo - ou atrevimento - alguém que bebera além da conta. Um beijo proibido atrás da igreja. Uma mão num peito, ou um olhar insinuante. Fazia parte. Aquilo era comemorar, e faltava a todos a prática. Mas aprenderiam, aprenderiam; aquela seria a primeira noite de uma eterna vida.

Então os homens em roda comemoravam – e comemoravam – comemoravam o quê? Então as mulheres sentadas riam – e comemoravam – comemoravam o quê? As crianças e os velhos, os músicos tocando, o discurso de comemoração – o que comemoravam? Ah, o Dragão estava morto! E ergueram mais um brinde, porque o Dragão nada mais bebia.


Mas... quem matara o Dragão?

A floresta voltou a dar frutos e o rio voltou a correr líquido, mas ninguém se perguntou: e quem matou o Dragão? O fogo deixou de descer a montanha e nunca mais se ouviu seus rugidos, e ninguém se perguntou: mas quem matou o Dragão? O Dragão estava morto – os pássaros criavam novos ninhos – mas ninguém se perguntou ou agradeceu, ninguém subia ao palco da vila para agradecer os louros da fama, o ouro, os presentes, as medalhas, a festa que, de fato, era feita para ele. Quem matara o Dragão?


E os homens em roda se perguntaram: quem matara o Dragão? E as mulheres sentadas se perguntaram. E os velhos e as crianças, as mães com as baias da saia puxada pelos filhos: “Quem matou o Dragão?” Todos se perguntaram. E a pergunta ecoou pela festa como uma dúvida em uníssono. Estavam todos comemorando, mas, afinal, quem era o homenageado?


E os homens de bíceps grossos abaixaram os olhos envergonhados. As mulheres orgulhosas de seus maridos os encararam decepcionadas. Os velhos que tudo sabiam, e as crianças que acham tudo possível, todos trocaram olhares furtivos de negação confirmando: “não fui eu.”


“Ele mora no final da floresta, depois do lago, ao pé da montanha,” se ouviu. Aparentemente, alguém sabia o endereço do matador do Dragão. No final da floresta, depois do rio, ao pé da montanha, ele morava. O palpite ecoava como certeza, se propagava, e logo todos refestelavam-se com a certeza. Mataram o Dragão. E eu sei quem foi.


E entre as rodas dos homens se comentava: O cara no final da floresta, conheço, grande personalidade. E as mulheres sentadas diziam: Ahhh, que herói, e tão sozinho, lá no pé da montanha. E os velhos e as crianças, as mães com as barras da saia puxadas, todos comentavam o feito do herói anônimo, e todos tinham algo a acrescentar.


Mas... e os louros, e o ouro, onde está esse herói que não sobe ao palco para comemorar?


E os homens nas rodas concordavam que era tarde e que a cidade ficava longe. Um matador de Dragões já deveriam estar dormindo, cansado, não era pessoa de farrear. E as mulheres sentadas pensavam que “ele sim,” olhando seus homens que se embedavam, ele sim, o matador de Dragão, devia ser homem sempre a dormir cedo, acordar cedo para trabalhar. E os velhos, as crianças, todos na vila seguiram com a noite, sabendo que o Salvador dormia tranqüilo. Não seriam eles que lhe iriam acordar. Apesar da música alta, risadas e cantoria...


Assim o dia seguinte nem acordou em ressaca. Não. A cidade despertou sorrindo, sem saber direito para onde seguir, mas com a certeza de que: sim! Este é um novo dia! E todos acordaram ansiosos em saber o que seria do seu Salvador. Ele merece uma medalha: sim! A chave da cidade: sim! E os homens, as mulheres, e os velhos, as crianças disseram: sim! Ele merece uma estátua! Um monumento de bronze, no meio da praça. Era só encomendar. A questão é que ninguém sabia ao certo descrever como era o Salvador...


“É um homem como todos nós, normal, poderia se passar por qualquer um.”


“Tem cachos loiros, longos, lábios carnudos e uma pele de príncipe, com olhos que poderia hipnotizar até um Dragão.”

“Besteira, é um herói. Com as mãos ásperas e a cara cansada. Uma barba espessa, levemente grisalha. Mais alto, mais pesado e maior do que jamais se viu.”


E os homens, as mulheres, velhos e crianças perceberam que ninguém sabia exatamente quem e como era o matador do Dragão.


Bem... ainda precisariam levar a medalha... Ainda precisariam lhe entregar a chave da cidade. É claro que teriam que agradecer o ato heróico. Era só questão de tempo. Iriam até o fim da floresta, depois do lago, ao pé da montanha, agradecer. E o convidariam para uma nova festa. E lhe fariam uma cerimônia solene. E lhe entregariam os louros e o ouro, tudo o que ele quisesse; afinal, esse homem não livrara a vila de um dragão?


Assim, os velhos se reuniram. Reuniram-se os ricos e sábios. Os senhores mais respeitosos da vila se juntaram e disseram: “nós vamos.” Afinal, eles eram os anciões. Se alguém tinha de prestar homenagem eram eles, os velhos reverenciando as novas gerações. Juntaram-se os senhores da vila e anunciaram: “estamos indo agradecer ao Salvador.”


Escreveram-lhe um longo discurso. Preparam um diploma e um certificado. Ensaiaram a devida solenidade a ser encenada na porta de sua casa. O Salvador seria agraciado com toda a pompa.

Carregaram-se de todas as homenagens. Despediram-se e se encaminharam pela estrada. Agora não havia mais medo, no caminho pela floresta só havia os inofensivos animais selvagens. O Salvador matara o Dragão.


Depois da floresta, além do lago, ao pé da montanha, chegaram em sua casa. Os anciões da vila repletos de louvores. Pigarrearam silenciando-se e bateram timidamente em sua porta. Suspense. Uma quietude se prolongando. Um leve farfalhar lá de dentro. Será que o Salvador está dormindo? Então ouviram uma voz perguntando:


“Quem é?”

E os anciões da vila se entreolharam tímidos. E disseram que eram os anciões da vila. E vieram carregados de homenagens. Queriam agradecê-lo por ter matado o Dragão. Que admiravam sua humildade. E que nenhum tributo que lhe prestassem seria o bastante.


“Vocês não têm nada a me agradecer. Vão embora.”

E os velhos da vila se entreolharam desconcertados. E acrescentaram que seria só um minuto. Que sabiam que ele era homem ocupado. Mas vieram de longe, eram velhos, e estavam cansados. Ficariam só um minuto, fariam um discurso e voltariam à vila.

“Vão embora.”


E o Salvador nada mais respondeu nem abriu a porta. Desconsolados, os velhos estenderam as mãos para o céu e viram que não poderiam mais nada fazer. Teriam de caminhar carregados com suas homenagens pela floresta, além do lago, longe da montanha, de volta para vila.
Ao chegarem lá, foram recebidos com ansiedade pelos homens, as mulheres, as crianças.

“Como foi o discurso?”


Ele é bonito?”

“Queremos saber tudo; ele ensinou como é que se mata um dragão?”

E os velhos frustraram a todos tendo de contar que foram recebidos com uma porta fechada e do mesmo modo partiram, sem nem ao menos serem recebidos pelo seu Salvador.

“Ah, mas o quê um matador como ele iria querer com esses velhos?”

“Um guerreiro destemido não se importa com homenagens!”

“Erramos nós, ao não levar um prêmio que ele realmente merecesse!”

Assim, se juntaram os homens. Reuniram-se os mais fortes e bravos. Os jovens heróis da vila se adiantaram e disseram: “deixem que nós vamos!” Afinal, eles também eram heróis. Podem ter matado apenas raposas comedoras de galinhas, enfrentado peixes que se debatiam no anzol, mas eram o que a vila tinha de melhor. E poderiam trocar experiências com o que Salvador tivesse a dizer. Não teriam melindres ao bater-lhe a porta. Juntaram-se os heróis da vila e anunciaram: “estamos indo comemorar com o Salvador.”

Coletaram riquezas como presente. Reuniram doações de jóias e ouro. Iriam presentear o Salvador com dinheiro – e também levaram comida e cerveja. Beijaram suas mulheres. Afagaram suas crianças. Tranqüilizaram os velhos. Encaminharam-se para a floresta e prometeram voltar logo, ainda antes do anoitecer.

Depois da floresta, além do lago, ao pé da montanha, chegaram à casa. Os grandes heróis da vila, carregados de ouro. Assobiaram pedindo silêncio a todos e bateram com força na porta de madeira. Ficaram de ouvido. Segundos depois, um leve farfalhar. Uma voz rouca, lá de dentro, perguntando:

“Quem é?”

E os heróis da vila falaram todos ao mesmo tempo. E disseram que, como ele, eram os heróis da região. Que reconheciam nele um herói, vinham trazendo presentes, ouro, cerveja. Queriam festejar com ele por ter matado o Dragão. Admiravam sua valentia. Se ele apenas abrisse a porta, festejariam e agradeceriam, generosamente, agradeceriam.

“Vocês não têm nada a me agradecer. Vão embora.”

E os da homens da vila se entreolharam intrigados. E acrescentaram que ele já tinha feito sua parte, agora não havia por que não festejar. Que tal só uma cerveja? Ou então deixariam o ouro. Mas eles também tinham um belo carneiro assado e seria um desperdício; com certeza ele não precisaria ser tão rígido, ele podia se permitir um dia de farra.

“Vão embora.”

E o Salvador nada mais respondeu nem abriu a porta. Ofendidos, os homens deram de ombros e viram que não poderiam fazer mais nada. Resolveram repartir lá mesmo o carneiro, dividiram entre si a cerveja. Voltaram pela floresta, para além do lago, longe da montanha, para a vila, bebendo.

Na chegada, esperavam ansiosos os velhos, mulheres e crianças.

“Voltaram logo...”

“Afinal, como é o Salvador?”

“Conte-nos tudo; ele gostou do carneiro que preparamos?”

E os homens abaixaram a cabeça envergonhados, pois tinham bebido toda a cerveja, comido todo o carneiro, voltado com todo o ouro e jóias, sem nem conseguir ver o rosto do Salvador.

“Ah! Vocês nem tentaram realmente, foi só uma desculpa para beber!”

“Vocês falam, falam, mas só ficaram de farra pela floresta!”

“Foi culpa nossa, de deixar essa tarefa na mão de imprestáveis. Agora é nossa vez!”

E dessa vez, se juntaram as mulheres. Pegaram as jóias, pegaram o dinheiro, as homenagens. Arrumaram-se com seus melhores vestidos e se encaminharam pela estrada. Os homens se entreolharam receosos. Aquele bando de mulheres, na porta da casa de um bárbaro... Bem, certamente ele abriria. Aquele era um cortejo que ele não poderia recusar. E ainda que temessem que uma mulher ou outra não voltasse, cada um deles pensava: “Não seria a minha, ah, não, não será a minha. Há mulheres muito melhores aí para ele escolher...”

Cruzando a floresta, além do lago, ao pé da montanha, as mulheres chegaram. Não tinham tantos presentes ou homenagens como outrora, mas eram mulheres. E conversando animadas, rindo e cochichando, bateram na porta e bateram palmas: ó-de-casa. Escutaram atentamente. E em pouco tempo o Salvador novamente perguntava, cada vez mais impaciente:

“Quem é agora?”

E criou-se uma balbúrdia entre as mulheres. Falaram todas ao mesmo tempo e nada podia ser compreendido. Tentavam pedir para ele abrir a porta, tentavam falar de mansinho. Investiram em seus sons mais sedutores – mesmos as mais gordas, as mais velhas, as menos atraentes adotaram tons de loucutora. Mas entre suas próprias palavras escutaram a voz ríspida do outro lado da porta:

“Não, não, não há o que agradecer. Vão embora!”

E as mulheres da vila se silenciaram. Olharam umas às outras por um instante, então voltaram a falar. Todas ao mesmo tempo. Em altos brados. Dessa vez, não eram tão sedutoras, nem tinham voz mansa. “Abra logo essa porta, quem você pensa que é?” “Viemos de longe, estamos cansadas.” “Que tipo de homem é esse que se recusa a receber homenagens da mulheres?” Mas não adiantou nada que disseram. Só ouviram o tom ronco, mais uma vez, de um Salvador que parecia muito cansado.

“Vão embora.”

Depois ele ficou quieto, e não as recebeu. Ofendidas, as mulheres cuspiram na porta, chutaram,

deram meia volta e voltaram para vila discutindo. Para além do lago, atravessando a floresta, com a montanha ao longe, reclamavam de dores no pé, nas costas, varizes. Mas o que mais lhes constrangia era chegar de volta à vila de mãos abanando. Ou melhor, o contrário, mãos carregadas, ainda cheias de ouro, jóias, homenagens...

“E então?” perguntavam na cidade os velhos, os homens, as crianças. As mulheres nem precisaram responder, com seus semblantes decepcionados. Os homens bateram o pé. Os velhos coçaram a barba. As crianças abriram o berreiro. A vila toda estava desconsolada.

“Já fomos nós com homenagens,” pensaram os velhos.

“E nós com ouro e comida,” disseram os homens.

“Nós levamos tudo o que tínhamos,” acrescentaram as mulheres. “O que nos falta?”

E todos se entreolharam, e olharam para as crianças... Já tinham mandado os velhos, os homens, as mulheres... As crianças pareciam entusiasmadas em tentar. As crianças também queriam conhecer o Salvador. Os meninos na pré-adolescência enchiam o pé exclamando: “deixem conosco” e a vila toda ponderava que não custava tentar...

“Mas que diabos! Quem esse homem pensa que é? Já mandamos nossos velhos, nossos homens, nossas mulheres e todo tipo de homenagens. Agora vamos mandar nossos filhos?” E eles deram ouvidos à voz da razão.

“Agora chega de boa-vontade, não vamos levar mais nada!”

“Vamos todos juntos, ele vai ter de nos receber!”

“Se não for por bem, vai ser por mal. Botamos aquela porta abaixo!”

E os homens, as mulheres, os velhos e as crianças se juntaram todos numa grande passeata, atravessando a floresta, além do lago, ao pé da montanha, até a porta daquela casa. Iam carregados com tochas, enxadas, espetos. Se não fosse por bem, seria por mal; botariam aquela porta abaixo. Mas antes, dariam mais uma chance. Silenciaram-se num “psiu” estrondoso. Esperaram todos se alinharem em frente à porta e bateram suavemente.

“Quem é?”

Responderam de mansinho. “Viemos mais uma vez agradecer por ter matado o Dragão.” “A vila toda está aqui.” “Abra a porta, por favor, vamos apenas cumprimentar as mãos e logo vamos embora.” Mas a voz do outro lado respondeu rouca, estafada e inflexível.

“Já disse que não há o que agradecer. Vão embora.”

E a vila toda perdeu a paciência. E perderam a paciência todos de uma vez. E puseram a gritar, espernear, esmurrar a porta. “Abra a porta seu orgulhoso desgraçado!” “Você se acha melhor do que a gente? Dê as caras e nós vamos ver!” “Estamos avisando, abra essa porta agora ou a botamos abaixo.”

Mas não houve mais nenhuma resposta lá de dentro. E mesmo que houvesse, os aldeões não ouviriam. Já estavam arrebentando a porta, com punhos e paus, cabeçadas e chutes. Foi fácil. Em poucos segundos a porta cedia em frangalhos enquanto o povo caía uns sobre os outros.

“Agora você vai ver o que é bom pra tosse!”

“Acha que pode humilhar nossos homens, mulheres e idosos?”

“Ninguém decepciona nossas crianças!”

E ao erguerem o rosto, dentro da casa, procurando o Salvador, compreenderam tudo. Espremido naquele espaço restrito, com a cabeça batendo no teto, com os olhos inchados de quem há muito estava dormindo, estava ele, o próprio Dragão. Não havia Salvador.

Num abrir e fechar de mandíbulas, a vila se foi. Sem o menor esforço ou luta. O Dragão apenas avançou numa bocada. E engoliu homens, mulheres, velhos e crianças.

(c) Santiago Nazarian, 2010.

21/04/2010

BRASÍLIA JÁ ME TORROU...



Há cinquenta anos...


Páaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarabéns...


Como todo mundo tem falado do aniversário de Brasília - e eu estou sem assunto - aproveito para deixar minha homenagem e minhas lembranças de uma cidade tão pitoresca, e de certa forma tão nazariana...


- Passei quinze dias lá em 2007, fazendo um trabalho de tradução/legendas de uma mostra de animê(!). Morava num hotelzinho fuleiro na Asa Norte e fazia tudo a pé... ou ao menos tentava.


- Caminhava todo dia mais de uma hora para a academia. De tarde, ia ao CCBB trabalhar. Construí uma microvidinha lá, e deu para ter uma certa ideia de como seria morar na cidade.


- É uma cidade estranhíssima, vazia, erma, ampla, como um cenário ou uma maquete... exatamente como todo mundo diz. E é tão estranho se encontrar de madrugada, naqueles cenários do Jornal Nacional, bebendo com amigos e vendo as corujas pousadas na Esplanada dos Ministérios.


- Porque é uma maquete construída no meio do cerrado. Então lembro de corujas, calangos, sapos, e muitos, muitos insetos. Uma sensação bem surreal.


- Lembro também dos dois shoppings de frente para a esplanada, dois shoppings idênticos e simétricos, mas um do bem e outro do mal, como gêmeos de novela. Enquanto um tinha lojinhas de grife e cinemas, o outro era lotado de puteiros, saunas, igrejas evangélicas...


- O povo lá não era especialmente bonito, mas deu pra ser feliz...

16/04/2010

MINHA VIDA COM BRIAN MOLKO


Foto clássica... Mas ele é feio pra danar, vai? Não me apetece...


“Vai ao show do Placebo?” Você me pergunta. Várias pessoas me perguntaram e eu fico pensando se tenho cara de Brian Molko, ou se ele ainda é um desses rapazes andróginos que habitam meu mundo...

Quando trabalhei de barman em Londres, Molko apareceu uma noite na boate. Magrinho, baixinho, ficando carequinha – deixou o número de telefone de cantada para um outro barman. Eu não servi nada a ele.

Mas fui a três shows, em 2005. A turnê de Feriado de Mim Mesmo meio que seguiu a turnê do Placebo – assisti em Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo. Aqui em Floripa, assisti no camarote VIP porque uma ex-namorada estava trabalhando na produção. Mas lembro que quando o show acabou não tinha um táxi, um ônibus, uma maneira de sair daquele quintos dos infernos. Seguimos numa massa de gente pela estrada, chegando até um ponto de ônibus e esperando um madrugadão. Felizmente eu estava bem acompanhado...

Achei os três show muito pau-mole, piloto automático, bem decepcionante. Então não vou mais nos shows. Prefiro ouvir o CD.

Gostei de Battle for the Sun, o último álbum. Minhas favoritas são, além da faixa título, “Bright Lights”, “The Never Ending Why” e “Kings of Medicine” (apesar de lembrar a banda The Calling, fala aí?). Mas acho que minha faixa favorita deles ever ainda é “This Picture.”

Me lembra um rapazinho de Chapecó...

haha.

That's it. Bom show pra você. Gosto de Placebo, mas não sou fã, ou fanático, como sou com Suede. Suede com certeza é a banda da minha vida...


É outra coisa, diz aí?

14/04/2010

VIRTUOSO CONTIDO

Capa horrível, título horrível, e o som...

Rufus Wainwright acaba de lançar álbum novo de estúdio - "All Days Are Nights: Songs for Lulu." Na contramão do álbum anterior - "Release the Stars", seu trabalho mais pop - esse é um disco seco, apenas voz e piano, de doze canções melancólicas.

Fui ouvir ontem pela primeira vez e dormi no meio...

Mas o disco é lindo. Pianos virtuosos, um vocal contido, letras extremamente pessoais, seguidas de sonetos musicados de Shakespeare. Pretensioso? Não exatamente em se tratando de Rufus Wainwright, que já gravou com orquestras, uma big band e está estreando sua primeira ópera ("Prima Donna") em Londres.

Ainda preciso ouvir direito para identificar as faixas individualmente. Por enquanto me soa como um disco inteiro, um álbum de conceito, com uma sequência fluida e natural (não é a toa que ele tem tocado o disco inteiro, sem interrupções, nos shows mais recentes, seguido depois dos "sucessos" pedidos pelo público). Mas não posso deixar de admirar um artista que vai na contramão de seu próprio trabalho, da tendência de mercado de desfragmentação dos discos, e ainda tem seu espaço, ainda tem seu público e, com as propostas mais absurdas (de gravar um show com repertório da Judy Garland a escrever uma ópera e depois fazer um disco só de voz e piano) ainda consegue fazer exatamente tudo o que quer.

10/04/2010

R.I.P MALCOLM MCLAREN



Em homenagem, a melhor pior criação dele, os new romantics do Adam & the Ants.

07/04/2010

COM AMOR A SANGUE FRIO

Like the planes and the trains and the lives when we were young, he's gone, and it feels like the words to a song...



Sempre gostei do frio. Mas desde que ganhei um iguana, há quase cinco anos, tenho sentimentos contraditórios com a chegada do inverno. Fico preocupado com o Araki, se preciso abrigá-lo melhor, se a pedra aquecida dá conta, se meu prazer será seu sofrimento...

Com a frente fria chegando aqui em Santa Catarina, voltei a ter esses receios de forma instintiva. Araki não está mais comigo.



Algumas pessoas me perguntaram o que foi feito do meu iguana. Não o trouxe para Florianópolis. Primeiro a casa é muito aberta, ele fugiria. Ou então seria pego por uma coruja (isso é sério! Tem mais coruja aqui do que pomba no baixo-augusta). Depois porque a senhorinha que mora embaixo teria um infarte. E eu morando meio aqui, meio lá, pulando acolá, não teria como cuidar dele. Em São Paulo Antônia cuidava dele quando eu viajava...

Mas ele foi para a casa de um rapazinho lindo.


(Não! Não estou falando de Jesus!)

Então aproveito o post para fazer o que há muito em planejava: dar dicas de como criar um iguana. Serve para esse rapazinho, serve para você – pense bem se você quer essa responsabilidade...

He's not dead, just ran away to someonelse's bed...


- Iguana é um (substantivo masculino, ok?) animal da fauna brasileira, da região amazônica, que não está especificamente ameaçado de extinção. Mas como todo animal silvestre, não pode ser criado em cativeiro, a não ser que seja comprado com autorização do Ibama.

- Aparentemente, existe apenas UM criador legalizado de iguanas no Brasil, que vende para alguns pet-shops de animais exóticos (como a Biomania, na Pedroso de Moraes, 281, SP). Lá você pode comprar iguanas legalizados, registrados no Ibama com chip, por volta de 800 reais.

- Ele pode chegar até a 2 metros (com o rabo, quando adulto), então você precisará de um espaço considerável para ele. Um aquário nem pensar. Uma gaiola também não dá. Você pode deixar numa área externa ou criar um terrário, mas veja as dicas a seguir. Deixar solto não é recomendado.

- Ele não sobe pelas paredes como lagartixa, mas escala com as garras. Então ele pode pular o muro se tiver madeira ou algo por perto em que ele possa fincar. É bom, inclusive, que ele tenha o que escalar, troncos para subir, mas não a ponto de fugir.

- Ele precisa de sol, não apenas do calor, mas dos raios UVA/UVB para absorver os nutrientes da comida. Então ele precisa tomar sol DIRETAMENTE (não pode ser só a luz e não pode ser filtrado por vidro algum). Ele vai procurar instintivamente os raios de sol, se estiver num ambiente aberto. Se ele estiver num ambiente fechado, você pode comprar lâmpadas específicas para répteis, que emitem esses raios e devem iluminar o ambiente dele O DIA INTEIRO (durante as horas de sol; você pode desligar no final da tarde). Se ele estiver diariamente num ambiente aberto, não há problema com os dias nublados, porque os dias de sol compensam (a não ser que você more em Londres).

- O calor também é importante. É um animal amazônico, então pode morrer se ficar muito frio. É bom que haja lâmpadas de aquecimento, ou pedras aquecidas para répteis. Cuidado para ele não ter acesso direto a alguns tipos de aquecimento, porque ele pode se queimar sem querer. Eles são meio burrinhos...

- Ele também precisa de uma boa umidade. Em lugares e épocas de seca, uma tigela grande de água colocada todo dia pode dar conta. Dispense o mé.

- Comida. Essa é fácil: verdura. Apena isso: vegetais. Couve, escarola, mostarda, agrião, rúcula, picadinhas e misturadas. Pelo menos duas ou três dessas por dia. Alface dizem que não serve pra nada. Frutas (não-ácidas) pode dar, em menor quantidade; eles costumam gostar de frutas com cheiro e cor forte, como mamão, goiaba, banana. Para uma dose extra de proteína: tofu de vez em quando. Insetos: nunca. Muitos discutem isso, mas os especialistas dizem que não se deve dar nenhum tipo de proteína animal (e que a proteína animal só é dada quando se deseja que o iguana cresça rapidamente em pouco tempo – como quando se cria iguana para CONSUMO ALIMENTÍCIO.)

- Nunca comi iguana. Mas comeria. Meus gostos culinários não conflitam com meus gostos afetivos. Eu até comeria VOCÊ, se você fosse limpinho.


- A comida deve ser dada e trocada todos os dias, uma vez por dia, durante o período da manhã. Quando escurece ele não come mais.

- Aliás, o iguana é um animal diurno. Quando escurece, ele dorme, e dorme bem.

- Deixe também uma tigela de água para beber (que pode ser a mesma para manter a umidade), mas eles não bebem muita água.

- O iguana é um animal selvagem, não domesticado. Pode ser mais tranquilo ou mais arisco (como o Araki, que era the dog chewing on a mango), mas não espere que ele venha quando chamado, que aprenda a fazer truques ou trazer o jornal (eu só consegui ensinar o Araki a assobiar Cachito Mio). O temperamento dele também pode variar, e ele pode dar rabadas, unhadas e até morder.

- A rabada de um iguana é o método primário de defesa, e pode ser bem dolorida, como um chicote. Cuidado com o rosto.

- Ele pode arranhar mesmo sem querer, porque a forma dele se locomover é fincando as unhas. Então ele pode desfiar sua roupa ou furar seu braço escalando sobre você.

- Deixar ele solto pela casa não é recomendado porque ele pode se esconder facilmente em frestas, atrás de armários, e você vai ter dificuldade de encontrar. Outros animais domésticos como gatos e cachorros podem matar seu iguana.

- Ah, é difícil dizer se seu iguana é macho ou fêmea. Há alguns indicativos, mas você aprende com experiência (... tá, sem gracinha), ou um veterinário.

- Iguana não precisa de vacinas, mas, como todos animais de sangue frio, pode transmitir salmonela. Lave bem as mãos depois de mexer com ele.

- Eles vivem mais ou menos como um cachorro: dez, doze anos, podendo chegar até uns vinte (não, não são como tartarugas).

- Eles se comunicam com o dono? Sim, cada iguana tem sua interação. O Araki, por exemplo, me acordava raspando a pata na porta, para eu abrir e ele andar pela casa (ele andava por uma hora, depois eu trancava ele de novo na área de serviço). Ele também pode parar de comer se o dono fica longe muito tempo. Mas eles não emitem som algum.

- O que mais? Pesquise, leia, pense bem antes de levar um iguana para casa. Eu fiquei meses fazendo isso (mesmo querendo ter um iguana desde a infância). Depois de montar o ambiente para ele, não dá trabalho algum, e gera pouca despesa mensal, mas não serve para pessoas carentes que querem um bichinho pra apertar.

04/04/2010

"A PÁSCOA CHEGOU, TRAZENDO AMOR..."



Isso é o que acontece quando a gente fica sem Internet e TV a cabo...


- Meio afastado daqui do blog. A Oi tem o pior serviço do mundo, mas o único de banda larga aqui na Barra, e ainda estou sem Internet.

- E apesar dessa aparente vida mansa à beira-mar, estou com um volume intenso de trabalho. Traduzindo dois livros, fazendo o parecer de um outro, a orelha de um quarto e ainda meus dois livros...

- Neste domingo chuvoso de Páscoa fiz também o conto para uma revista. Ficou um pouco longo – na verdade o dobro de caracteres que a revista tinha pedido – se eles não aceitarem, coloco aqui. Começa assim: “Minha mãe morreu e eu ganhei um apartamento com vista para o mar.”

- Tenho acordado cedo – bem, nove horas para mim é cedo. Trabalho até as cinco depois caminho até a Lagoa, e faço academia. A academia tem sido praticamente uma desculpa para caminhar, porque levo uma hora e meia para chegar lá, malho meia hora e volto.

- E a praia é tão perto que na hora do almoço sempre dá para dar uma corridinha.

- Neste sábado de feriado fui até a Mole, que fica meia hora à pé daqui. Levei trabalho. Um livro pra parecer. Mas fiquei lendo na areia, comendo lula a dorê.

- De madrugada, nadei no mar aqui de casa. Não pude pensar num programa melhor de sábado. E não sei quando vou ter vontade de sair na noite do centro.

- Minhas poucas conversas aqui são em inglês. Impressionante como é cheio de estrangeiros. Sexta fui jantar bacalhau na pousada de minha “familinha verde”, e fiquei por lá bebendo e conversando com alemães, suiços, finlandeses...

- Mas no geral tem sido melancolicamente solitário, no bom sentido.

- Alguns amigos e leitores me escreverem convidando, propondo, mas vim antes de tudo para ficar sozinho, e aqui é tudo tão longe, eu não tenho carro, e não pretendo ficar circulando pela ilha. Só estou planejando fazer uma volta... inteira... a pé.

- A floresta fica aqui atrás. Além das vacas, tem corujas, gaviões, e já vi uma cobra coral – morta.

- A casa é muito grande e já estou tendo problemas para limpar. Tem areia para todo lado. Preciso arrumar uma faxineira.

- Dia desses eu escrevia de madrugada na varanda, olhando a rua, as pessoas passando, e pensava em como isso é falso, como eu não pertenço aqui, como eu sempre veria tudo de fora, mesmo na varanda, mesmo na minha casa, esta vila de pescadores não seria a minha...

- Mas na verdade é tudo besteira. Porque lembrei de mim mesmo olhando pela janela do meu apartamento em São Paulo. Aquele também não é meu mundo. As casas tocando pagode. Os vizinhos gritando por seus times, dançando o Rebolation.

- Eu poderia pensar que pertenço de fato ao jardins da minha infância, mas é só porque estou distante; na verdade seremos sempre forasteiros. Estaremos sempre ilhados, eu e você.

FIM DE SEMANA DO TERROR

A turma.  Passei os últimos dias trancado com uma dúzia de malucos, num sítio afastado, sem sinal de celular e internet. O “Fim d...