30/04/2006

OLHOS VERMELHOS E PÁGINAS EM BRANCO

Acabei de ler "Frisk", do Dennis Cooper, autor norte-americano que só escreve sobre estupro, tortura e assassinato de adolescentes gays. Ainda assim, é um escritor consistente, suas obras não satisfazem apenas desejos sadicos e pornográficos, são muito bem estruturadas, de uma certa forma como Brett Easton Ellis.

Em "Frisk", por exemplo, ele narra a saga de um jovem escritor (também chamado Dennis, vejam só) que vai alimentando um desejo crescente por torturar e matar seus parceiros sexuais. A narrativa é estruturada de uma forma em que não fica claro o que está acontecendo realmente e o que é apenas uma fantasia do personagem. Ele ainda introduz fatos, depois os retira, dizendo que aquilo de fato não aconteceu. Em certo ponto comecei a perceber que aquilo não era nada além do que o próprio exercício de escrita, com o autor criando fantasias e depois alertando: "isso é apenas um livro. Eu só estou escrevendo sobre isso, não estou matando ninguém, o sadismo está com você".

Na maior parte do livro, a violência é apenas sugerida, não chega às vias de fato, entretanto, no penúltimo capítulo alcança um ponto quase insuportável. Sinceramente, foi o livro que mais me impressionou pela violência gráfica. Quase desisti da leitura. Mas Cooper é inteligente, e só chega nesse ápice no final, forçando o leitor a prosseguir: "vamos lá, são só mais trinta páginas...".

Muita gente que duvidava da identidade de J.T. LeRoy acreditava que ele não era ninguém além do próprio Dennis Cooper (que já havia elogiado LeRoy publicamente e se tornado "amigo" dele). Não era. E talvez Cooper tenha descoberto a verdade sobre a farsa há algum tempo, porque já dizia publicamente que não queria ser associado ao rapazinho.

Quando eu estava terminando a tradução do "Maldito Coração", recebi um email do "LeRoy" pedindo para que eu tirasse todas as referências ao Cooper do livro (ele era citado nos agradecimentos finais, na dedicatória e numa frase da capa). Apesar de terem personagens semelhantes, acho impossível confundir os dois. Tem estilos completamente diferentes, a maneira como a violência e exposta, e até a temática central difere.

Dennis Cooper está mais próximo até do Clive Barker... e ainda assim está dezenas de quilômetros à frente (talvez ao lado de Brett Easton Ellis). Ainda não foi traduzido para o português. Eu já indiquei para algumas editoras, para eu traduzir, mas não sei se de fato daria certo no Brasil...

Continuando com as coisas "impressionantes", fui ver "BR-3" do grupo Teatro da Vertigem. É uma peça de 2 horas e meias encenada toda dentro do Rio Tietê. Sim, você assiste a peça dentro de um barco enquanto os autores encenam nas margens, em lanchas, no próprio barco e até dentro do rio. O barco está sempre navegando, passando por novos cenários, os atores acompanham com lanchas, todo o texto é declamado através de microfones. Tem um clima bem surreal. O cheiro do rio é suportável, porque a peça é encenada de noite. O texto é interessante. Mas o que mais impressiona mesmo é aquele cenário, você dentro do Rio Tietê, os carros passando nas marginais, nas pontes, as garrafas boiando... Só por isso já vale. E é uma peça que só pode acontecer em São Paulo.

Falando em esgoto, jovenzinhos sendo engolidos e literatura, não esqueçam de que "Mastigando Humanos" sairá... ahhhhh, deixa pra lá. Deixo então um trecho de "Catorze Anos de Fome", conto meu que também tem a ver com isso, e que sairá em breve, em breve numa antologia... Quem foi na Casa das Rosas no dia 8 de abril já tem o continho inteiro em mãos.

"Olhos tingidos de vermelho, de doenças, de ódio. Olheiras profundas, narinas dilatadas. Olha para os meninos como quem pede socorro, como quem pede desculpas, como quem não pode se conter e não pode mais suportar. Como se quisesse engolir até o último dedos dos jovens, sugá-los, como um fio de espaguete, como se só assim pudesse sobreviver."

Doença. Doença. Na minha boca hoje tem uma espinha de peixe, nada poético. Me tragam uma faca para eu abrir a espinha...

26/04/2006

MANTEIGA NOS BOLSOS É REFRESCO

Preocupado com meu coração, que endurece a cada aproximação do inverno, coloquei potinhos de manteiga Vigor no bolso esquerdo da minha camisa. Assim, quando a bala perfurar meu peito, estarei devidamente amanteigado para o caçador que me assará no espeto...

"Não espere por mudanças, espere por acontecimentos", me disse Ana Paula Maia por email. Puxa vida, é verdade. As coisas acontecem mas pouca coisa muda, porque sou apenas um e sou sempre o mesmo. E qualquer cenário que eu olhar será sempre com os mesmos olhos. E as sinapses possíveis são sempre as mesmas. E o coração que bate por ti é o mesmo que bateu por ela... e que bate pela esteira na academia.

Falando em novos cenários, semana que vem sai um conto meu numa antologia italiana. Não sei o nome da antologia, nem o nome do meu conto em italiano e ainda não recebi o ca$h, mas deve estar chegando. De qualquer forma, não gosto mais do conto – "Seis Dedos pra Contar" – acho chato. Quem escolheu foi minha agente, ela deve saber o que está fazendo.

Também estamos preparando uma sample traduction de "A Morte Sem Nome" em inglês. Vamos ver se dá certo. Rodrigo Novaes – artista plástico e amigo que trabalhou de barman comigo em Londres – sugeriu "Nameless Death" como título. Achei legal.

A edição portuguesa até hoje não saiu, que eu saiba. Recebi o adiantamento, contrato, mandei os originais, mas ainda não vi o livro. Enfim, os processos são lentos. Não é a toa que um dos prêmios mais importantes de literatura aqui no Brasil se chama "Jabuti".

Mas esperem os répteis que preparei para "Mastigando Humanos"... Embora eu saiba que as pessoas preferem gatinhos, cachorrinhos, animais bonzinhos que não contradizem....

Estou desde segunda trancado em casa, lendo ininterruptamente, mas nada muito sofisticado. Uma biografia do Suede, um livro de herpetologia e um de sadomasoquismo. Puxa, puxa, agora que percebi, tudo muito "animal nitrate", não?

So in your broken home, he broke all your bones...

Agora preciso sair porque acabou a comida e a água e estou morrendo de sede.

24/04/2006

SELVAGENS (NOS TRÓPICOS) TÊM SANGUE FRIO

Não tem acontecido muita coisa por aqui... Ou tem acontecido coisa demais e eu não estou tendo a estabilidade de narrá-las...

As madrugadas têm sido produtivas, pelo sexo e pela literatura (isso quando eu não misturo as duas coisas e acabo lendo putaria). Dia desses acordei num hotelzinho vagabundo com paredes descascando, aqui do lado de casa. Se eu olhasse pela janela, poderia ver meu próprio quarto... a cama vazia. Mas olhando para o lado, encontrei o amor que tornou aqueles lençóis mais dignos do que os meus vêm sendo...

Na madrugada seguinte, consegui ler "Macbeth" numa tacada.

Dia desses fui dormir depois de ter lido mais uma porcaria do Clive Barker – "Human Remains" – e lamentando comigo mesmo: "Por que eu insisto?" ... porque depois que decorei a propaganda do "Chatline", eles colocaram a do "Fala Mania".

Outro dia acordei com o Araki dando rabadas no meu rosto e exigindo: "Vamos lá, vá preparar minha salada." Não vou discutir com tem sangue frio... Selvagens me levam pra cama. Silvestres me fazem levantar...

Minha trilha sonora tem sido "Perfídia", naquela versão instrumental do filme "2046".

Cansa bastante ser a mesma pessoa todos os dias. Você não se cansa porque raramente pode ser você mesmo, trabalhando no escritório, falando em nome de uma empresa, tendo seus horários de almoço definidos por outros. Mas quando todo seu trabalho é assinado com seu próprio nome e sua personalidade se torna parte desse trabalho, você quer fugir para Porto Alegre, Londres, ser barman de um prostíbulo gay. Será que ainda consigo?

Atores sempre conseguem. Não se cansam de ser Macbeth todo final de semana? Minha relação com o teatro tem se intensificado, mesmo quando vou assistir o Paulinho Vilhena. Excelente tradução de Maria Luisa Mendonça e Christiane Riera... Hoje me sinto no direito de ser hermético.

A literatura não tem me bastado. Quero realmente mastigar humanos, digerir seus sonhos. Talvez seja porque o livro já está pronto há um tempinho. Preciso avançar em outro, ter sangue frio em países menos tropicais... Deixe-me avançar sobre você.

Já estou com quase todas as ilustrações aqui. Dez ao todo. Entram no decorrer do livro acompanhadas de legendas, que são frases do livro, mas não necessariamente daquele trecho. A idéia é criar um movimento interno, fazer com que a ilustração de uma cena relembre a frase de uma passagem anterior ou mesmo anuncie uma frase que surgirá posteriormente. Entendeu? Não? São as ligações internas do texto. Mais ou menos como eu fiz em "A Morte sem Nome", repetindo frases em novos contextos, mas agora acompanhadas de ilustrações.

Bem, quando você tiver o livro, você vai entender. Sai no começo do segundo semestre, blablablablá, ansiedade minha.

(Ai, não entendo esses escritores que escrevem literatura confessional, que têm blog...)

"Pele de Asno" é o filme mais kitsch que eu vi na vida.

19/04/2006

EM CASA DE GÓTICO TEM MARSHMELLOW NO ESPETO

Hoje fui assistir "O Albergue", do jovem diretor americano Eli Roth. A idéia é ótima: um albergue na Eslováquia onde turistas são aprisionados para serem torturados por ricos empresários que pagam para serem "psicopatas por um dia". O filme é violento, bem violento, mas tem um certo humor negro. Poderia ser mais assustador, se tivesse um clima mais onírico (como no "Massacre da Serra Elétrica" ou "Audition") e uma trilha sonora menos previsível. Do jeito que foi filmado, acaba se aproximando mais de um filme de ação e suspense do que um filme de terror. Afinal, um bom filme de terror precisa ter uma certa estranheza na técnica. Mas tá valendo.

Filmes com temática "snuff" há aos montes. Talvez o mais famoso seja "Oito Milímetros", do Joel Schumacher, estrelado por Nicolas Cage, mas está longe de ser o melhor. Há "Tesis – Morte ao Vivo", primeiro filme do diretor espanhol Alejandro Almenabar. Esse sim genial, sobre uma estudante de jornalismo que estuda "a violência nos meios de comunicação" e acaba conhecendo o submundo do snuff – vídeos com cenas reais de pessoas torturadas e mortas.

Há quem diga que isso não passa de lenda urbana. Eu duvido. Afinal, há todo tipo de louco no mundo, não é difícil acreditar que há gente seqüestrando e matando "em nome da arte". Aliás, esse é um conceito bem discutível – se poderia ser enquadrado como "arte extrema" ou se não passa de pornografia violenta. De repente existem filmes snuff que são podreira pura, outros podreira com um conceito por trás. Sei lá.

Muitas histórias famosas de serial killers têm base em conceitos religiosos ou filosóficos (a própria seita de Charles Manson, por exemplo), entretanto não me lembro de nenhuma que se apoie simplesmente nos conceitos da arte. Claro, existem performances radicais de "body art" que levam à morte, mas não podem ser enquadrados como "snuff" por não estarem relacionadas a um crime. Não há vítima. O artista está se mutilando por livre e espontânea vontade.

David Bowie fez um disco inteiro sobre isso, Outside, de 1995 (um dos meus favoritos). É um álbum conceitual que narra a história do seqüestro de Baby Grace, uma jovem de 14 anos que é torturada e morta como forma de arte. A história é contada por vários personagens no encarte do cd e nas 19 faixas, mas não tem um desfecho. Bowie prometeu que o disco teria seqüência, o que nunca aconteceu.

Outras bandas como Marilyn Manson e Nine Inch Nails (a maior influência de Bowie para compor "Outside") também trabalharam com "snuff" em áudio. Algumas, como o Christian Death e o Faith No More, chegaram a fazer supostos curtas snuff. Como diria Sílvio Santos: "Eu não vi, mas minha filha número três viu e disse que são fake." hahah.

Em livro eu não me lembro de muita coisa. Tem um cara chamado Marcos Fábio Katudjian (outro armênio, veja só), que lançou um romance chamado "Snuff Movie – Depois do Fim do Mundo", em 2002. Eu não cheguei a ler. Paulo Scott também toca rapidamente no tema em seu ótimo romance "Voláteis", lançado ano passado. E tem o Dennis Cooper, autor americano que pega pesado misturando o tema com pedofilia e homossexualismo. Uh-lalá.

No cinema, além dos que já mencionei, tem o recente "Jogos Mortais", que não lida exatamente com "snuff", mas tem essa idéia da tortura como uma forma de arte. Isso está presente também no excelente "Funny Games" do Haneke e até no "Pânico", do Wes Craven. Outras merdas misturam snuff e paranormalidade, como em "Vozes do Além", "Medo.com" e "Na Companhia do Medo". E tem um filme esquisítíssimo do Cronenberg, chamado "Videodrome", que vai para o lado sci-fi. Esse último vale só pela presença da Debbie Harry, que numa cena assiste a um snuff, fica taradinha e diz: "Ai, nasci para participar desse tipo de filme". Hahaha.

E eu mesmo já dirigi um curta snuff, sim! Duvida? Duvida? Chama-se "Ame o Garoto que Segura a Faca" e até tem ficha técnica no IMDB. Mas era tudo brincadeira e tosqueira. Eu tinha 19 anos, era gótico e estudava comunicação. Haha. Resolvi fazer um curta onde um psicopata "fashion" tortura uma garota fora de moda, que fica chorando e borra toda a maquiagem. Haha. Cheguei até a cortar a menina em cena (sim, ela topou). O curta foi bem realizadinho, tive uma equipe legal. Gosto bastante da fotografia e da edição. Só que o principal problema é que EU resolvi fazer o papel do psicopata. Afff... Pelo menos encerrei minha carreira de ator a tempo...

(Não. Nem adianta vir com email me pedindo o vídeo ou perguntando onde se pode assistir. Com sorte, não existe mais nenhuma cópia... Pior que outro dia me escreveu um leitor que lembrava desse vídeo....)

E antes que alguém comece a ter idéias sórdidas, digo: prefiro sujar meus lençóis com marshmellow do que com sangue, ok? Traga marshmellow e nós conversamos.

16/04/2006

SERÁ QUE EU SOU FEIA?

Ei, ainda não contei aqui que beijei os pés da Angela Maria?

Pois é, pois é, quarta-passada. Fui na festa do programa Metrópolis, na TV Cultura. Tinha de tudo, Supla, Barão Vermelho, Celso Pitta, Beatriz Segall. E um monte de shows acontecendo ao mesmo tempo. Angela Maria, que é da velha guarda, cantou um minuto, depois as câmeras se dispersaram, correndo para focalizar algo como a Pitty. What a pitty...

Mas eu e o Marcelino (Freire), ficamos lá para assisti-la. No final, eu não me satisfiz e beijei os pés da diva. E foi só eu abrir a boca para ela perguntar: “Você é estrangeiro?” (Putz, toda hora me perguntam isso. Deve ser pelos meus cabelos compridos, meio argentinos, ou pelo meu chachachá...hahaha.)

E recebi neste feriado o livro “Fan-tan”, escrito pelo Donald Cammel e o Marlon Brando, que eu traduzi para a Nova Fronteira.

É uma história de piratas passada nos mares da China do início do século XX, típica do Marlon Brando. O personagem principal é um americano que se envolve com uma linda pirata chinesa e planeja com ela atacar um navio britânico carregado de prata. Daria um belo filme.

Não foi fácil de traduzir não, cheio de termos náuticos, de linguagem de marinheiro, prazo apertadíssimo, mas a Nova Fronteira é profissionalíssima nesse campo, e eu contei com um ótimo apoio do Miguel Conde e Rachel Agavino, que fizeram a revisão. Então acho que está tudo em ordem. Já deve estar à venda.

Aliás, a Nova Fronteira também me mandou esta semana o “Grande Sertão: Veredas”, depois que escrevi no blog que nunca tinha lido. Agora não tenho mais desculpas...

Hoje é Páscoa. Estou aqui no mato. Na casa da minha mãe. Ela escondeu meus ovos e até agora só encontrei ovo de cobra, de aranha e de gambá (hahá). Bom que deu uma esfriada e posso acender a lareira, ler “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” e assistir todos os filmes da Sky. De ontem pra hoje assiti “Na Companhia do Medo”, “Galera do Mal” e “Os Sonhadores”. Tudo arte... arte...

12/04/2006

FECHE OS OLHOS E MORDA A LÍNGUA

E as duas velhinhas cruzavam as pernas e os braços, cruzando a tarde em vão e vaidades, vaidades e infusões, num inverno solitário. Lá fora, amores resistiam, choviam e derrapavam, tentando voltar para casa, para as cobertas, para os braços uns dos outros, para fugir do frio.

Trecho de "O Pequeno Conto que Sorri", que está aí na sessão "Formigas do Açúcar" (no menu do lado direito). Coloquei dois contos novos lá. Além desse, de "Depois do Sexo" e "Garotos Podres", coloquei "Espinha de Peixe". Não são exatamente contos inéditos (nem recentes), já tinham sido publicados em alguns sites, por isso mesmo decidi colocar aqui, para facilitar o acesso. O conto "Seis Dedos Pra Contar" eu tirei de lá, porque me cansou.

E ontem fui assistir a pré-estréia de "Joana Evangelista", peça de Vange Leonel encenada pelos Satyros (no Espaço dos Satyros 2). Sempre é interessante ver as montagens deles. Tensas. Sonambulescas. Essa é uma releitura lisérgica e atualizada de Joana D'arc. Vale.

Legal também foi reencontrar e bater papos com a Vange. Eu que já fui groupie dela. Haha. Afinal, é dela o único hit gótico brasileiro: "Calada noite preeeeta, noite pretaaaaaaa..." A Siouxsie da Vila Madalena!

Esta semana está repleta de festas e pré-estréias, mas nem todas merecem ser mencionadas aqui... Só digo uma coisa: APAGUEM O BEGE DO CINEMA BRASILEIRO!!!!

Aliás, sigo no roteiro para o curta "Pó de Vidro e Veneno de Cobra", filme ofídico total. (Hum, belo título... "Filme Ofídico", alguém quer comprar?)

09/04/2006

ZÉ CARIOCA, PERSONAGEM TÃO SUTIL, CRIAÇÃO DO SEU VALDISNEI, QUE FEZ COISAS LINDAS MIL.

Os temas, a abordagem, as fotos. Tudo é uma forma de provocar, surpreender, chocar? O que você quer com a sua arte?
Não. A preocupação da minha obra não é chocar. Minha preocupação é mostrar certa beleza e elegância em temas considerados obscuros. Exatamente por isso pode ser relacionada ao gótico. A arte gótica tem essa característica principal, mostrar o lado belo, romântico da morte.

Trecho de uma entrevista que concedi a Fernanda Miranda, do jornal Tribuna da Imprensa, de Araraquara. O caderno todo de comportamento do dia 2 de abril discute o tema "atração pela morte". Uma página inteira é dedicada aos meus livros.

E ontem teve Casa das Rosas. Gostoso. Estava bem cheio, com um pessoal interessado e carinhoso. Quem esteve lá levou de quebra um caderninho com um conto inédito meu, de dez páginas, além de um conto inédito da minha mãe. Também sorteei um "Olívio" e distribuí pílulas de ecs... haha, zoeira, zoeira.

Continuando no terreno "mórbido", entraram uns filmes de terror aqui para eu traduzir. Oba, finalmente. Eu só andava traduzindo filmes políticos franceses de esquerda... E o melhor de traduzir filmes de terror é que 90% dos diálogos são só gritos. haha.

Hoje está sendo um domingo dos mais dominguentos. Chuva. Solidão. Depressão pós-farra. Saudades imensa de um andar lindo e leve no sol de verão... "E o coraçãaaaaaaaaao..."

05/04/2006

FELINOS! NÃO RECONHECERÁS!

E aí, gatcheeenho, o que vai fazer no finde?

Hehe. Tenho um convite. Sábado, 18 horas, na Casa das Rosas (Av Paulista, 37), vou fazer uma leitura de algumas coisinhas, incluindo um continho de terror (quem sabe assar marshmellows?) e bater um papo com o público. Entrada gratuita.

Muita gente aparece no Orkut, manda emails, quer ser amiguinho, mas nessas horas, cadê? Vamos ver quem é macho (ops!) de aparecer. Ok, prometo sortear um livro. E podem levar livros pra autografar, claro. Depois podemos sair todos de mãos dadas cantando: "Nós gatos já nascemos pobres..." E sentar num bar por lá para drinques. Que tal? Mais do que isso eu não posso fazer...

Quer dizer, posso também ir até a SUA cidade, fazer uma leitura, um debate, participar de uma Bienal ou feira de livro. Basta contatar a Promoart.... Nah, basta você formar um lobby e propor meu nome nesses eventos. Eles se encarregam de passagem e hospedagem. Eu adoro viajar para fazer essas coisas, mas acaba rolando mais em Rio e São Paulo.

E o que tá rolando? Não muita coisa. A coisa aqui deu uma esfriada. Tive uma idéia de uma antologia/tradução, e assim que conseguir fechar com uma editora, dou mais detalhes. Tem também aquela "antologia antológica" de contos gays, que estou organizando com o Marcelino Freire. Tá embassado. Na verdade, já definimos praticamente todos os nomes, mas a editora ainda não fechou tudo direitinho, então estamos esperando. (Antes que me perguntem: não, não vamos ter autores inéditos. Vão ser só contos de temática gay de autores clásicos - gays ou não - e alguns contemporâneos de peso. Para entrar um inédito, tem de ser travesti! [hum, espero que ninguém mais se lembre de "Tootsie"... Hahaha])

Já estou trabalhando com o Marco Túlio na capa de "Mastigando Humanos". Também vai ser uma capa bem diferente das outras, seguindo o estilo "psicodélico" do livro. No final de semana, fiz fotos de divulgação com a Fabbie (algumas já estão no Orkut). E a foto de orelha vai ser novamente do Luciancencov.

Que mais? Estou escutando Arnaldo Baptista cantando: "Eu quero ver o nascer do sol, antes do outro comercial..." É madrugada, mas não tanto.

03/04/2006

HUMANOS SÃO NOSSOS AMIGOS, HUMANOS NÃO SÃO PERIGOSOS...

Na madrugada de sexta para sábado eu até dormi num horário decente. Mas lá pelas tantas acordei com uns barulhos meio esquisitos, sirenes, gritarias, almas torturadas pelas labaredas de um incêndio!

Não é que eu more num bairro, assim, "peligroso", é que as fronteiras entre as classes se estreitam cada vez mais e blablablá, blablablá... Então aqui na frente tinha um cortiço invadido por sem-tetos. E depois de muito barraco com a polícia, parece que eles resolveram incendiar o local. Tipo, "se a gente não pode morar aqui, ninguém pode". (Ai, ai, que meda!)

Eu tentei continuar dormindo, mas meu sonho foi invadido pelas sirenes de uma forma estranha...

Sonhei que a polícia estava me perseguindo [a mudança na cor da fonte é para dar o tom onírico]. E eu, para me esconder dos gambé, mergulhei no fundo de um lago cheio de jacarés. Eles não me faziam mal.

O que isso quer dizer, Sra Del Fuego? (fuego, répteis, veja só, tudo se encaixa). Para mim, a lição foi "NÃO COMA SEUS AMIGOS", uma coisa meio PETA, né? Não? "Humanos são nossos amigos, não coma humanos. Nem tente digerir seus sonhos...". Haha.

Mais bonitinho foi um vizinho/leitor, que viu a fumaça de madrugada e achou que era no meu apartamento. Ele tinha lido aqui no blog sobre as velas, L'autreamont, etc, daí fez as ligações erradas...

Voltarei no seu churrasco!

Aproveitando a deixa, coloco um conto inédito e antigo. Acho que é o momento propício. Pra quem gosta de reality show: tchau!


Minha Casa Pegou Fogo

Esperávamos no meio da estrada por um ônibus. O sol forte, o céu azul e a ausência de prédios me dava a impressão de que o horizonte era quase infinito e que eu poderia seguir qualquer caminho que quisesse. Que o mundo estava aberto, sem pedágios, e eu teria de manter um percurso muito definido em mente se não quisesse me perder. Na vida.

Minha mãe tinha quase metade da minha altura, mas ainda assim me pegava pela mão e fazia sinal para o ônibus parar. Eu era o filho que ela colocava no mundo, dizia para eu não ter medo e voltava para sua casa. Voltava para a casa que foi sempre sua. Voltava para o lugar de onde sempre veio. De onde veio? Eu mal sabia para onde eu ia, perdido naquela estrada, com tantos céus azuis, sóis, horizontes e calor me derretendo a masculinidade. Agradeci ao motorista, paguei com meu próprio dinheiro e me sentei ao fundo.

Lá dentro, continuava fazendo muito calor. O céu continuava imenso pela janela e permanecia em mim a crença de que eu poderia ir para qualquer lugar. Não porque eu fosse tão livre na vida. Não porque eu quisesse tudo conquistar. Mas porque, saindo da casa da minha mãe, não haveria lugar algum em que eu me sentisse realmente à vontade. Não haveria lugar algum que eu chamaria de lar.

A casa da minha mãe era nova. Eu nunca havia morado lá. Foi uma casa construída para quem não tem filhos, mas recebe visitas. Eu podia entrar em todos os quartos. Eu podia comer os chocolates. Podia deitar na varanda e os cachorros viriam fazer festa em mim. Os cachorros me reconheceriam como filho. A comida era feita para mim. E embora não houvesse cicatrizes minhas no quintal, onde mais eu poderia chamar de lar?

De noite, acendêramos a lareira. Foi necessário um grande esforço por parte da minha mãe. Gravetos, jornais, lenha e velas, até o fogo pegar. Ela é que conseguiu fazer assim. Ela conseguiu incendiar dentro da sala, sem o fogo se alastrar. Estava frio o suficiente para nos sentirmos aquecidos. Frio o suficiente para fazer calor.

E naquele ônibus, perdido na estrada, eu quase não sentia o sol entrar. Depois de uma hora de viagem foi que percebi o lado esquerdo do rosto arder. Afastei-me da janela e fechei as cortinas. O ônibus entrava na cidade e eu perdia a poesia que me fragilizava e tornava-me incapaz. Desci e peguei um metrô, para o meu apartamento.

Ia chegando lá no final do dia. O suor como resquícios do sol. A barba por fazer como fim de feriado. A mochila em minhas costas que só continha restos, roupas já usadas, nada a começar. Precisava de um banho para endireitar minha coluna. Dormir e acordar em meu próprio colchão. Mas diante do prédio só encontrei uma mancha negra com cheiro de pão queimado. A torrada da minha própria vida.

O prédio havia se incendiado. Ninguém mais gritava ou chorava em desespero. Um porteiro sentava-se na calçada, melancólico, conversando com o vigia. Alguns moradores se lamentavam. Algumas donas-de-casa pareciam conformadas. Já haviam passado pelo estágios em que eu me encontraria: espanto, revolta, resignação. Minha casa pegou fogo.

"Afinal, o que aconteceu?" Ninguém sabia explicar, ninguém queria mais falar nisso. Os vizinhos voltavam para suas casas como se aquele fosse apenas mais um ônibus do qual desceram. Voltavam às casas dos pais, dos irmãos, à família. Deixavam-me ali em frente, olhando para minhas próprias cinzas.

E eu, voltaria à lareira de minha mãe? Aquela, que exigiu tanto trabalho para se acender? Tantos gravetos, jornais, lenha e vela. Como um prédio se acendia assim, em acidente? Gravidez indesejada, rejeitada pelos próprios pais. Resolvi assumir meu filho e dar-lhe de comer.

"Você não pode mais entrar aí. O prédio corre o risco de desabar." Se eu não tivesse seguro, só teria a lamentar. Eu não tinha seguro, mas não lamentava. Não me deixavam nem mesmo revolver os restos, procurar documentos, verificar o que sobrara de uma vida que eu fingira ser minha.

Não poderia voltar atrás. Pegar o ônibus, dizer à minha mãe que eu havia fracassado. Tinha que aceitar meu próprio destino, escrito em carvão. Seguir em frente, novos horizontes. Mesmo que eles fossem obstruídos por prédios queimados e edifícios em construção.

Foi só o sol se esconder que ninguém mais notou. O prédio ficou escuro para que eu pudesse entrar sem problemas, passar pela faixa de segurança, caminhar pelos corredores silenciados. O chão ainda parecia sólido o suficiente. O incêndio tornara o prédio ainda mais acolhedor. Como uma toca de rato, um buraco negro, um cantinho só meu, para eu me esconder. Fui seguindo os degraus, que achava que me levavam, e me deparei com portas que poderiam ter sido minhas.

Era difícil dizer. Difícil dizer até mesmo em que andar eu me encontrava. Como todo o chão, e todo o teto, como todas as paredes estavam pretas, eu não sabia ao certo se subia ou descia, se estava deitado ou de pé. A mesa de minha sala era de plástico, e uma grande massa derretida poderia se passar por ela nessa nova encarnação. Numa explosão, poderia ter se grudado ao teto. Onde eu me encontrava, poderia estar olhando para a televisão, que se grudara ao telefone, que se grudara à geladeira, que se grudara ao teto, numa grande massa derretida.
A divisão dos cômodos ainda existia, mas com os móveis, eletrodomésticos e interruptores incendiados, era difícil até diferenciar o quarto da cozinha, o banheiro da sala, o lado de dentro do lado de fora. Também estava tão escuro e o prédio tão silencioso, que eu me sentia invadindo um sonho de outra pessoa. Logo encontraria um mendigo sonhando comigo. E nesse sonho eu é que não faria sentido.

Tive de seguir então o que o cheiro de queimado me induzia: lareira na sala, torradas na cozinha, aquecedor no banheiro, sexo no quarto. Cada cômodo queimado trazia lembranças olfativas, de quando eu riscara um fósforo, de quando eu fizera amor. A mente se recorda instantaneamente, como num flash, foi assim que a encontrei no quarto, sob o colchão.

"O que você está fazendo aqui?" Ela dormia num quarto queimado. No meu quarto queimado. No meu colchão que restava intacto. Eu invadia seu sonho. E parecia que era eu quem não fazia sentido.

Ela abriu os olhos. Olhou envolta um pouco indecisa. E decidiu levantar-se e olhar para mim. Percebeu que eu estava mesmo ali. Que não era apenas um sonho, com seus olhos inchados. Eu não fazia sentido. O que estava fazendo ali vendo-a dormir?

"O prédio pegou fogo. É perigoso ficar aqui." Eu sei. Ela sabia. Eu sabia também, mas estava lá, invadindo o sono dela. Ela invadia o meu, entre aquelas paredes negras. E entre aquelas paredes negras, parecia que apenas ela fazia sentido.

"O que você está fazendo aqui?" Eu moro aqui, respondi. Ela olhou em volta meio indecisa e decidiu olhar para mim. "Sim, mas o prédio pegou fogo..."

A pergunta era a mesma. Nós dois invadíamos o prédio, tentávamos recuperar uma vida e considerávamo-nos os legítimos moradores de nós mesmos. Só que nós dois invadíamos, nenhum era o morador legítimo. Nenhum poderia ficar lá, era perigoso.

"Eu não tenho para onde ir. Sobrou este colchão", disse ela. Eu me aproximei e sentei no cantinho, não queria manchar minha calça de cinzas. "Esse apartamento é seu?", perguntei eu. Ela deu de ombros, mais consciente de sua incapacidade de determinar. "Não posso nem dizer em que andar estamos. Apenas segui o cheiro de torrada, o cheiro do aquecedor..." Ela seguira. E nos encontrávamos sozinhos no mesmo quarto, no único colchão, que agora era de nós dois.

"O que vamos fazer?", perguntei. Ela deu de ombros e voltou a deitar. Achei que ela queria voltar a dormir, mas antes fez questão de explicar. "Ainda não sei. Se a gente dormir, e descansar, amanhã podemos estar mais otimistas, com mais energia para encontrar uma solução. Ninguém vai vir aqui tão cedo. Podemos dormir até mais tarde, para não sobrar nem um restinho de depressão."

Fazia sentido. Depois fechou os olhos. Não sei se ela esperava que eu fizesse o mesmo. Talvez quisesse apenas me esquecer. Talvez quisesse esquecer todo o resto. Como ela mesmo dissera: acordar sem nem um restinho.
Só sei que quando acordei já era dia. E era cedo. O sol entrava por uma fresta que deveria ter sido uma janela. Podia ter sido uma parede, quem sabe, agora esburacada. Ela abriu os olhos logo, ainda deprimida. "Já é tarde?"
É cedo. E este quarto não se permite escurecer. Nosso plano não deu certo. O tempo que eu dormi, se é que eu dormi, foi como se estivesse apenas pensando. Foi como se estivesse apenas pensando em meus sonhos, no que eu gostaria de sonhar, em não fazer sentido. E essa técnica de divagar só me fez acordar num dia cedo, num prédio queimado, num quarto esburacado.

Antes que pudéssemos decidir qualquer coisa, o quarto desceu um pouco mais, como se fosse um elevador. Sentimos o chão desabando mas não nos preocupamos. A queda foi suave e alterou pouco ao nosso redor. Talvez apenas um pouco mais aconchegante. Talvez apenas um pouco mais enclausurados. A luz continuava entrando pelas frestas, mas agora era filtrada pela fumaça dos escombros. Minha companheira fechou os olhos e voltou a dormir, talvez para afastar a depressão que começava a retornar.

Quando acordamos, estávamos dormindo juntos. Sobre nós, passos. Talvez fossem ratos. Talvez moscas caminhando no teto. Talvez uma equipe de resgate. O que importava é que havia outras vidas no prédio. E caminhavam ao redor da crisálida que chamávamos de nossa.

Fiz sinal para que ela ficasse quieta. Não se mexesse. Assim talvez eles fossem embora e nos deixassem em paz. "Mas que diabos, estamos na nossa casa!", disse ela. Só então percebi que estávamos mesmo. Estávamos na nossa casa, minha e dela. "Mas fale baixo, mesmo assim, qualquer ruído maior pode desabar..."

Havia mais o que fazer lá do que apenas dormir. E quando já estávamos bem dispostos, resolvemos sair para fazer compras. Afinal de contas, era nossa casa. Podíamos sair quando bem entendêssemos. Podíamos voltar ainda na luz do dia. Ninguém poderia dizer que não. Ninguém poderia nos expulsar pelo bem de nossa própria segurança.

Não foi fácil rechear, não foi fácil mobiliar. Não foi fácil encaixar móveis num chão irregular, num solo quebradiço. Mas já havíamos feitos isso antes, não seria impossível fazer de novo. Com cuidado e paciência. Pouco a pouco juntando as migalhas. O pão de hoje no forno de ontem com o queijo de amanhã, tínhamos uma refeição. E pouco a pouco, juntando as migalhas, tínhamos a mesa para servir, pratos para dividir, facas para cortar.

Helena, era o nome dela. Me disse num desses dias em que a gente arrumava a luminária. A luz foi acesa. A energia voltou e nós com medo de desabar. Jantamos olhando para o teto, nos preparando para correr. "Enfim, Helena, prazer em conhecê-la."

Com a boca ainda cheia, ela me disse que estava satisfeita. Com o estômago cheio, ela me disse que estava grávida. Era meu. Nosso filho. Em nossa casa. Enfim, tornávamo-nos uma família feliz. Olhei novamente e o teto não estava mais lá.

Não que estivesse tudo perfeito, nunca esteve. Afinal, a reconstrução nunca terminaria. Acho que nunca termina, a reconstrução de nossa própria casa. Foi tudo tão queimado. Foram tantos andares destruídos, que o que pudemos recuperar já era uma grande conquista. E talvez houvéssemos recuperado mais do que perdêramos. Um quarto extra que desabou entre a sala e a cozinha. Uma nova pia que emergiu do encanamento do banheiro. Mais móveis retirados do escombros, uma porta que nunca esteve lá. Ainda que com problemas na fechadura, nossa casa era mais nossa. Os pedaços de nossos dois apartamentos formavam mais do que um, embora não chegasse a formar dois completos. O bebê vinha dividir.

Já tínhamos vizinhos. Dizíamos bom-dia. Antigos moradores e novos que vinham se apropriar. Donas de casa que armavam seus coques e fingiam nem ligar para as cinzas em suas bochechas. Diziam bom-dia. E respondíamos de volta com um sorriso no canto do rosto, na bochecha, onde não notávamos mais nossas próprias cinzas.

Helena não era a melhor dona de casa do mundo, mas, nesse mundo de casas incendiadas, ela era boa o suficiente. A divisão de papéis, que já não é mais tão rígida hoje em dia, nos tornava ambos donos, ambos responsáveis. E quando nasceu o pequeno Cristiano, essa responsabilidade se tornou ainda maior.

Afinal, tínhamos de alimentar uma criança, trocar fraldas e dar vacinas, tudo isso sob o risco do chão se abrir. Pisando em falso, nesse chão irregular. Isso gerava uma constante tensão. Isso causava um enorme cansaço. E, por isso, às vezes, eu e Helena brigávamos, derrubávamos uma parede, abríamos buracos. Cristiano apenas chorava.

Afinal, isso é que é vida em família, não? Nem todos têm lareiras a acender. Alguns têm de se contentar com um apartamento incendiado. Nem todos bebês tem bochechas rosadas. Alguns são manchados com carvão. O importante é seguir em frente e sentir-se em casa. O importante é trocar as fraldas e não pisar em falso.

Por tudo isso é que não te convido para vir aqui, mãe. Por tudo isso é que anda difícil te visitar. Muito trabalho a fazer, uma criança a alimentar. Tenho medo de que, se eu saia, tudo desabe. E quando volte não haja mais nada aqui. É difícil manter uma família em pé. É difícil manter um lar. Especialmente quem não tem lareira para acender, mas tem lenha para queimar.

(08/04)

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Eu e Raphael, apocalípticos e integrados.  É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é leva...