30/10/2005

QUERO ESTANCAR O SANGUE

Ahhh...

Vocês não têm idéia do que é esse show da Marina Lima (Limão) no Parque do Ibirapuera. É sério. Eu sou um fã parcial dela. Gosto muito, mas não gosto de tudo. Prefiro as coisas "pós-queda" e comecei a ouvir mais recentemente. Mas, sinceramente, esse show que ela montou no Ibirapuera é uma das melhores coisas que eu assisti na vida.

Ok, explico.

O Auditório Ibirapuera é um novo teatro (que está sendo inaugurado no parque de mesmo nome). Parece que foi criado para englobar tantos espetáculos internos (pagos$$$) quanto aqueles shows gratuitos ao ar livre. Por esse motivo, o palco tem dois lados. Ele é virado para um auditório finíssimo, de 800 lugares, com poltrona como de cinema, de onde se tem uma visão privilegiada de onde quer que se sente. Mas tem os fundos para o próprio parque. E esse fundo fica normalmente fechado por uma parede móvel.

O show de Marina Lima não foi baseado em nenhum disco. Ela não está lançando nada novo. O que me parece é que queriam inaugurar o teatro e aprovaram o projeto da produtora dela. Escolha perfeita. Não é um show de música, é um espetáculo multimídia com projeções de vídeo, performance, laser, música e teatro. Marina entra com uma versão de Le Tigre. Em seguida canta músicas inéditas, tudo com luzes profundas, slides, modelos performáticas e um tom pesadíssimo. Coisa ultra gótica. Aliás, Marina sempre teve disso. Quem duvida, deveria escutar a versão que ela faz de "Nervos de Aço", de Lupicino Rodrigues. Acaba com a melodia da música e transforma numa poesia maldita. Termina desmaiando e sendo carregada do palco. E o show tem muito mais.

Marina está com mais voz. Ainda sofre para cantar, o que eu considero positivo, mas com certeza melhorou desde o acústico. Não tem mais medo. Em determinado momento, ela canta algo como "por que não existe sauna gay para mulheres?" e se abre uma cortina com manequins vivas simulando uma sauna. Ela também faz uma versão de Laurie Anderson em que diz, "Eu estava na Loca, é, a Loca, aquele inferninho", haha. Porra, a mulher faz Le Tigre, Laurie Anderson, A Loca, o que falta para ser rainha do underground brasileiro?

Tem aqueles momentos previsíveis de "Ainda é Cedo", "Acontecimentos" e outros hits inevitáveis, mas tudo entra no momento certo e só serve para evitar que o espetáculo seja um excesso de melancolia e tragédia, que eu considero lindo.

O final, afe, vocês não fazem idéia. É uma coisa que certamente só será feita aqui em São Paulo, aqui, neste teatro, e aqui, neste show. Ela canta "Para um Amor no Recife". Os versos: "eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você." Tudo muito bonitinho e compreensível, então o fundo do teatro se abre e você percebe finalmente que o palco também dá para um gramado imenso na noite do Ibirapuera, e que lá no fundo estão mesinhas montadas com as modelos vestidas de branco, e Marina vai embora andando pelo gramado, no meio da garoa, em direção às mesas, ainda cantando "que eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você." A impressão é que estamos vendo Marina morrendo, passando para o outro lado, enquanto continuamos cobertos, seguro da garoa, dentro do luxuoso teatro.

Para mim, essa imagem vai ficar para sempre.

E o melhor de tudo é que um show desses foi apenas 15 reais. Não entendo. Certamente deve ter sido pago pelos patrocinadores, para inauguração do teatro, porque tem uma estrutura absurda de luz e som. Quem estiver em São Paulo, tem mais este domingo (30) e sexta, sábado e domingo da semana que vem. Depois nunca mais. Em lugar algum. Porque com esse lance dos fundos do palco se abrirem é só mesmo aqui e agora.

E para quem não é de São Paulo, digo que é o momento ideal para vir. Cheio de atividades culturais. Estamos também no meio da Mostra de Cinema. Eu sempre consigo pescar umas pérolas, que depois carrego pelo resto da minha vida e que parece que ninguém mais assistiu. Mas a deste ano eu ainda não encontrei. Fui ver um filme interessante ontem. "Dumplings" (chinês), sobre uma mulher que faz bolinhos com fetos humanos para conservar a juventude. Coisa bem nojenta, com direito a babas e fluídos, bebezinhos mastigados e molho pardo, o que garante um certo interesse. No final da sessão, encontrei a (senhora Gianechinni) Marília Gabriela, e não resisti. "Fale a verdade, Marília, você anda comendo uns fetos." Ela apenas riu.

Enfim, já que pergurtaram, meu debate com Elisa Nazarian (a detentora do gene que deu origem à maldição) foi uma delícia. Lugar pequeno, público acolhedor. Ficamos lá quase duas horas, lendo contos, conversando com o público e lançando promoções instantâneas. Foi muito além do que a total desorganização (ou falta de) do Corredor Literário Prometia. Para vocês verem que não sou fresco (bem, há controvérsias) nem elitista, não havia mediador para nosso debate, nem microfone, nem mesmo luz! Eu precisei de uma certa insistência para conseguir que ligassem luzes sobre nossas cabeças para que ao menos conseguíssemos ler nossos contos. E eu mesmo fui o "mediador" do debate (eu esperava que os fundos se abrissem e eu saisse caminhando pela Paulista recitando "não quero mesmo viver para sempre, apenas experimentar mais uma forma de morrer"). É, baby, isso é ser escritor no Brasil.

Enfim, foi uma semana boa. Culturalmente ótima. E eu voltarei depressa, tão logo essa noite acabe, tão logo esse tempo passe, para beijar você.


PARA UM AMOR NO RECIFE (Paulinho da Viola)
A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que eu voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo esse tempo passe
Para beijar você

26/10/2005

CANÇÕES DE CACHORROS E GRITOS DE MENINOS

Quinta agora, dia 27, às 18h, no Espaço Cultural da Caixa, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, eu e minha mãe, Elisa Nazarian, estaremos lendo uns continhos, e conversando, e respondendo perguntas, se tiver público. É um debate que faz parte do "Corredor Literário", evento que traz uma série de discussões pela Avenida Paulista. Vocês podem ver a programação completa aqui:

www.corredorliterario.com.br

Sei que o horário não é dos melhores, que tem mostra de cinema e que essas coisas costumam ser chatas às pampas, mas quem quiser me encontrar, e conhecer minha mãe, apareça por lá.

Elisa Nazarian, mamãezinha, lançou "Resposta", seu livro de estréia, este ano. Está conquistando uma legião de fãs, como boa Nazarian, e teve uma ótima crítica no Estadão, algumas semanas atrás. Então venham conferir.

E domingo teve Strokes. Delícia de show. Encontrei muita gente amiga. Tava um climinha agradável (tanto de energia quanto de temperatura), só o som é que tava muuuuuuuuuuuito baixo.

Puta merda, como fazem um evento chamado Tim Festival, patrocinado por uma operadora de celular, e colocam o som tão baixo? Tem de ser muito jeca mesmo.

Apesar disso, o que consegui ouvir do Arcade Fire foi legal. Totalmente The Cure, não? Vou tentar baixar algumas coisas. Kings of Leon é um nada. Os Strokes foram sensacionais, mesmo com o Julian gripado e sem voz, acho que isso só deixou as coisas mais emocionantes. Emocionante também toca aquela petizada cantando junto e gritando "IS-TROUQUES, IS-TROUQUES".

Falando em petizada, bom ver que o rock está com força total nessas novas gerações, principalmente o rock que costumava se chamar de "alternativo". Agora se vê um monte de rapazinhos de cabelo bagunçado, gravatinhas, olhos pintados, na minha época (ui!) isso era boiolice (mas eu me montava mesmo assim, claro). E hoje até os boiolinhas também estão na onda. Quero dizer, os mariquinhas agora não escutam mais Cher, Whitney Houston e outras tosquices, eles são fãs de Placebo. As divas estão virando som de tia, essas tias bombadas que vão na The Week. (Ah, não, não me diga que estou chegando lá...)

Por esses dias eu descobri o Cachorro Grande. Já tinha ouvido algumas coisas deles, mas nunca dei muita trela. Agora conheci mais. É bem interessante. Totalmente gaúcho. Lembra coisas como Júpiter Maçã, Graforréia Xilarmônica, mas com uma pegada mais pop (e letras piores, diria). De qualquer forma, beeeeeeem melhor do que Pitty, sinal de que o rock nacional tem salvação.

Aliás, os caras do Cachorro estavam lá na pista do show dos Strokes, cheio de groupies envolta. Rock é isso.

Então tá. Sei lá.

22/10/2005

NA HORA DE SEGUIR OS PASSOS, ESCOLHO MUITO BEM OS SAPATOS

Acabei de voltar do Rio. Vivo.

Só isso já teria feito esta viagem ser melhor do que a última que fiz para lá (Bienal), da qual voltei em trapos. Mas dessa vez teve várias, várias coisas legais e importantes.

Eu era o menos experiente (e mais novo) dos oitos escritores participantes do seminário, e isso foi ótimo. É como aquele velho clichê, que o melhor para um músico é tocar com quem sabe mais do que ele, só assim se aprende. Com certeza pude aprender horrores com Alberto Fuguet, Joca Terron e Efraim Medina (os três com quem tive mais proximidade).

Alberto Fuguet é uma figura interessantíssima. Escritor (chileno), diretor de filmes e popstar das idéias, já chegou até a ser capa da revista Time. Ainda assim, mostrou-se um cara totalmente acessível e interessado, que já posso considerar como amigo (bem, depois que tive de acordar hoje às 10h da manhã, com uma baita ressaca, para ir à praia com ele...). Também é fã da Finlândia, do cineasta Tsai Ming-Liang e se interessa muito por cutting. Participamos da mesma mesa no CCBB, que foi ok, mas um pouco estranha. Não havia exatamente perguntas, apenas discursos teóricos sobre a produção literária latino-americana e eu nunca sabia se estava exatamente falando sobre o tema (já que não havia perguntas...). De qualquer forma, sempre acho esses debates estranhos, então o problema deve ser comigo...

Efraim Medina Reyes é outro escritor latino-americano que ascendeu para a condição de popstar internacional, figuraça, parece estar aproveitando intensamente tudo isso. Tá muito certo. Uma hora estávamos conversando e reparei nos sapatinhos "dândi" dele. Comentei algo como "nice shoes" e ele respondeu simplesmente: "Valentino". Haha.

Conversei muito também com Joca Terron, um cara severo, sério, impiedoso, com certeza um dos escritores brasileiros mais respeitados da safra que surgiu dos anos 90 para cá. Eu só me policio para não ser contaminado pelo pessimismo (ou realismo?) dele com a literatura brasileira, senão nem vou conseguir continuar... Ah, sim, quero calçar sapatinhos Valentino...

Mas o Rio não foi só isso, claro. Também tive o prazer de encontrar pessoas com quem já tinha falado bastante virtualmente, como o querido Saint-Clair e a Victoria Saramago, beber com gente finíssima como a Beá, Bressane e a Chris, além de sair para baladas furiosas com Ana Paula Maia, Felipe Scholl e Daniel Barros. Delícia. E, obviamente, tive meus momentos Aschenbach, vendo todos os tadzios turbinados de Ipanema. Sofrimento.

Agora é voltar para o cinza da minha vida.

Minha última palavra sobre o referendo:

Até agora eu não vi NENHUM argumento realmente inteligente a favor do "Sim"... Nem a favor do "Não". Mas eu próprio, pensando sobre o assunto, achei melhores argumentos para o "Não", embora sejam apenas teses e eu não tenha certeza de que são verdadeiras. Por exemplo, argumento do SIM de que 95% das mortes causadas por armas de fogo no Brasil acontecem com armas que foram compradas legalmente nas lojas é um TREMENDO SOFISMA. As estatísticas podem até ser reais, mas não tem NADA A VER com o referendo. Ora, 95% das mortes são causadas por armas compradas legalmente porque elas PODEM ser compradas legalmente. Se forem proibidas, 100% das mortes causadas por armas de fogo acontecerão através de compras ilegais. Então, o que é melhor, ser assassinado por uma arma que paga impostos ou por uma arma vinda do tráfico?

Agora, o PIOR argumento é de pessoas que dizem: "Ah, se o Fleury faz campanha para o Não eu vou votar no Sim." E muita gente diz isso. Fleury pode ter razões indignas para defender o Não, mas você pode ter bons motivos. O mesmo ocorre com o pessoal do Sim. Veja só o final da escravidão no Brasil, por exemplo, você acha que aconteceu por bons motivos humanitários?

Ao meu ver, são questões como essas que deveriam ser debatidas. Ou melhor, questões como essas NÃO DEVERIAM SER DEBATIDAS pelo cidadão, porque o cidadão não tem capacidade real de fazer uma escolha dessas.

Eu não tenho capacidade de fazer uma escolha dessas. Acredito que a proibição vá aumentar o tráfico, mas não tenho certeza, não sou especialista no assunto, não tem como eu saber. As campanhas não esclarecem nada e, como já disse, nenhum argumento que me passaram, de ambos os lados, eu achei realmente convincente.

Com tudo isso, provavelmente, vou anular meu voto. E reforçar meu protesto contra o referendo. É imbecil fazer uma pergunta dessas à população. Nós (teoricamente) elegemos políticos (teoricamente) capacitados para resolver questões complexas como essa. Por que a população nunca foi consultada sobre assuntos menos capciosos, como reeleição presidencial, por exemplo?

O que importa é que amanhã, dia 23 de outubro, os Strokes tocarão em São Paulo...

19/10/2005

PÓ DE VIDRO E VENENO DE COBRA

Descobri que uma maldição está se alastrando por meu prédio todo, como vazamento. Meu banheiro começou com umas manchas "Dark Water" e agora os pedreiros vieram marretar aqui também. O visual até que está interessante, todos os canos expostos. Parece que estou vivendo no set de um filme do Freddy Krueger, mas logo eles passam o reboco e eu volto à minha realidade Walter Salles...

Estou indo pro Rio. Já saíram várias notinhas, matérias e fotos pela imprensa de lá. Recebi uma que falava do evento, dava o nome dos escritores e dizia que eu era "o único escritor brasileiro participante". Ahaha. Puta merda, vai ser jornalista barbeiro assim no inferno! Eles não sabem de onde vem o Ruffato, o Joca, Sergio Sant'Anna?

Aliás, eu tava com a programação completamente errada. Mudou tudo e ninguém me avisou. Só fiquei sabendo hoje, pela imprensa.

O Globo pegou alguns depoimentos dos participantes (meu inclusive) e fez uma matéria mais analítica sobre o encontro. Dá pra ler aqui:

http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/

segundocaderno/188823863.asp

Recebi também uma resenha bem interessante sobre "Feriado de Mim Mesmo" no jornal "O Popular" de Goiânia. Achei interessante porque, em resumo, o resenhista Rogério Borges diz que eu sou um bosta, mas escrevo bem. Haha. Quero dizer, ele elogia bastante o livro, mas de uma forma bem venenosa. Diz algo como "veja só, que surpresa, ele escreve bem", além de colocar umas inverdades. Diz que "num debate em São Paulo" eu havia afirmado que não li Clarice Lispector nem Guimarães Rosa e que "descartava deselegantemente esses autores". Hum, será que ele dormiu durante o debate? Pois se eu mesmo LI DURANTE O DEBATE um conto da Clarice, e disse que gostava bastante dela, mas que não era uma das minhas influências de base. Do Rosa eu realmente li muito pouco, por enquanto só alguns contos, mas li. De qualquer forma, lendo a resenha com soro antiofídico, é bem escrita e ele faz uma análise legal do livro, isso é o que importa.

Bem, tchau, fui pro Rio. A programação (corrigida e atualizada) está no post abaixo. Vejo os cariocas lá.

15/10/2005

LATINO AMÉRICA ALÉM DE IVETE SANGALO

Antes que eu me esqueça, na próxima quinta, dia 20, eu vou estar no Rio de Janeiro, num debate com Alberto Fuguet, escritor chileno autor de, entre outros, "Baixo Astral", que eu acabei de ler.

Vai ser um evento legal, com uma série de debates, de terça a sexta, sempre com um escritor brasileiro e outro latino-americano. Vai aí a programação completa (que atualizei, estava completamente errada):

Dia 18: A Literatura Latino Americana entra no Século XXI - Com César Aira (romancista, dramaturgo e ensaísta argentino), Sergio Sant'Anna (romancista e contista) e mediação de Raul Antelo (professor de literatura da Universidade de Santa Catarina, escritor e coordenador de Obra completa de Oliverio Girondo para a coleção Archivos).

Dia 19: Literatura Latino Americana e Política - Com Reinaldo Montero (romancista cubano), Luiz Rufato (escritor e jornalista) e mediação de Beatriz Resende (professora, crítica literária e autora de Apontamentos de crítica cultural).

Dia 20: O Que Mudou na Literatura Latino Americana de Macondo a Mcondo? - Com Alberto Fuguet (escritor chileno); Santiago Nazarian (romancista e contista) e mediação de Paloma Vidal (contista, escritora e editora da revista Grumo).

Dia 21: Afinal, Onde Está a Literatura Latino Americana? - Com Efraim Medina Reyes (um dos mais celebrados jovens autores latino-americanos, romancista colombiano), Joca Terron (romancista, contista e designer gráfico) e mediação de Paulo Roberto Pires (escritor, editor e jornalista).

Todos os debates acontecem no Centro Cultural Banco do Brasil/Rio, às 18:30.

Tem muita gente que me escreve do Rio, que pode fazer uma forcinha para aparecer lá. Eu vou ficar pouco na cidade e essa é a oportunidade da gente se encontrar...

E na semana seguinte, dia 27, terei um debate aqui em São Paulo com minha mãe, Elisa Nazarian. Será a primeira vez que ela se apresentará em público, já que é meio tímida, para falar sobre seu livro "Resposta", que foi lançado este ano.

Aliás, saiu neste sábado uma matéria sobre o livro dela no Estadão, assinada pelo Ubiratan Brasil. "Um texto belo e movediço, um livro singular, um jogo de contrastes entre um homem e uma mulher", colocou ele na resenha.

Há também uma foto da minha mãe comigo (by Luciancencov) e o Ubiratan faz uma referência a mim: "Elisa foi
apoiada pelo filho, o também escritor Santiago Nazarian, autor de alguns dos mais instigantes romances da recente literatura Brasileira". A orelha de "Resposta" é assinada por mim. Pois é, coisa de berço, baby.

Para terminar, saiu no site Verbo 21, uma entrevista que o Ésio Macedo Ribeiro fez comigo. É uma das melhores entrevistas que já dei, com certeza a mais densa. Vai um trecho:

As viagens começaram a ter outro significado para mim no início da vida adulta. Eu me apaixonei e fui rejeitado por um rapaz do interior de São Paulo. Comecei a viajar todos os finais de semana para a cidade dele, conheci os amigos deles, namorei uma amiga dele, tudo sem ele ou eles saberem, adotei uma identidade falsa. Aliás, o pseudônimo "Thomas Schimidt" veio dessa época, eu tinha uns 19, 20 anos... Era um sofrimento terrível, mas era gostoso. E eu comecei a fazer várias dessas "viagens passionais" para várias cidades. Eu terminava um namoro e ia passar o final de semana nos puteiros de Curitiba, bebendo, me drogando, me suicidando, era lindo (risos). Claro que era tudo falso, porque domingo de noite eu voltava para São Paulo, para a casa da minha mãe, e ia trabalhar segunda cedinho, mas era uma forma de viver a literatura que já corria em mim. E acho que assim foi brotando minha escrita. Até que decidi sair de vez da casa da minha mãe e ir viver isso permanentemente. Escolhi uma cidade para onde eu nunca tinha ido, onde não conhecia ninguém e me mudei para lá, para começar uma nova vida. Nem precisei criar nome falso ou um passado falso, quando você está em outro cenário, vivendo de fato uma nova realidade, você se torna uma outra pessoa, ou ao menos percebe o que é verdadeiro em você e o que é personagem de uma vida anterior. Você passa a se conhecer muito melhor. Fiquei dois anos em Porto Alegre, foi ótimo para mim. Lá escrevi meus dois primeiros romances. E quando já estava bem estabilizado, com uma vidinha regrada, emprego bem remunerado, resolvi viajar pela Europa, só com uma mochila nas costas, para continuar a viver. Assim foi.

Vocês podem ler inteira na parte de entrevistas da Verbo 21: www.verbo21.com.br

13/10/2005

VERGONHA, IRA E INDIGNAÇÃO!!!

Vá assistir a "Dois Filhos de Francisco", "Xuxa e os Duentes 9", até uma mostra completa do Antonioni, mas JAMAIS assista "Os Irmãos Grimm".

É um dos piores filmes que vi na minha vida inteira. Segue uma tendência hollywoodiana vergonhosa de pegar clássicos da literatura e transformar em uma versão video game de Indiana Jones. Bah! Já fizeram isso com Oscar Wilde e Julio Verne (em "A Liga Extraordinária"), com Bram Stoker, Robert Louis Stevenson e Mary Shelley (em "Van Helsing") e agora pegaram os coitadinhos alemães, que devem estar se revirando no túmulo.

"Grimm" é o pior desses filmes. O roteiro (?) parece ter sido improvisido por uma criança enquanto o filme era rodado. Não tem a menor lógica e a menor pertinência. O filme consegue ser arrastado, apesar da ação incessante. As referências aos contos de fada são todas esvaziadas e os efeitos especiais são os mais toscos truques de animação computadorizada. Um nojo.

Só perde mesmo em ruindade para as propagandas sobre o referendo na televisão. Tanto o "Sim" quanto o "Não" apelam para sofismas e joguinhos morais, sem esclarecer nada à população sobre o assunto. Vi algumas coisas absurdas, como um bando de jovens com cara de idiotas que não falava nada além de: "ninguém vai tirar meus direitos, tá ligado, mano?", achando que só pela linguagem "jovem" vai se convencer alguém. Esse tipo de coisa devia ser proibido, é uma propaganda que não esclarece nada, não tem argumentação alguma, parece seguir a mesma linha dos programas políticos.

Será que eles pensam que convencem alguém com esses argumentos idiotas? Por favor, eu poderia escrever os programas deles com argumentos muito melhores, tanto pelo sim quanto pelo não.

Essa questão de votar pelo "não" por ser um "direito conquistado" é uma imbecilidade. É a mesma coisa de querer voltar à escravidão, porque era um direito que os brancos tinham e que foi perdido.

Para mim, não é um caso de conquista nem de diminuir violência. Acabar com a possibilidade do cidadão comprar armas legalmente não vai acabar com a violência, nem mesmo com a circulação de armas entre civis. O maior argumento que se pode dar a favor do "Não" é contra o tráfico. Dizer que quem vota "Não" é a favor do armamento é uma besteira. Eu não sou a favor, não acho que as pessoas deveriam ter armas em casa, mas não acho que uma proibição agora, na situação em que o país está, adiantaria alguma coisa, só pioraria. Poderia desarmar algumas pessoas bem intencionadas, que tinham armas por proteção e não costumavam usá-las, mas vai continuar permitindo que os verdadeiros armamentistas tenham acesso às armas (pelo tráfico, por seus seguranças pessoais, por brechas da lei). É por isso que, por mais que eu seja contra o "direito" de qualquer um ter uma arma, sou mais inclinado a votar pelo "NÃO".

Para mim é ou votar isso ou não votar. Aliás, Débora Guterman, da Planeta, me colocou uma questão interessante. É possível votar nulo? Se você apertar a tecla de "confirma" sem escolher 1 ou 2 seu voto é anulado? Porque, a rigor, ao responder à pergunta "Você é a favor da proibição da venda de armas e munições?" sem escolher resposta, apenas apertando "confirma", você também está dizendo que sim. Ou não?

De qualquer forma, já estou me bem armado com facas e machados para matar os pedreiros que continuam martelando aqui no prédio...

10/10/2005

SE PROIBIREM AS ARMAS, COMO VOU MATAR O ANTONIONI?*

A gente pondera, pondera se a pena de morte traria alguma solução, se deve ser aprovada a proibição do porte de armas, como fazer para diminuir a violência... Mas quando se tem uma reforma no apartamento vizinho, com pedreiros marretando o dia inteiro, despertam-se em mim os instintos mais primitivos... E eu só gostaria de torturar lentamente esses operários até a morte...

Mudando de assunto para beleza, amor e arte, fui assistir ao filme "Eros". É a junção de três curtas dos diretores Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e do Wong Kar Wai. Não entendi direito a proposta do filme. Para mim, parecem três obras completamente distintas, sem nenhuma ligação uma com a outra, nem visualmente, nem tematicamente, nem em enfoque, nada. Ah, sim, claro, dizem que o tema comum é "o sexo", mas até aí, freudianamente falando, tudo é sexo.

Eu imagino que estavam Antonioni e Soderbergh sentados num barzinho em Cannes e um comentou para o outro:

- Puxa, acabei de fazer um curta, ficou sensacional, mas é foda, né? ninguém assiste curta, nenhum lugar passa...

- Eu também fiz um. Ficou afudê [licença gaúcha]. Tem uns 30 minutos. Quanto tempo dura o seu? De repente a gente podia juntar e transformar num longa, assim muito mais gente assiste.

- Putz, mas o meu também tem uns 30 minutos, a gente precisa arrumar mais um diretor com curta, daí dá pra transformar em longa. Epa... olha o Wong Kar Wai passando lá. Ei, china! Vem cá que a gente tem uma idéia. Não tem um curta aí para juntar com nóis e fazer um longa?

- Hihihi, não tem nada, né? Mas acabo de rodar filme bonito, né? Posso aploveitar locação/fotoglafia/cenálio pla rodar culta bonito, né?

- Mas, brows, pensam aí. Precisa ter um tema único para os três filmes, algo que justifique serem passados juntos.

- Hum, "existencialismo"? Existencialismo é um bom tema.

- Ou amor... sexo, sei lá?

- Pode ser, pra mim pode ser qualquer um desses, e pra você, china?

- Só se puder sexo com roupa, pulseila, bolsa, anel, né?

Haha. Vai dizer que não foi assim que fizeram o filme? Muito bem. Não importa. O que importa é o resultado. E foi uma ótima estratégia porque seria difícil mesmo ver curtas isolados desses diretores.

A primeira história, do Antonioni, é uma merda. Deu vontade de dar um tiro nele. Preciso do meu direito de ter armas para momentos assim. É um filme tosco, dublado, com umas mulheres a la fantástico (ou pior "Selvagens Inocentes") dançando na praia, um terror. No começo eu até achei que era gozação, que era um filme dentro de um filme sei lá. Mas foi ruim do começo ao fim. Ainda bem que passou rápido.

Já a segunda história, do Soderbergh é genial. Tem um texto ótimo, dele próprio (alguém sabe se o cara escreve literatura? O roteiro dele é bem literário, lembra algo como Sam Shepard), de um publicitário no consultório de um psicanalista que não está realmente interessado no que ele tem a dizer. Enredo banal, mas muito bem escrito.

A última história, do Wong Kar Wai, é linda. Realmente parece que ele aproveitou toda a equipe técnica, cenários e locações do seu longa "Amor à Flor da Pele", que é belíssimo. O texto/enredo é delicado, a história de um alfaiate que faz roupas para uma prostituta de luxo e se apaixona por ela. Mas vale mesmo pelo visual.

Então, temos o terceiro filme imagético, o segundo conteudista e o primeiro porra nenhuma. Haha.

Para terminar, a Lyvia Lemos, de Goiânia, fez uma entrevista comigo e colocou no seu blog. Dá para ler aqui:

www.psicopatamoderno.blogspot.com/2005/10/entrevista-com-o-escritor-santiago.html

*– O título do post de hoje é uma homenagem ao pitelíssimo Dênis "Papa-léguas".

08/10/2005

LARGA DA MINHA PATA

"A morte sem nome is a radically unsentimental novel. Santiago Nazarian’s dense poetic language succeeds in combining merciless realism and nightmarish exaggeration."

É isso mesmo. Adorei. Frase de divulgação do meu livro aí pelo mundo. Está no material da Dra. Ray-Güde Mertin, agente que me representa internacionalmente desde o ano passado.

Nessa última quinta-feira fui assistir ao show de outra banda do Ceará, "Montage". É um projeto de elektropunk com guitarra, programações e o vocal de Daniel Peixoto. Coisa fortíssima. Lembra bastante bandas elektrogothic como Alien Sex Fiend e Skinny Puppy, tanto o som quanto a performance, mas com uma brasilidade que deixa tudo mais interessante. Começaram com aquela "Money, Success, Fame, Glamour" do filme Party Monster, que ficou bem feitinha, pesadinha, mas previsível. O melhor começou com a segunda, "Raio de Fogo", deles próprios, que, como definiu o vocalista, é uma "macumba eletrônica", falando de Pomba Gira, encruzilhada, noite de lua cheia e coisas do demo.

E coisa do demo é o piá Daniel. Avassalador. Começa o show todo montadinho e termina só de cueca se esfregando nas caixas de som. Seu vocal é gritado, não melódico, funcionando como um MC que incita a galera à orgia ou à destruição. Lá pelas tantas eles metem um elektrofunk: "ela pula, ela gira, ela dá cambalhota. São as ginasta carioca" é a letra. E ele pede para o público gritar: "Vai Daiane! Vai Danielle!" Haha, é para levar na esportiva, em todos os sentidos.

Dá para baixar várias faixas deles no site da Trama: http://www.tramavirtual.com.br/montage, mas eu acho que é o tipo de coisa que tem de se ver ao vivo, como performance, afinal, elektro é isso, DJS performáticos. De qualquer forma, eles tem um bom trabalho de bases pesadas e guitarras distorcidas.

Falando em guitarras distorcidas, achei um link para o meu conto "O Vendedor de Mancebos", que saiu na Revista E deste mês. Quem quiser ler, toma aí:

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=227&Artigo_ID=3544&IDCategoria=3868&reftype=2

E depois eu conto sobre a gangue que enfrentei sozinho, com uma caixa de Todynho.

06/10/2005

COMO MARRETAR BATRÁQUIOS

Esta noite, terminei de ler John Fante e peguei novamente "A Crônica da Casa Assassinada", do Lúcio Cardoso, numa edição para lá de caprichada. Numa entrevista em que o Ésio Macedo Ribeiro fez recentemente comigo (em breve coloco o link aqui), conversamos sobre esse livro e me deu vontade de lê-lo novamente. Isso tem se tornado cada vez mais difícil, quero dizer, reler livros queridos, porque tenho tantos outros inéditos me esperando...

Estou longe de ter lido de tudo. Nunca li alguns autores ditos "obrigatórios", nem tudo daqueles que são fundamentais para mim. E cada vez mais tenho de ler contemporâneos, amigos, colegas, leitores que mandam originais. É um prazer e um privilégio, quando não se torna uma obrigação. Quando começa a me impedir de ler outras coisas, se torna assustador. É como eu digo, às vezes me sinto em frente aqueles brinquedos de parque de diversão, em que você tem de dar marretadas em cada sapo que aparece, e cada vez eles vêm em maior número e mais velozes.

Mas pior acho esses escritores "estabelecidos" que dizem "não ler originais", ou pior, "não ler contemporâneos". Para mim, eles estão pedindo para não serem lidos. Há pouquíssimo tempo eu era autor estreante, ainda posso me considerar autor iniciante, a repercussão que tive devo em grande parte a gente com pilhas enormes de livros que se dispos a me dar uma chance. O mínimo que posso fazer é dar uma força para quem vem atrás na fila.

Só que por pensar assim mesmo que eu me angustio. Geralmente recebo os livros e aviso que vou demorar para ler, para dar conta de tudo, poder manter também minhas próprias escolhas, mas fico vendo aqueles livrinhos ali, de gente tão ansiosa para ser lida, e acabo achando que Guimarães Rosa não precisa mesmo de mim...

E ainda tem as traduções, que acabam sendo uma leitura hiperaprofundada, que exigem muito de mim mas me dão um enorme prazer.

Eu gosto muito da prosa contemporânea norte-americana. Não vou chegar ao ponto de alguns, que dizem que eles escrevem melhor do que nós. Eu não concordo. Acho que os escritores contemporâneos brasileiros tem uma preocupação intensa com a forma. De maneira geral, trabalham as palavras e a poesia na prosa com mais afinco do que os americanos por exemplo, mas muitas vezes menosprezam a história. É aquela velha frase de que "toda história já foi contada", de que eu discordo com fúria. Talvez, pelos americanos terem uma "indústria cultural" mais estabelecida, principalmente no cinema, os escritores se preocupem mais em contar histórias, que possam ser posteriormente filmadas, sem preconceitos (aqui geralmente se diz de forma pejorativa que um livro foi feito "para o cinema", talvez seja pelo tipo de cinema que se faça com os livros brasileiros...).

Minha mãe também lê muita prosa americana contemporânea, voltava todo ano de Nova Iorque carregada de livros, e respingava alguns em mim. Quando comecei a seguir meu próprio caminho literário, resenhei alguns na Amazon (deus queira que as resenhas não estejam mais lá), até que um professor norte-americano – provavelmente vendo que eu não entendia nada do assunto, haaha – começou a me enviar livros de presente.

Dele eu recebi Tom Spanbauer, Eric Swanson, Peter Cameron, Jim Crace.

E fico feliz de estar seguindo com isso, traduzindo alguns autores que considero importantes (outros nem tanto) para o português. Minhas últimas resenhas na Folha também foram de autores estrangeiros (ingleses), com livros muito bons ("Terroristas do Milênio", do Ballard e "Michelângelo, o Tatuador", da Sarah Hall).

Atualmente, estou traduzindo um romance do cineasta Gus Van Sant (ficção, com ilustrações inclusive) e um romance escrito pelo Marlon Brando e o Donald Cammell.

05/10/2005

TIRE A MÃO DA MINHA PISTOLA

Vocês devem ter visto que a capa da Veja desta semana é uma defesa ao "Não" no referendo sobre a proibição de comercialização das armas de fogo no Brasil.

Simplesmente não entendo como a Veja pode tornar publica uma posição dessas. Claro que não acredito que exista jornalismo "imparcial". O jornalismo é feito por pessoas, e pessoas têm suas posições. Por isso matérias são assinadas. E por isso também acho um absurdo a Veja estampar em sua capa uma posição unilateral. Ao assumi-la, é como se uma revista tivesse uma posição pessoal. Ora, quem tem opiniões pessoais são pessoas. A Veja parece desprezar as opiniões pessoais de seus jornalistas, impingindo a eles uma posição institucional. Não sou ingênuo em achar também que nenhum jornal ou revista nunca toma determinado partido ou não deixa implícitas as convicções de seus editores, mas nunca vi assumirem assim, de forma descaradas, por mais que a causa seja boa. Ao meu ver, é como se tivesse se pronunciado antes de uma eleição colocando na capa NÃO VOTE NO MALUF PORQUE ELE É LADRÃO.

De qualquer forma, eu concordo com vários pontos da matéria. Só acho que algumas questões não foram devidamente colocadas, e outras sem tanta relevância foram ressaltadas.

Eu, que tenho opinião pessoal, coloco minha posição:

Em primeiro lugar, a pergunta do referendo é terrivelmente mal formulada, não tanto por conter "palavras de forte impacto emocional", como coloca a Veja, mas simplesmente por exigir dos cidadãos que afirmem ou neguem uma negativa. Você é contra a proibição da venda? Quer dizer que você é a favor da venda então? E você é a favor da proibição? Então você é contra a venda? Qualquer um que teve uma juventude psicodélica, como eu tive, tem espasmos tentando desvendar esse enigma.

Além do mais, a pergunta reforça o lado moral da questão, que não é o caso. Parece que quem é contra a proibição é a favor das armas, quer comprar a sua, coisa que não é verdade. As pessoas associam arma a um valor negativo, ao darem "sim" para a comercialização delas (o "não" do referendo), consideram que estão ferindo sua moral.

Saindo da pergunta e analisando as possíveis conseqüências do referendo, a coisa piora. A proibição da comercialização de armas só pode aumentar o tráfico e o contrabando. E não estou falando apenas entre os bandidos. Você acha que o empresário ricaço, cheio de seguranças, não vai conseguir com eles uma arma para sua proteção pessoal? Você acha que o filhinho playboy dele, que dá tiros no trânsito, não vai ter acesso à armas? Claro que isso pode diminuir um pouco, mas não tanto quanto aumentará o tráfico. Aliás, muitos que defendem a legalização da maconha usam exatamente esse argumento, que com a legalização acabaria a violência do tráfico (coisa que não é exatamente verdade, veja só o tráfico de armas que já existe e o contrabando e pirataria de outros produtos legalizados como cds).

A Veja coloca outra justificativa que eu também colocava de maneira irônica. "Como os habitantes das regiões rurais vão se defender dos animais selvagens?" Hahah. Pior que a Veja diz isso a sério. Pense bem, QUE ANIMAL SELVAGEM EXISTENTE NO BRASIL DEVE SER MORTO POR ARMA DE FOGO? Será um elefante? Rinoceronte? Um leão?! As pessoas precisam mesmo de armas de fogo para espantar cobras e jacarés (não vê aquele que comeu minha mão?). Ah, claro, tem as onças... as dez que ainda existem na natureza...

(aliás, fiquei sabendo de uma medida – não sei se é verdade – de um grupo de preservação que oferece 300 reais a todo fazendeiro que tiver seu rebanho atacado por onça, evitando assim que ele mate a bichana para proteger seu investimento. Maravilha. Mas será que agora os fazendeiros vão começar a morder os bezerros mais capengas para faturar uns trocados?)

Existem também a questão de proteção rural, pela distância das delegacias no campo, os ataques de grupos sem terra, etc, etc. Isso eu não sei e não posso opinar.

E essa é a conclusão que eu chego. Eu, que procuro me informar sobre o assunto, que reflito sobre prós e
contras da proibição, tenho uma grande dificuldade em fechar minha posição. Eu, por exemplo, não conheço muitos argumentos para ser a favor da proibição. Se alguém tiver, por favor, me diga. O povo não está preparado para decidir uma questão dessas. Eu não estou preparado para decidir uma questão dessas. Essa não é uma questão que deveria ser decidida pelo povo. Como a Veja também colocou, fazendo o povo decidir essa questão, coloca-se nele a responsabilidade dos problemas conseqüentes do resultado do referendo. Mesmo que o resultado seja "não à proibição", as conseqüências não são neutras, não se continua na mesma, pois a responsabilidade já foi transferida. Esse referendo não deveria acontecer.

Por enquanto, acredito que, melhor do que votar contra a proibição, seja não votar. Mas se todo mundo fizer isso, vai ter uma fila enorme para justificar... Ahhh...

01/10/2005

ESCRITORES DE RESPEITO SE DESPEM POR MANCEBOS

"Ele lia os livros de cabo a rabo, depois estudava as orelhas. Enfiava o dedo nelas e tentar tirar a cera cotidiana de cada escritor. Como eles faziam para ganhar a vida? O que eles tiravam de cada dia para comer? Só explicavam o que já haviam publicado, os prêmios que ganharam, mas eram jornalistas, médicos, advogados? Ninguém é só escritor."

Trecho de "O Vendedor de Mancebos", conto meu que saiu na edição de outubro da "Revista E", do Sesc. É a história de um velho cronista decadente, que quer pendurar seu terno de respeito nos braços de um jovem mancebo... ou algo assim. Haha. Quem é de São Paulo pode pegar a revista gratuitamente nos diversos Sescs. Eu ganhei a minha da Maria Eugênia, da livraria Lima Barreto.

A revista também tem uma entrevista interessante com o Milton Hatoum. Eu sempre fico com medo quando leio o que esses "autores de respeito" têm a dizer, porque vira e mexe eles soltam algo de que eu discordo veementemente: fórmulas para ser bom escritor, que o escritor de verdade não faz isso ou não faz aquilo. E as pessoas que lêem concordam, porque acham que esses escritores de respeito sabem de tudo, mas muitas vezes eles não sabem de nada, nem precisam saber, porque para ser um escritor de respeito basta saber escrever. Quem pode dizer que o grande gênio literário não joga lixo na rua, não votou no Maluf, não espanca a mulher em casa? Ser um grande escritor não significa ser um grande ser humano, nem um grande entrevistado, nem um grande professor.

Mas do Milton Hatoum eu não discordo. E acho que ele sabe das coisas. E trata bem da esposa, porque eu a conheço. Hehe. Só não sei em quem vota.

Outro "escritor de respeito" de quem sempre adoro as entrevistas é o João Ubaldo Ribeiro. Mas eu nunca tinha lido livro algum dele. Da última vez que fui para a casa da minha mãe, consegui roubar dois livros. E li "O Livro de Histórias", para começar. Meu Deus, ele é insano. Você pega esses escritorezinhos moderninhos, cheios de tatuagens e biografias bizarras (ops...) e pensa que eles são muito loucos. Mas é preciso ler um "escritor de respeito" como ele, pai de família, de certa idade, visual recatado, que se entende o que é loucura realmente em literatura. Hehe. É como essas bandas de metal que querem ser muito transgressoras, mas quando você escuta Maurice Ravel descobre quem quebra realmente...

Eu espero que um dia minha insanidade chegue lá, porque minhas tatuagens já são mesmo para sempre...

Bem, hoje estou cheio de assuntos....

Também recebi o livro "4X Brasil", organizado pelos professores Fernando Schüler e Gunter Axt e publicado pela Artes e Ofícios (de Porto Alegre). O livro traz uma série de ensaios sobre a cultura no Brasil nas últimas décadas. Fala sobre a produção musical, cinematográfica, o efeito da censura na cultura dos anos 70. Entre os articulistas do livro estão Fernando Gabeira, Nelson Motta, Luís Augusto Fischer, entre outros. Eu sou o único a participar do livro com um conto, um conto sobre a literatura neste começo de século. Chama-se "Como Desovar Cogumelos", e já falei dele aqui.

Não sei se é fácil encontrar o livro pra comprar fora do Rio Grande do Sul. Mas acho que dá para encomendar pelo site da Artes e Ofícios.

O livro tem também um ensaio interessante de Zilda Gricoli Iokoi sobre as letras de músicas da MPB como reflexo da história do país. Entre outros, ela coloca um trecho de "Tô Voltando", do Chico Buarque:

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto/ Eu tô voltando / Põe meia dúzia de brahma prá gelar, muda a roupa de cama/ Eu tô voltando/ Leva o chinelo prá sala de jantar/ Que é lá mesmo que a mala eu vou largar / Quero te abraçar, pode se perfumar porque eu tô voltando / Dá uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor/ Que eu tô voltando...

Daí notei pela primeira vez a incrível semelhança dessa letra com "Mathilde’, do Jacques Brel, escrita em 1964 e gravada em inglês pelo Scott Walker em 67. Vai um trecho:

Momma, do you see what I see / On your knees and pray for me / Mathilde's come back to me / Charley, don't want another beer/ Tonight I'm gonna drink my tears / Mathilde's come back to me/ Go ask the maid if she heard what I said / Tell her to change the sheets on the bed/ Mathilde's come back to me/ Fellas, don't leave me tonight/ Tonight I'm going back to fight/ Wretched Mathilde's in sight

A versão original em francês também é parecida, menciona o retorno, a troca de lençóis, mas em vez de brahma/cerveja, coloca vinho, porque os belgas são mais chiques:

Ma mère voici le temps venu/ D'aller prier pour mon salut/ Mathilde est revenue/ Bougnat tu peux garder ton vin/ Ce soir je boirai mon chagrin/ Mathilde est revenue/ Toi la servante toi la Maria/ Vaudrait peut-être mieux changer nos draps/ Mathilde est revenue/ Mes amis ne me laissez pas/ Ce soir je repars au combat/ Maudite Mathilde puisque te voilà

Que mais, que mais...

Ah, li outro livro bem interessante, um romance inédito de uma mocinha chamada Victoria Saramago Pádua. Não sei se ela tem algum parentesco com "o homem", mas tem futuro. Ela escreve sobre aquela gurizada de praia, meninas que aproveitam o feriado para acampar e sonham em vender bijuterias numa ilha qualquer. Conheci tantas, tantas meninas assim. Mas nunca tinha lido um livro sobre e para elas. Acho que esse romance, o "Ilha Grande", da Victória, pode atingir um público bem interessante. Eu daria de presente para minha prima, com certeza. Eu, que nunca fui garoto de praia, ao ler o livro fiquei com uma certa inveja desse prazer, dessas meninas vivendo "amores de verão", da gurizada se pegando na areia, ahaha. Bem, bem... eu já tive as minhas experiências em Floripa também... ahhh...

"Ilha Grande" da Victoria Saramago Pádua ainda é inédito. Mas ela já começou a mandar para as editoras.

Falando em meninas escritoras, recebi ontem da talentosíssima Ana Paula Maia o livro "25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasleira", que já saiu há alguns meses pela Record, organizado pelo Ruffato. Vai ser bom para eu ler algumas que quero conferir há tempos.

Outra coisa que eu queria ler há tempos é o John Fante. Nunca tinha lido nada. Agora ganhei de presente da Soninha Francine o "Sonhos de Bunker Hill". Estou achando uma delícia, mas ainda bem no começo. Adoro essas traduções "agauchadas" da L&PM (a do Fante é da Lúcia Britto). Eles colocam coisas como "ela me alcançou uma coca-cola" (ao invés de "me deu" ou "me passou") e "trancou a respiração" (ao invés de "prendeu", "segurou"). Gosto mesmo, sem sacanagem. Até já incorporei várias dessas coisas. Um dia ainda vou traduzir "très bien" como "tri bom", haha.

E, bem, depois conto o que estou traduzindo, porque por hoje já tá bom.

GANHAMOS NOLL

(João Gilberto Noll, 1946-2017) Perdemos Noll. Acordei nesta quarta com mensagens me contando, Rodrigo Casarin do Uol me pedindo um...