30/07/2009

LIMA



Acabo de chegar de Lima. Viagem ótima. Eu bem que queria esticar um pouco, conhecer outras cidades, um pouco mais de Lima (Machu Pichu mesmo não me apetece muito...), mas estou às vésperas do lançamento aqui em SP, então fica pra próxima...

Eu e as queridas da Biblioteca Nacional, no estande do Brasil.

Brasil era convidado de honra da Feira do Livro de lá. Eu era um dos escritores que representavam o país (embora eu nunca saiba exatamente como são feitas essas seleções...). Tive duas mesas lá - uma com outros escritores do Bogota 39 (autores que foram eleitos como "os melhores autores jovens da américa latina, em 2007", pelo Hay Festival, do País de Gales) e outra sozinho. Decidi falar em portugnol mesmo, e acho que ficou "gracioso", nos dois sentidos da palavra.


Minha mesa foi apresentada por Alvaro Lasso, editor de uma editora underground de Lima (que quer publicar meus livros por lá). Estava bem cheio, tinha meninas adolescentes querendo tirar foto comigo, peruanos intrigados sobre "o que aquele cara vestido de preto estava tentando dizer" e a presença de vários escritores na Platéia - como Pedro Mairal, Dani Umpi e (o autor do bestseller "O Vendedor de Sonhos") Augusto Cury, que até fez uma pergunta.

Esses encontros são bons para reconhecer minha identidade latino-americana - e perceber que já tenho um bom espaço além das fronteiras nacionais. Alvaro Lasso, meu novo editor, por exemplo, disse que queria me conhecer "há vários anos", sinal de que realmente as coisas estão repercutindo por aí a fora.

A questão é que o inverso não acontece, né? Brasil ignora o resto da América Latina (e os eventos que acontecem por lá - nesses encontros, por exemplo, aparecem jornalistas de todo continente, MENOS do Brasil. Inclusive Brasil ignorou totalmente o Bogotá 39.)

Além das mesas, tinha uma agenda cheia de entrevistas, fotos e jantarzinhos. Espero que eu consiga reunir um clipping dessas coisas.



Foto com 5 dos 39. Daniel Alarcon (Peru), Nazarian, Pilar Quintana (Colômbia), Pedro Mairal (Argentina) e Cuenca (Brasil), para um jornal local.



Era assim: além de acordar cedo para conversar com jornalistas, tarde da noite, quando estávamos bebendo, aparecia algum com um gravador, perguntando sobre o fim das utopias e a subjetividade da escrita.


A parte turística foi ok. Não deu pra conhecer muito, mas comprei algumas coisinhas (Peru é um país barato pra nós) e saí todos os dias para noite. O povo não é especialmente bonito, mas não é feio. Tem aquela coisa andina, um pouco próximo do índio: cabelo liso, pele castanha, olhos amendoados e tal. Dá pra encontrar um povinho bonito. E a noite gay é divertida.


Minhas guias durante o dia foram Karine e Vanaris, duas assessoras da Feira queridíssimas, que me mostraram um pouco da cidade. Aqui, Karine e eu na "Ponte dos Supiros".


Vanaris, Karine e eu, tomando um Pisco Sour no Hotel Bolivar. Falam que é o melhor da cidade.




Larco Mar - ponto (BEM) turístico. Uma delícia comer camarões e lulas empanados olhando pro mar lá do alto, embora num frio do caralho.


Pratos típicos: ceviche e Inka Cola (uma espécie de refrigerante de raios gama).


Jantar de primeira num cassino chinês.


Bêbado, com Cinthia. (Bom que no Peru não existe ressaca.)

Dani Umpi (Uruguai), Daniel Alarcon (Peru), Pilar Quintana (Colômbia), Schuma Schumaher (Brasil) e Vanaris (Peru), no hotel.


Meu quarto de hotel era estranhíssimo, grande e duplo. Eram dois quartos idênticos espelhados - duas camas de casal, duas TVs, duas mesas - com um banheiro no meio. Não sei porque eu tinha um quarto duplo, e não sei qual era o quarto do bem, qual era o quarto do mal, mas eu sempre me perdia: "Minha mala está neste quarto? Então meu sapato está no outro..."
(Tinha de tirar uma foto com essa jaquetinha que comprei pro Fábio - porque sabia que seria a última vez que iria usar.) Com Mayra Santos Fuerte (Porto Rico), que disse que eu era filho de xangô, ou exu, ou ebó, ou erefuê, sei lá.

Tem outras viagens (pelo Brasil e América Latina) bem em breve. Mas depois eu conto, agora é hora de concentrar no lançamento:


DIA 4 de AGOSTO, PRÓXIMA TERÇA, 20h, no VOLT (Haddock Lobo, 40). É só chegar. Não precisa de convite.


28/07/2009

MISSION OFICIAL: BJORK MODE
Lima, Peru.



Estou aqui em Lima. Agenda corrida e sem tempo para processar as informacoes... Mas dou alguns tópicos:

- É uma delícia reencontrar escritores latino-americanos com quem cruzei por feiras e eventos pelo continente - como Pedro Mairal, Daniel Alarcon, Pilar Quintana - e ter essa sensaçao de fazer parte realmente de uma comunidade internacional de escritores com temas e gostos comuns - ainda que cada um com sua identidade exclusiva.

- Em três dias em Lima pude falar mais profundamente sobre meus temas, minhas questoes, críticas e estéticas do que em toda minha carreira no Brasil. Chega a ser constrangedor lembrar como (em geral) as perguntas da mídia em nosso país passam longe de qualquer aprofundamento literário. O complicado é ter de fazer isso tudo em espanhol (ok, portugnol)de uma hora para outra. Agora mesmo estava falando com um jornalista sobre minhas alegorias pop, como o niilismo dos anos 80 pode influenciar um autor, a questao do fim das utopias e que a minha geracao já nao encontrou a AIDS como um inimigo desconhecido. Está tendo de ser no tranco mesmo... E acho que nao pode haver curso de espanhol melhro do que esse.

- Ontem tive minha primeira apresentacao para um grande pùblico da Feira (numa mesa com outros autores do Bogota 39). Tive de falar em espanhol em frente a algumas centenas de pessoas e ficava dizendo para mim mesmo (pense que - para eles - è como a Bjork falando inglês, pode ser bizarro, pode ser totalmente errado, mas eles ainda podem achar bonitinho...)


- Alguém espalhou para os jornalistas peruanos que, além de artista de body art, barman de prostíbulo gay e redator de disk-sexo, eu fui modelo. Me lisonjeia deles acreditarem...

- By the Way, se ficar mais um dia aqui, volto gordo.

- Ontem jantamos num Cassino Chines - pago pela Camara do Livro - com a comida chinesa mais maravilhosa que jah provei.

- A comida tipica tambèm è bem boa (mas nada surpreendente; ceviche e afins).

- Meu melhor amigo para a vida inteira aqui é (o escritor, cantor e performer) Dani Umpi. Identificacao instantanea. E como eu poderia imaginar que conheceria um uruguaio que conhece Marina Lima, Claudia Wonder, Montage e Karine Alexandrino?

- As meninas da feira também sao a coisa mais querida do mundo, e me levaram por um tour pela cidade. A cidade é linda, mas bastante melancólica...

- Nao tenho dormido nada. Porque a noite temos jantares, depois bebidinhas oficiais, depois bebidinhas extra-oficiais, depois pé na jaca. E 8 da manha toca meu telefone porque tenho entrevista marcada (com fotos...). Por isso os óculos escuros...

- Do Brasil, encontrei só Cuenca (Nelida esteve e já foi). O povo da Biblioteca Nacional também é querido (embora, estranhamente, nossos livros nao estejam nem expostos no estande do Brasil.)

- Mas a embaixada brasileira aqui me buscou no aeroporto, DENTRO da area de check-in, ANTES de passar na imigracao. Passei direito com o funcionario dizendo: "Ele está numa missao oficial."

- Ui, ui, ui.

- Hoje de noite é minha mesa solo. Devo ler (meu conto amazônco) "Piranitas" e alguma outra coisa em espanhol. Que a Bjork me proteja.

24/07/2009

CHEGOU!


Parece que começa a ser vendido nos próximos dias. Mas o lançamento é dia 4.


Taí, 3 anos depois de Mastigando Humanos o livro novo finalmente saiu. Tive até de fazer macumba pra desfazer macumbas alheias.

Está com 342 páginas (R$48), bem ilustradinho pelo Alexandre Matos e recheado de insanidades. Tem umas inventividades gráficas que fugiram um pouco do nosso controle - uma das páginas do livro, por exemplo, devia ser impressa torta e, pelo que vi aqui, cada livro saiu de um jeito (em alguns saiu reta, em alguns mais torta do que em outros) mas isso deixa a coisa mais interessante (cada livro único), e a edição ficou BEM bonita.


Sai pela Record, minha primeira publicação com eles (tirando os livros que traduzi) e minha quarta casa editorial (depois de Talento, Planeta e Nova Fronteira). Eles são queridíssimos e têm uma distribuição foda.

Lomba.


A página da discórdia.

Cada parte do livro é aberta com uma ilustração do Alê(xandre Matos). E cada capítulo com uma vinheta, sendo então 25 ilustrações no total.

Minha idéia inicial era que cada uma dessas partes fosse em quadrinhos, como uma prévia do que seria visto nas páginas do livro. Mas Alê bateu o pé contra o comics e deu a idéia das torres.


Espero que te divirta.


Mudando (um pouquinho) de assunto, neste sábado participo da Fantasticon, uma conferência de literatura fantástica. Na verdade, eu achava que seria um evento tipo Bienal, com estandes, quadrinhos e japonesinhos fazendo cosplay com os animais de Mastigando Humanos (haha) mas parece que a coisa é mais séria e mais profunda, por um lado. E eu acho bacana que me convidem para um evento de literatura fantástica - sendo que eu não faço literatura de gênero, mas tenho forte influência de literatura de horror e fico feliz que reconheçam esse traço na minha obra.

Minha participação é este sábado, 17h, numa mesa com Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane e Kizy Isatis. Na Biblioteca Viriato Corrêa, Rua Senna Madureira 298 (Metrô Vila Mariana).

Talvez o livro já esteja lá para vender. Não confirmei com a editora. De qualquer forma, eu sorteio UM, se você for...

O lançamento oficial é dia 4 de agosto, no Volt (Haddock Lobo, 40). NÃO ESQUEÇA!

E domingo... parto pro Peru! Brasil é convidado de honra da Feira do Livro de Lima, e eu sou um dos escritores convidados a representar o país (ui, ui, ui!). Minha mesa lá é na terça (e descobri hoje que vou falar SOZINHO, a mesa é só eu. Medo.)

Volto no final da próxima semana. Mas mando notícias lá de Lima.

22/07/2009

O VÍDEO, O LIVRO E O EXERCÍCIO DO UMBIGO



(Algo estranho na formatação do blog corta o canto direito do video, mas é só clicar nele e ver direto no Youtube)

20/07/2009

PARRILLADA DE CÉREBRO

Hannibal.


É preciso perder alguns neurônios para que os neurônios sobreviventes se esforcem mais. Esquecer os nomes dos pais, para recitar os poetas franceses. Contanto que eu não perca minha censura, tudo o que eu me lembrar pode ser usado a meu favor.


(de Mastigando Humanos. Lindo ver que minhas antigas frases continuam fazendo tanto sentido para mim....)

17/07/2009

O PIRATA LETRADO


Interessante a matéria da Raquel Cozer hoje na Folha sobre dowload e pirataria de livros.

“Nos últimos anos, a chamada pirataria digital de livros vem aumentando o suficiente, em quantidade e velocidade, para pôr em alerta grupos que defendem os direitos autorais. Sem pesquisas relativas à quantidade de arquivos disponíveis na rede, a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos mede o problema pelo número de denúncias de autores e editoras. O aumento foi de 140% em menos de três anos.”

Não imaginava realmente que a coisa já andava nesse ponto. A mim, parecia que os poucos que gostavam de ler ainda preferiam o papel. Talvez os que gostem de literatura ainda prefiram o papel, porque o grande volume de livros baixados é de bestsellers (a matéria começa citando Stephenie Meyer e Meg Cabot, autoras de "Crepúsculo" e "O Diário da Princesa", respectivamente).

Conversei sobre isso hoje com minha editora. Falávamos que a quantidade de livros baixados não corresponde exatamente a quantidade de livros que deixaram de ser vendidos; quem baixa esses livros não compraria na livraria, se não fosse possível baixar - porque não teria dinheiro, ou não teria acesso, ou não acharia que valeria a pena.

Aliás, essa coisa do “não vale a pena” me parece sempre a questão preponderante. Você faz lançamento do livro num bar, as pessoas vão, mas não compram o livro, porque acham caro, mas gastam esse mesmo valor lá, em bebida (quer dizer, a bebida vale, o livro não – por esse motivo mesmo no meu lançamento no Volt vai ser assim: quem COMPRAR meu livro ganha um drinque grátis e exclusivo, preparado especialmente pro evento, ok?).

Penso no meu caso, nos meus livros. Não sei de muita gente baixando, de livros meus circulando pela net. Talvez o contingente adolescente que me acompanha tenha interesse em baixar – não sei – e recebo muito email de gente na puta que pariu, que não acha meus livros (até porque muitas cidades não têm uma livrariazinha sequer, e as que têm estão abarrotadas dos bestsellers), por mais que eu tenha só publicado por editoras grandes, que deveriam ter uma boa distribuição. Daí penso se não seria melhor mesmo se esse povo pudesse baixar – ao menos me leriam (ou ao menos conheceriam minha literatura, que é bem diferente deste blog, por exemplo).

Eu só não posso disponibilizar eu mesmo porque, você sabe, o direito de distribuição e comercialização dos meus livros não é meu, é das Editoras. Eu estaria infringindo legalmente meu contrato com elas.

Então melhor que você compre mesmo.... Vai, é o preço de um drinque... Ok, de um bom drinque.... Ok, de uma garrafa.

Eu sempre prefiro ter o livro impresso, em papel, na cama, na estante. Penso em dizer que não gosto de ler na tela, que é cansativo, mas daí reparo que li e reli TODOS os meus livros na tela, e minhas traduções. Não sou daqueles que imprime para revisar, faço tudo na tela mesmo. Então, ok, dá para ler na tela numa boa, embora não seja o ideal. Eu não baixo livros pra ler. Nunca baixei.

E tem os e-readers, né? Aqueles aparelhos tipo palm feitos exclusivamente para leitura, que têm telas mais adequadas a isso. Acho que não são atraentes para a maioria das pessoas porque elas lêem um livro por mês (ou por ano?), o investimento não compensa. Mas e para quem trabalha com isso? Eu, que recebo pilhas e pilhas de originais aqui (em sulfite). Seria bem mais fácil ter tudo isso em arquivinhos, direito no meu e-reader. Quando eu viajo também, leio livros e mais livros para decidir o que vou ler. Seria mais fácil com um e-reader...

Hum, me compra um?

Conversei sobre isso uma vez com Ednei Procópio, editor e grande entusiasta do livro eletrônico. Ele aponta a utilidade dos e-readers em escolas onde não há bibliotecas, em comunidades carentes, onde não há espaço ou renda para se adquirir vários livros. Realmente é uma opção...

Mas isso tudo leva àquela pergunta: com o avanço dos downloads, os autores vão perder o pouco de suas vendas? Os direitos autorais, como ficam?

Na matéria da Folha, Marcelo Rubens Paiva aponta que "Na música, por mais nociva que seja, a pirataria pode até aquecer o mercado de shows. Agora, na literatura, a gente não tem outra fonte de renda que não seja o livro". Eu discordo. Mas é uma questão pessoal. O dinheiro que ganho com venda de livro não se compara com o dinheiro que ganho com outros trabalhos – tradução, matérias, roteiros, debates – meus livros me dão prestigio de escritor para conseguir esses trabalhos, isso sim, mais ou menos como um disco leva o público ao show do músico. E isso porque sou um autor que vende razoavelmente bem... dentro da literatura contemporânea.

Enfim, isso é mais uma reflexão aberta. Não tenho uma posição formada. Ainda acho que os downloads estão longe de ameaçarem editoras e autores, até pelo caráter conservador do público e do mercado, mas é sempre bom estar atento, acompanhar de perto, não deixar para quando os canhões piratas estiverem nas nossas costas...

15/07/2009

FAQ

Respondendo hoje a uma entrevista, me deparei com uma série de questões de sempre... Resolvi organizar um "FAQ" aqui, tirando de várias entrevistas, (até para eu poder copiar e colar quando elas aparecerem de novo). Pode ser que interesse a você...

Quais eram os autores que você lia na infância?

João Carlos Marinho, Condessa de Ségur, Ruth Rocha, Márcia Kupstas, Andersen, Irmãos Grimm... Adorava também a série “O Pequeno Vampiro”, de uma alemã chamada Angela Sommer Bodenburg. Eu lia muito logo que me alfabetizei, depois parei um pouco e voltei na adolescência.

Começou a escrever com que idade?


Assim, mais a sério, lá pelo final da adolescência, 17, 18... Era muito ruim, mas acho que tinha personalidade. Foi bom porque nunca fui travado para isso, escrevia muito, romances inteiros, horríveis, e passava para o próximo, aos poucos eles foram melhorando. Com 22 escrevi “A Morte Sem Nome”, que foi o segundo que publiquei, com 26. “Olívio” eu escrevi com uns 23, mas publiquei primeiro, com 25.

Sua mãe também é escritora. Foi influenciado por ela?

Minha mãe sempre trabalhou com livros, com traduções, em livrarias, na Biblioteca José Mindlin. E sempre tive a casa forrada de livros. Mas ela só foi publicar mesmo recentemente, se tornou escritora publicada depois de mim; nesse ponto foi um pouco o inverso, eu que a incentivei a publicar, embora ela tenha sempre me incentivado a ler. As coisas que ela me indicava a ler também... para ser honesto, não eram tanto a minha praia. Acho que, como mãe, ela queria me poupar das coisas mais dúbias ou perversas. Uma grande influência que eu tive foi uma namorada do colegial, ela me falava de alguns autores e eu os descobria lá nas estantes da minha mãe – e imaginava por que minha mãe nunca tinha me apresentado esses autores antes: Caio Fernando Abreu, Alberto Moravia, Oscar Wilde... Aliás, apesar da minha mãe também trabalhar com literatura, meu universo temático sempre foi muito mais próximo ao do meu pai, que é artista plástico. Ele pintava mulheres lânguidas se suicidando, a Morte cavalgando; essas imagens talvez tenham tido uma influência maior nos meus temas, mas certamente minha mãe deu toda a estrutura, o veículo.

Você sempre quis ser escritor?

Não. Nunca pensei em ser escritor porque nunca achei que ser escritor pudesse ser uma profissão, que você pudesse viver disso. E ainda não acho. Pegue as orelhas dos livros por aí: “Fulano é escritor e jornalista, médico, carpinteiro, etc.” Ninguém é apenas escritor, só quem escreve porcaria ou que já tem idade para estar aposentado em qualquer outra carreira.
Até meados da adolescência eu queria ser biólogo, estudar répteis – meu tio até me levou ao Pantanal quando eu tinha uns quinze, mas era uma espécie de torneio de pesca, e por acidente acabei pescando um dos maiores peixes e ganhei um troféu -haha. Minhas maiores notas eram em biologia e em inglês. Em português eu era um aluno de 8, 8.5; eu gostava de escrever redações, criar histórias e era criativo, mas tinha uma letra do cão e errava no português. Os professores sempre escolhiam ler as redações das meninas certinhas que escreviam mensagens edificantes à humanidade – e onde estão elas agora, hein, hein? Num laboratório que fiz com alunos da 7ª e 8ªs séries, há alguns anos, a professora me mostrou toda orgulhosa as redações das patricinhas que escreviam corretamente, com uma letra bonitinha, com figuras de linguagem. Mas eu boto mais fé mesmo nos moleques que estavam escrevendo bizarrices numa folha toda amassada. Ao menos, é com eles que eu me identifico.

Você fez faculdade?

Fiz. Publicidade e Propaganda na Faap, mas não me orgulho disso, ok? Pensei que era uma forma de trabalhar com criação, escrever, e ganhar uma boa grana. Teve aquele boom da publicidade brasileira nos anos 90, né? E todo mundo que não sabia o que prestar acabava fazendo publicidade... No começo do curso eu já fui trabalhar numa agência grande, porque um tio meu era diretor lá, foi coronelismo mesmo. No último ano, estava em crise com a publicidade e resolvi prestar Letras na USP. Entrei, mas não segui no curso, já estava terminando a Faap, queria sair de SP um pouco, fiquei com preguiça de começar uma nova faculdade. Também não achava – e não acho – que Letras seja a faculdade ideal para quem quer ser escritor. Contesto essa coisa do escritor como acadêmico...

O que a publicidade trouxe à sua literatura?

Hum, espero que nada... Haha. Não, há um lado positivo da publicidade em tratar a criação de forma mais objetiva, prática. Você recebe um briefing de manhã e na hora do almoço precisa estar com um texto pronto. Na literatura – ou no meio editorial – tudo é tão lento, as coisas são muito mais etéreas... Não é só por uma questão de profundidade, ou de volume de texto, é um ritmo de trabalho mais preguiçoso. A (boa) publicidade também exige um padrão de qualidade gráfico que deveria ser empregado no mercado editorial. Você vê umas capas de livro, uns convites de lançamento... percebe que as pessoas lá não têm a mínima noção do que estão fazendo. Os diretores de arte do meio editorial, em geral, não chegam aos pés dos diretores de arte da publicidade – até pela grana que recebem. Isso foi algo bem positivo que a publicidade me deu, olhar a parte gráfica de um livro e dizer: “Não. Aumente esta fonte, mude essa letra, essa foto vai desaparecer numa roda de livraria.”

Como começou a publicar?

Prêmio Fundação Conrado Wessel. Era um concurso para romances inéditos. Já tinha “A Morte Sem Nome” e “Olívio” escritos, guardadinhos. Tinha mostrado para super pouca gente e não tinha tentado realmente publicar porque não achava que nenhuma editora iria ler, e mesmo que fosse publicado, ninguém iria se interessar, não faria diferença. Mas como tinha esse concurso - eu tinha acabado de voltar da Europa, onde trabalhei de barman, estava sem emprego, fazendo todo tipo de bicos, roteirista de disque-sexo, etc, etc – resolvi mandar “Olívio”, que era um romance mais fácil, mais curto, mais narrativo, para ver no que dava. O livro foi selecionado e publicado. Daí resolvi me empenhar para manter a porta aberta, para conseguir publicar o segundo. Fui atrás do pessoal do júri do Prêmio, pedir conselhos mesmo, indicações. Beatriz Resende foi a única que me respondeu, e me indicou para o Paulo Roberto Pires, que estava entrando na (Editora) Planeta. Mandei “Olívio” para ele e uma semana depois ele tinha lido, me escreveu e me convidou para participar de um livro de contos com mais dois autores (Chico Mattoso e João Paulo Cuenca) para ser lançado na 1ª Flip. Fui pra Parati, fiquei vinte dias lá escrevendo, depois participei como convidado oficial da Flip. Foi incrível. Preciso dizer que, na época, eu não conhecia nada, nada, NADA do mercado editorial ou do meio literário brasileiro. Eu não só não conhecia o Paulo Roberto ou o Chico ou o Cuenca, eu não sabia quem eram os críticos de jornal, não lia os blogs, eu não sabia como a coisa funcionava. Eu apenas gostava de ler livros e de escrever – mas até olhava torto para literatura contemporânea, não sabia quem estava publicando, quem eram os autores etc. Caí de pára-quedas totalmente. Lembro de uns papos do Chico com o Cuenca em Parati: “O que você achou do novo livro do André Sant’anna?” E eu não tinha idéia de quem eles estavam falando...


Hoje você vive só de literatura?

Não. E sim. Vivo de traduções. E faço de vez em quando crônicas para jornal, matérias pra revista, uma palestra aqui, avalio livros para editoras, tem a venda dos meus livros, adiantamentos, um roteiro de cinema de vez em quando. Tudo isso somado dá uma renda razoável, quando há tudo isso. Há meses em que tudo some. Mas é bom porque é tudo relacionado com literatura, aprendo muito, e eu faço meus horários, sou meu patrão.

Como é sua rotina?

Atualmente, acordo por volta do meio dia, leio jornais e blogs pela net, respondo emails e começo a trabalhar. Trabalho até umas 5, 6 da tarde, vou pra academia (todo dia, religiosamente), volto lá pelas 8, almoço (sim almoço), volto a trabalhar e vou até meia noite, daí janto; quando tem muito trabalho, até as 2h da manhã. Daí deito para ler e jogar Nintendo DS. Vou dormir lá pelas 5:30. Então quando tem algum evento importante de noite ferra tudo. Procuro sair o mínimo possível durante a semana. Sou super caxias com meu trabalho.

Você fuma unzinho?

Não. Não gosto de maconha. Me dá bad trip. Aliás, quase todas as drogas me dão bad atualmente. Geralmente bebo bastante nos finais de semana. Vodca. Se compro uma garrafa na sexta, ela não passa do domingo, então fico sóbrio de segunda a quinta, hahaha. Até dá para escrever bêbado, mas não dá pra ler.

Quais são seus autores favoritos?

Wilde, Mann, Kafka, Noll, Caio, Lygia, Marcelino, Moravia, Nabokov, Orwell, Tchekov, Mishima, Shakespeare, J.T LeRoy, Saki, Dennis Cooper, Lúcio Cardoso, Mário de Sá-Carneiro, Clive Barker, Stephen King, Bram Stoker, Easton Ellis, Jean Guillou, Burroughs, Gaiman.

E da sua geração?

Ana Paula Maia, Christiane Lisbôa, Paulo Scott, Daniel Galera, Francisco Slade... Eu aprendi direitinho, hahaha. Eu tive de aprender na marra. Quando você começa a publicar por grandes editoras, começa a receber uma enxurrada de livros, daí tem os eventos, Flip, Bienais, vai conhecendo outros autores, fica curioso para saber o que eles estão fazendo, se torna impossível não se aprofundar na literatura contemporânea. Atualmente, eu tenho de me policiar para não ler só isso, porque recebo esses livros diariamente em casa, mas ainda não li muitos dos clássicos, também preciso ler em inglês, espanhol e francês, e ainda deve ter alguma coisa obscura de Oscar Wilde que eu não li...


Dos seus livros, qual é seu favorito?

O próximo. Sempre.

10/07/2009

PÓS-PRODUÇÃO
Eu, Marcelo, Bianca, Nicolas, Fábia, Alê.


Gravação nesta sexta do video-release do livro novo. Posto o resultado em breve...

09/07/2009

A VOLTA DOS VELHOS ANDRÓGINOS




Ok, escutei o novo do Placebo, Battle for the Sun. Meu veredito: um dos melhores álbuns do Placebo. Não que seja GRANDE coisa, não vai muito alto na minha lista de melhores do ano. Eles fizeram (bem feito) a mesma coisa de sempre; as faixas deste álbum podiam estar espalhadas por todos os outros álbuns da banda, mas são faixas bacaninhas.

O maior mérito do Placebo, pra mim, sempre foi trazer certo lirismo num som extremamente pesado e minimalista. E este álbum ressalta isso. Não há nada muito irritante ou entediante (ao contrário do cd anterior, Meds, que eu acho um pooooorre – só salvo “Post Blue” e a faixa título). Todas as faixas de Battle for the Sun são animadinhas, boas para se ouvir correndo na esteira (onde mais escuto Placebo).

O álbum começa muito bem com as guitarras emendadas de “Kitty Litter” e “Ashtray Heart”, pesado, mas mais lento do que o álbum anterior. A faixa título, “Battle for the Sun”, é minha favorita -robótica e repetitiva, começa lenta e vai acelerando com paredes de guitarras. Dá um ótimo single. “Bright Light” é outro destaque, mais fofinha, lembra coisas de Black Market Music como “Black Eye” ou “Slave to the Wage”. Da metade pra final, o álbum vai ficando mais chato, talvez seja o efeito cumulativo da voz do Sr. Molko, que cansa, ou talvez seja porque as faixas são muito parecidas entre si, mas a última faixa, “Kings of Medicine” é bem bonitinha, com orquestra e tal, lembra... THE CALLING (“Wherever You Will Go”, diz aí?).

E é isso, não há muito mais a dizer porque não há novidade nenhuma. Acho que um dos maiores desafios de um artista é evoluir, mantendo uma identidade, sua marca registrada. Placebo não evolui. Mas também não retrocede... e mantém a marca.

Confesso que eu era bem mais fã (ok, um pouco mais fã) antes de vê-los ao vivo na turnê de 2005, aqui no Brasil. Eu estava lançando livro e minha “turnê” acabou coincidindo com a deles – vi Placebo em Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo. Os três shows foram idênticos, no piloto automático, totalmente pau mole, coisa imperdoável para uma banda de rock pesado que, no mínimo, devia ter uma atitude punk rock. Até os diálogos de Brian Molko com a platéia se repetiam. Depois disso, brochei.


Mudando de tom, comprei a coletânea da Annie Lennox. Sou fanático por Annie Lennox desde piá. Quando estudei na Inglaterra, em 94, voltei com horrores de CDs, singles e livros de Annie Lennox e Eurythmics na mala. Mas é verdade que de uns (bons) anos pra cá ela virou mãe de família, inclusive musicalmente, e lançava hits para consultório de dentista.

Sua Collection não desmente isso. Cobre toda a carreira solo dela, com hits como “Why”, “Walking on Broken Glass” e “No More I Love Yous”, que são gostosos e não ofendem ninguém. Há também falsos hits, (“incentivados” pela gravadora, mas que não tiveram realmente repercussão) como “Dark Road”, “Pavement Cracks” e (a vergonhosa) “Sing”- uma espécie de “We Are the World” de La Lennoxa, com várias mulheres cantando para salvar a África de Aids. A música é ruim de doer e nem é catchy; por que para salvar as criancinhas é preciso matar a fera criativa? Fora que o coro de estrelas (Dido, Shakira, Beth Gibbons, Fergie, etc) foi colocado bem no background, só se ouve Annie Lennox de fato e, num determinado verso... Madonna. Pffffff...

Como de costume nessas coletâneas, há duas músicas novas. Uma delas nem merece comentários, a outra é um cover de “Shining Light”, do Ash, que eu já coloquei aqui há alguns meses e que é bem bacaninha.

A edição que eu comprei ainda vem com um DVD dos clipes. Não são uns putas clipes, mas têm uma bela fotografia, e sempre é bom ver tia Lennox, a Marília Gabriela de Aberdeen, em ação.

Enfim, um bom CD para tocar nos alto-falantes do supermercado.

Ah... Nossos ídolos estão ficando velhos...


"Já fui cool, ok?"

Para quem não conhece ou não bota fé na Lennoxa, recomendo os três primeiros álbuns do Eurythmics, sua banda nos anos 80: In The Garden, Sweet Dreams e Touch, que são GENIAIS - essa é a Annie Lennox que eu conheço - soam lindamente datados hoje em dia. Uma coletânea do Eurythmics também dá conta do recado.

Olha, pra você ver que Annie Lennox é (ou foi) bacana:

06/07/2009

LITERATURA PARA MACHO








Ano passado fui praticamente soterrado por livros a avaliar. Houve meses em que passei literalmente na cama, só lendo e escrevendo pareceres de livros para editoras. Grande parte do que li já deletei do meu HD mental, mas ao menos estão salvos (com sinopse, avaliação e recomendações) aqui no meu computador.



Um dos livros mais divertidos que avaliei foi Drink, Play, Fuck, do americano Andrew Gottlieb, que agora é lançado no Brasil pela Planeta.



É uma sátira do (bestseller de mulherzinha) "Comer, Rezar, Amar", por um ponto de vista masculino, uma coisa meio "Homer Simpson de ser". Conta a história de um publicitário que é chifrado pela esposa e resolve tirar um ano de férias, para ficar gastando suas economias em prazeres típicos de macho: Beber na Irlanda, jogar em Las Vegas e trepar na Tailândia.



É ficção. Mas dá vontade (para não dizer "inveja"). É daqueles livros com que todo homem (independentemente da sexualidade) pode se identificar, e que talvez algumas mulheres achem charmoso. E já foi comprado por Hollywood para virar filme.

Só não entendi o título em português "Beber, Jogar, F@#*r" - primeiro porque não vejo necessidade da "censura" (ainda que haja no título original em inglês; e entendo menos ainda aqueles filmes em que o ator fala "fuck you" e se traduz "vai se ferrar"; se Hollywood permitiu "fuck", por que por aqui tem de ser abrandado?), depois porque seria mais adequado sonoramente se chamar "Beber, Jogar, Trepar" ou "Beber, Jogar, Transar".

Anyway...

Ainda falando em literatura de macho, esses dias li em duas sentadas (ops!) o premiadíssimo do Cristovão Tezza, Filho Eterno. Já estava preparado para não gostar (principalmente por ter sido tão aclamado), mas gostei bem. É um relato autobiográfico da relação dele com o filho portador de síndrome de down, desde o nascimento até a "maturidade". Dolorosamente sincero, ele inicialmente apenas torce pela morte do filho, mas acaba sendo tomado e cativado pela criança. Esse amaciamento de sentimentos é obviamente esperado (para não dizer "previsível") pelo leitor, mas a maestria do livro se dá em como isso é conduzido sutilmente, subliminarmente, passando longe de um conto piegas de "criança deficiente conquista homem durão". Bem bom.


Em 2007 tive uma mesa com Cristovão Tezza na Bienal do Rio. Não lembro de nada do que ele disse, nada do que eu disse - ainda bem, porque acho que eu só disse merda... Mas também... que idéia esse povo tem de colocar numa mesma mesa eu, Tezza e o... Kledir Ramil (isso, do Clayton e Kledir), o que o curry tem a ver com a feijoada?

05/07/2009

PALHAÇA MATADORA



Uma palhaça assassina que responde ao julgamento do público com tesouradas. Esse é o mote do espetáculo "Sobre Tomates, Tamancos e Tesouras", em cartaz de quinta a domingo, no Sesi Vila Leopoldina, até 26 de julho.

É um monológo delirante, ácido e tragicômico, levando as complicações do clown (ou "um palhaço para adultos") para o universo dos filmes noir dos anos 40. Bem divertido, sem ser tolo nem exatamente perturbador.

A palhaça é Andréa Macera, e a direção é de Rhena de Faria, que por acaso.... é minha irmã (número 3; sim, o "de Faria" é sobrenome do meu pai).

(Ah, sim, e não se preocupe, não é daquelas peças interativas que puxam gente da platéia. Tenho pavoooooooor disso...)

Serviço: "Sobre Tomates, Tamancos e Tesouras - Sesi Vila Leopoldina. Quinta e sábados: 20h. Sextas: 15h e 20h. Domingos: 18h. Até 26 de julho. Entrada gratuita e censura 14 anos (não leve bufanofóbicos, nem sua filha de colo).

03/07/2009

DIÁRIO DE UM PORNOSTAR



"Dois dias depois voltamos para gravar a cena de sexo. Fui conversar com o diretor sobre qual era a intenção dele nesse filme; ele foi novamente bem grosseiro: “I don´t give a f*ck!” Meu tesão era zero. Eu não queria estar lá, ninguem falava inglês direito, eram poucos gays na produção; de gays só eu e outro ator, entre oito modelos. O cenário não poderia ser pior."

Bem interessante o blog de Andy O'Neill, brasileiro que se mudou para Londres e se tornou ator pornô por lá. Andy não é apenas assumidamente gay (e passivo), como também assume sua carreira e expõe os percalços e bastidores dela de forma muito sincera e inteligente - apresentando tanto o lado profissional quanto o lado safado do meio. Bem bacana saber que tem gente nesse meio que pensa, e saber o que pensa.

Fora que ele vai contra o padrão físico da grande maioria de atores pornôs (que eu acho brochante) de über machos bombados. Faz um estilinho "boy next door". É moço pra casar (embora eu desconfie um pouco do tom às vezes excessivamente "bom moço" do pitéu).

Acho o meio pornô conceitualmente muito rico, embora na prática acabe se limitando a uma ejaculação precoce. Até o próprio termo "pornostar" e o lado glamuroso e kinky da coisa deve estar se esvaziando cada vez mais, agora que as produções todas são dominadas pela internet, consome-se cenas picotadas e essas produções se distanciam cada vez mais do conceito de "cinema".

Eu me pergunto se ainda se produzem longa metragens pornôs em película. Queria tanto ver o Andy num desses cinemões da Praça da República...

Endereço do blog dele aqui: http://andyoneil.zip.net/

01/07/2009

(RE)COMEÇANDO


Sorry, com a proximidade do lançamento, acho que vou ficar meio monotemático...

Vai aí o começo do começo:


O menino emergiu do quarto como um inseto envenenado.
Segurando-se nos móveis, nas paredes, apoiando-se no batente,
chegou até a sala tentando reconhecer o tempo e o espaço em
que caminhava, desequilibrava. O prédio estava inclinado. Mas
a isso ele já estava acostumado. O problema era o horário em
que dormira, o horário em que acordara, com uma luz indecisa
alaranjando a janela. Final da tarde ou começo do dia? Sempre
era difícil se situar, quando dormia fora do horário...

O prédio estava inclinado. Mas a isso ele já estava acostumado.
O problema era o horário em que dormira, o horário
em que acordara, fora de hora. Isso acontecia cada vez com
mais frequência, agora que ele não tinha aulas. O menino ficava
em casa, jogado pelos cantos, escorando-se na cama, deixando
o cabelo crescer. Crescia além de sua masculinidade, cada
vez mais branca, cada vez mais magra. Com uma compleição
tão delicada que — aliada a seu longo cabelo escuro — os
amigos não podiam evitar chamá-lo de andrógino. Ele não se
importava.

Sentou-se diante da escrivaninha, na sala, e ligou o computador.
A lógica e os sentidos inicializavam-se também em sua
mente. Sim, final de tarde, percebia. Ouvia o Gordo rolando
no apartamento de cima. O prédio estalando com aqueles que
voltavam para casa, aqueles que conseguiam. Via refletidas na
tela do monitor as ondas do mar lá fora. Mar negro, manchado
de piche, por anos e anos de acidentes e descasos. O menino
não se importava. Não consumia petróleo. Não mergulhava
no mar, não manchava sua brancura no sol, no piche, no óleo
derramado. Ia do quarto ao computador, do computador ao
quarto. Na escrivaninha da sala, encontrava algumas notas
que sua mãe deixara — para pedir uma pizza. Ele pedia meia
catupiry, meia champignon — e comia só metade. O Gordo
sempre tocava a campainha para comer o resto. O Andrógino
não se importava.

Abriu sua caixa postal, viu seus e-mails e começou a me
responder. Logo ouviu a batida na porta, a maçaneta virando
e o Gordo entrando no apartamento destrancado. “Oi, o que
está fazendo? Pediu pizza? Posso comer com você?”

O Andrógino balançou a cabeça em negativa — negativa
que o Gordo poderia usar para responder a quaisquer das perguntas
que formulara — em seguida apontou para o telefone,
sem desviar os olhos da tela, e o Gordo foi rolando fazer o pedido.
Tinha de tomar cuidado, pela inclinação do prédio, por
suas formas arredondadas, poderia ser ejetado ao menor deslize.
Não seria um acidente fatal, claro — os próprios suicidas
já haviam desistido de se jogar daquele prédio; para conseguir
afundar no mar teriam de ter os bolsos pesados, uma mochila
nas costas, e só aqueles sem nada a carregar é que desejam a
morte —, mas o Gordo também não queria se manchar de
óleo, (por tantos acidentes e acasos), não queria ser jogado
como uma bexiga cheia d’água no mar. Segurou-se firme nos
móveis, com os dedos amanteigados, até deixar-se cair ao lado
do telefone, no sofá.

“Vou pedir meia catupiry, meia champignon, pode ser?
Vou pedir meio a meio, não é assim que você gosta?” O Gordo
perguntava ao Andrógino, já com o telefone na orelha, soprando
a ele seu hálito lácteo de gato, de quem acabou de comer
chocolate. O Andrógino não se importava. Continuou me dedicando
bits e bytes, por trás das ondas refletidas na tela.


O prédio era inclinado. Era por isso que os meninos ficavam
tanto tempo sozinhos, pediam tanta pizza e não esperavam
seus pais para jantar. Muitos dos pais haviam saído para
trabalhar e nunca mais voltaram. “Está chovendo. Está trânsito.
Estou cansada demais pra tentar entrar aí. Vou dormir
no trabalho. Num flat. Na casa da vó. Volto pra casa no final
de semana. No próximo feriado, quem sabe. No Dia dos Namorados...”
Porque para entrar novamente no prédio era um
sufoco. Porque o prédio, de tão inclinado, perdera sua porta de
entrada. Para os meninos era relativamente fácil, conseguiam
entrar nele como se subissem numa árvore, numa casa da árvore,
num prédio inclinado. Mas os pais, com seus ternos e suas
pastas, laptops e salto alto, tinham mais dificuldade de voltar.
Desistiam. Diziam para os filhos pedirem uma pizza.

Dentro do prédio, a ordem não era ditada nem mesmo
por um zelador zeloso. Seu Antônio havia muito não era visto,
trancado dentro do apartamento. Com a inclinação do prédio,
as fundações comprometidas, sua porta havia sido obstruída e
ele não pôde mais exercer seu ofício. Já não havia mais regras
nem reguladores no edifício.

E sem pais e sem adultos, sem regras e sem compromissos,
o que delimitava as fronteiras dos meninos? Escola? Não,
nem isso lhes cerceava. Alguns meses antes, os professores tinham
entrado em greve. Não era uma questão financeira, era
uma questão de orgulho. Não podiam receber menos do que
os pais de seus alunos, porque assim se sentiriam empregados
das crianças. Não podiam conversar com mães com as quais jamais
poderiam se casar e ter filhos, porque considerariam seus
próprios filhos inferiores. Então, como uma forma de mostrar
seu poder, resolveram entrar em greve, geral, perpétua, perene,
permanente, até resolverem seus próprios dilemas e incoerências.
Muitos inclusive entraram em greve apenas para poder aumentar
a frequência das visitas ao analista. “Doutor, como eu
poderia educar crianças que são ricas demais para serem meus
filhos? Como posso acompanhar o valor de mães que jamais
teriam a mim como marido?” São justificativas desprezíveis, eu
sei, mas não tenho culpa, não fui eu quem entrou em greve.

O Governo riu, mastigando pernil. “Haha, então vamos
ver quem é mais forte. Deixem que façam greve. Não vamos
nos preocupar com isso...”

Aproveitaram a greve para fazer reformas na escola. Na verdade,
para fingir que faziam reforma. Faziam, mas fingiam.
Derrubavam uma parede, para construí-la novamente. “Precisamos
movimentar a construção civil, não é? Sabe quantos
novos empregos essa greve gerou?” Então, os trabalhadores
braçais pressionavam o governo para que as reformas continuassem.
Os professores continuavam com o orgulho ferido,
por sua greve não ter sido respeitada. As crianças se arrastavam
durante os dias. E os pais... os pais no fundo agradeciam por
não gastar mais com material escolar.

“Aproveite essas férias para ler um dicionário, hein?” “Tem
programas bem educativos na TV.” “Se você assistir aos canais
certos, nem vai sentir falta das aulas.” Eles se convenciam, já
que os filhos não precisavam ser convencidos. E assim iam trabalhar;
as crianças ficavam em casa, saíam para a praia, andavam
pelas ruas, e deixavam os adultos sem filhos com medo do
que poderiam aprontar.

(Este é o começo do primeiro capítulo - que tem 15 páginas, então não tem como postar inteiro aqui - só um aperitivo. O banquete fica pra dia 4 de agosto, no Volt.)

GANHAMOS NOLL

(João Gilberto Noll, 1946-2017) Perdemos Noll. Acordei nesta quarta com mensagens me contando, Rodrigo Casarin do Uol me pedindo um...