17/07/2017

A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados. 

É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é levado a sério não vende. Meu querido amigo Raphael Montes tem tratado do tema há um bom tempo, e mais recentemente martelou nessa tecla em seu programa na TV Brasil, em entrevista com o editor da Record, Carlos Andreaza, e hoje em sua coluna no Globo (aqui: https://oglobo.globo.com/cultura/raphael-montes/).


Raphael é um autor comercial que vende bem, e tem um bom trânsito entre meios mais literários – seu programa talvez seja uma forma de manter esses laços -, mas levanta sempre a bandeira da literatura de entretenimento, que realmente precisa de vozes mais inteligentes e consistentes, como a dele. Entretanto, entra aí um ataque, muitas vezes velado, elegante, à literatura mais densa, propriamente literária.

“Autores que falam para meia dúzia de pessoas” ou “que escrevem apenas para outros autores” ou “chatos e herméticos” (como ele colocou na boca de editores estrangeiros em seu último texto). Esses seriam os que escrevem sem se preocupar com o leitor, mas que são destaque nos prêmios e cadernos literários. E eu me pergunto: não está cada um em seu lugar?

Poderia-deveria haver prêmios específicos para livros mais comerciais, categorias para livros de gênero, deveria afinal haver mais espaço para a literatura como um todo, mas não é de se estranhar que veículos literários divulguem as obras literárias, que veículos que falam para o meio apresentem o que há de mais sofisticado no meio, que o Prêmio São Paulo reconheça autores que talvez não sejam reconhecidos por milhares de leitores. Para os autores comerciais, há o sucesso comercial; para os adolescentes e consumidores de literatura comercial, já há uma infinidade de blogs, vlogs e canais de youtube (ou acha que esse povo vai ler a Quatro Cinco Um?)

As pulsões que levam autores a escrever são diversas. Vejo muito a molecadinha de hoje, que publica no Wattpad, que planeja sagas, preocupados com essa comunicação com o leitor – não só na escrita, como também na interação pelas redes sociais. Pode se dizer que são esses que formam o público leitor? – talvez formem um público leitor apenas para esse tipo de literatura. Mas há também aqueles que não se comunicam com seu tempo, que têm uma visão particular de mundo, que encontram na individualidade da escrita um canal para expor verdades pessoais... e discutíveis. Esses estão fazendo literatura. E talvez atinjam só meia dúzia de pessoas, talvez só se comuniquem com um meio restrito, mas estão se comunicando profundamente, e estão fazendo a diferença.

Em seu texto no Globo, Raphael sabiamente aponta Machado de Assis, como um autor que foi popular no seu tempo. Bem, temos autores literários populares hoje em dia. Mas Kafka, para citar um grande, não foi. E talvez esses autores que falem com meia dúzia de leitores hoje, que ficam satisfeitos apenas de terem conseguido imprimir sua voz, atinjam centenas de milhares no futuro, fazendo realmente a diferença. Talvez para se atingir milhares no futuro, para permanecer (a grande pulsão de tantos grandes autores), seja preciso mesmo não dar ouvidos as ondas do presente ou “ao mercado”, ou “ao público leitor”.  

Seria ingenuidade colocar que todos os literários são motivados apenas por suas pulsões internas. Se os premiados hoje não estão preocupados com o grande público, muitos estão preocupados com o meio, formatam livros para o Jabuti, para o Prêmio São Paulo. Muitos fazem isso até inconscientemente, contaminados pelos vícios acadêmicos de seus mestrados, doutorados. Essa formatação envolve alto nível de qualidade, sim, por isso tem seu valor, mas também restringe os temas, as fórmulas...

Tenho feito muitas mesas e conversado muito com poetas – autores que não só não têm expectativa de atingir um grande público, muitas vezes produzem de forma a não atingir um grande público. Há a poesia oral, que só é transmitida ao vivo no evento, há as diversas edições artesanais, cartoneras, de poucas dezenas de exemplares, que são feitos para aquela ocasião e nunca mais. São como os atores de teatro que não têm interesse em migrar para televisão.

Felizmente hoje os autores que “vendem meia dúzia de exemplares” têm encontrado formas de sobreviver da escrita – com os eventos literários, as oficinas, as traduções. Em Feiras e Bienais, leitores da literatura comercial se deparam com “aquele velhinho muito louco”, que fala coisas estranhas, que os faz pensar; podem não comprar o livro dele, ou podem comprar o livro e não gostar, mas, no palco, esses “autores de meia dúzia” ainda fazem a diferença, por isso muitas vezes circulam mais pelo Brasil do que os autores que vendem, e que têm menos a dizer. As Flips e Fests são encabeçados por autores cabeçudões porque esses têm o que dizer. 

E há ainda os acidentes... as surpresas... tantos autores que escrevem para “meia dúzia de seus pares” e que, por algum feliz acaso, acabam rompendo a barreira, conquistando algumas dezenas de milhares, sem concessões. Conquistas assim não têm mais sabor?

Onde eu me encaixo nessa? Sempre me pergunto. Sinceramente, nunca esperei ser sucesso de vendas, nem formatei livros para o Jabuti. Talvez eu esteja velho para ser tão idealista, mas ainda acredito que tenho algo diferente  a dizer, isso é o que move, fazer algo diferente. Ganhei um prêmio ou outro de valor relativo, tive apenas um livro que vendeu algumas dezenas de milhares (o do jacaré). Mais do que literato, mais do que comercial, me vejo como um autor alternativo (termo que considero mais exato do que “underground” ou “maldito”, afinal sou rapaz branco dos Jardins). Me formei em publicidade na FAAP, trabalhei até os 24 como publicitário, e se larguei a segurança financeira dessa vida, não foi para me comunicar com o povão. Quero leitores, quero prêmios, mas isso só faz sentido para mim se for nos meus termos. Meus ídolos na literatura, na música, no cinema, nunca foram do primeiro time. Para mim a literatura será sempre o trunfo do individuo, onde posso comunicar um universo particular, a quem possa interessar.



  

10/07/2017

CONTRAPEDAL

A mesa de ontem. 

Há algumas semanas me pediram indicações de escritores brasileiros com alguma relação interessante com a América Latina. Apenas de cabeça fui dizendo meia dúzia de nomes e qual era a relação; então me convidaram para mediar uma mesa no Fest Contrapedal, tradicional festival de cultura latina do Uruguai que chegou nesse fim de semana pela primeira vez a São Paulo.

Os autores eram Carola Saavedra - premiada escritora nascida no Chile -, Joca Terron – que organizou uma coleção de livros hispano-americanos -, Douglas Diegues – o grande nome da poesia em portugnol selvage -, Ronaldo Bressane – que lança um romance que passeia pela América Latina -, e o onipresente Marcelino Freire – que já trouxe tantos autores latinos para cá. Tivemos um debate na tarde do último domingo, no Centro Cultural São Paulo, dentro da programação do Contrapedal.

Lindo ver a plateia cheia e um bate-papo tão fluído, mesmo com tanta gente participando. Estou longe de ser especialista no tema, pesquisei bem sobre os autores, e uma boa mesa é construída assim, dando as deixas para que quem sabe possa discorrer. Esse é o lado fácil e gostoso de estar há quinze anos no meio, participando de mesas e acompanhando discussões. É uma pós-graduação em si. A gente aprende naturalmente. Eu, que “também escrevo”, tanto traduzo e escrevi dezenas de textos para Folha, Bravo, Estado, Suplemento Pernambuco poderia mediar mais mesas. Mas, ao menos este ano, não posso reclamar dos eventos literários – que abundam!

Com Dani Umpi. 


O Contrapedal também teve cinema, gastronomia e música. Aproveitei meu domingo no CCSP para conferir. Encontrei meu querido amigo Dani Umpi – escritor e cantor uruguaio, com quem sempre cruzo nas andanças mundo a fora -, e assistimos ao show de encerramento, do incrível (cantor paraense) Jaloo. Eu já gostava do som, mas o menino tem uma puta presença de palco; trouxe o CCSP abaixo, com uma petizada que cantava junto, dançava, tirava selfies, menino com menino, menina com menina, uma energia que depois deixava difícil acreditar que no mundo lá fora os tiozões ainda falam que “órgão excretor não reproduz”, ou mesmo que a molecada está matando travestis a pedradas...

Jaloo em casa lotada. 

Jaloo foi especialmente “refrescante” ´por um discurso que ouvi de alguns músicos e escritores no festival: da velha bandeira da latinoamerica contra o “Imperialismo” ou contra o “comercial”. Ele é um autor paraense mergulhado na música pop americana, nas divas gays, mas recicla isso com suas próprias referências, do techno brega, do urbano e do carimbó, canta (parte do repertório) em inglês (macarrônico) e com tudo isso cria uma identidade mais viva, de onde vive, do que se ficasse preso a purismos, regionalismos e tradicionalismos.


E essa foi uma ótima viagem que fiz em julho, a 40 minutos a pé de casa, cruzando a Paulista fechada.

O segundo semestre trará outras – já tem lançamento marcado em BH, RJ e SALVADOR, que nunca fui e tanto queria – e viagens pelo interior de SP e do Paraná. Vou atualizando tudo na aba “agenda.”

27/06/2017

OS MELHORES LIVROS DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS



Dia desses rolava aquelas listas de “melhores filmes de terror” no FB. Já coloquei meus 20 aqui e poderia facilmente listar 30, 50... Então joguei o desafio dos dez LIVROS de TERROR - pouca gente conseguiu listar meia dúzia,. Muitos colocaram coisas como “A Metamorfose” do Kafka, “A Crônica da Casa Assassinada” do Lúcio Cardoso, e outros títulos discutíveis no gênero, indiscutíveis na qualidade...

Entendo bem. Embora eu seja fã de terror, principalmente no cinema, concordo que na literatura é difícil encontrar obras que tratem do gênero com consistência, ou com a profundidade que um bom livro pede – por isso essa confusão, de querer forçar para dentro do gênero obras que pendem mais para o surrealismo ou o thriller. Ainda assim, puxando pela memória, percebi que poderia facilmente listar 20, talvez 30 grandes livros de terror de todos os tempos.

O título de MELHORES LIVROS DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS é certo clickbait. Não li de tudo, e obviamente é uma seleção pessoal. Talvez faltem obrigatórios como “O Bebê de Rosemary” do Ira Levin, ou “Tubarão”, mas só vi mesmo os filmes. De outros autores até que li bastante, mas não consegui gostar – então NADA de Lovecraft, Anne Rice e Dean Koontz. (Ok, do Koontz eu até gostava na adolescência, mas é trasheira, vai?). Também não coloquei esse horror mais juvenil – no qual o Brasil tem bons autores - mas coloquei bons autores brasileiros com um terror mais alternativo – e estou sempre atrás de novos/bons nomes. Tem aí vários que traduzi – mas muitos de terror que traduzi deixei de fora (não gosto de tudo o que traduzo nem traduzo tudo do que gosto). Há na lista alguns que podem não ser considerados terror no sentido clássico, mas entram pela perversidade e o efeito que provocam. Acho que o terror é mais potente quando associado à sexualidade – ou às perversões sexuais.

Mas chega de justificativas. Essa é apenas uma lista possível, em ordem mais ou menos aleatória, com pequenas sinopses ou observações:

"Die, monster!"

Drácula - Bram Stoker:
Clássico obrigatório, é dos meus favoritos pessoais – li pela primeira vez ainda na pré-adolescência. Apesar de tantas adaptações cinematográficas, para mim nenhuma supera o romance, principalmente a primeira parte no castelo. Dispensa qualquer sinopse, né?


O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde: Novela sobre as armadilhas da beleza – um rapaz que vende a alma pela juventude eterna. Daquelas histórias que faz muito mais sentido em livro, porque cada um tem sua visão de beleza idealizada, cada um deve imaginar seu próprio Dorian Gray. E o humor dândi sarcástico de Wilde é imbatível. "Beauty is a kind of genius" ou "youth is the only thing worth having". Foi a obra que me fez querer ser escritor na adolescência.



O Exorcista – William Peter Blatty:
Uma alegoria de despertar sexual, através de uma menina à beira da puberdade, que é possuída pelo demônio. Também funciona bem melhor em livro, apesar da caracterização assustadora do filme.

Frisk – Dennis Cooper: Um dos meus autores prediletos, herdeiro direto dos beats e de Sade. O universo de Cooper é habitado por garotos pré-pós-púberes drogados, estuprados e assassinados. Difícil escolher um livro dele, mas esse é das coisas mais hardcores que se pode ler: pedofilia necrófila gay. Infelizmente, nunca foi traduzido no Brasil. (Eu bem que tentei com “God Jr., que é dos melhores e mais “leves”, pelo menos em termos de violência gráfica – mas é um que não daria mesmo para ser qualificado como “terror”.)

A edição da Zahar com tradução minha saiu em abril.

Frankenstein – Mary Shelley: outro clássico obrigatório, que eu li na adolescência, e que traduzi recentemente para a coleção de clássicos da Zahar; também fiz um texto de apresentação e as notas de rodapé. Fica entre um precursor da ficção científica e o terror gótico. Obrigatório.

Os cenobitas de Barker. 

Books of Blood – Clive Barker: Esse é um autor que acerta e erra feio. Criou um universo incrível, que mistura o terror metafísico de Lovecraft (de que não gosto) com uma sexualidade sadomasoquista (que acho mais bacana). “The Hellbound Heart”, uma de suas novelas mais famosas, é vergonhosa de mal escrita, mas gerou toda a franquia Hellraiser, incluindo os quadrinhos, que são melhores do que o livro. Porém a melhor amostra de sua potência está em Books of Blood, coletânea de contos publicados originalmente em seis volumes, que hoje podem ser encontrados reunidos.

It – Stephen King: Difícil escolher uma obra de King, mas It – A Coisa é uma ótima amostra. Romanção de mais de mil páginas, fascina não só pelo terror do palhaço Pennywise, como pela nostalgia da amizade entre os sete protagonistas mirins – que remete a “Conta Comigo”, filme que também é derivado de um texto de King. (E sim, meu “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego” também bebe muito daí.)

Obras Completas – Edgar Allan Poe: Sei que colocar “obras completas” é meio roubar no jogo, mas é o volume que tenho aqui em casa, então não saberia identificar as obras separadamente. Gosto especialmente dos contos minimalistas como “O Poço e o Pêndulo” e “O Barril de Amontilado”. Porém não seria exagero dizer que a obra completa é uma aula sobre literatura noir.

A Volta do Parafuso – Henry James: Uma novela gótica de fantasmas, que também inspirou inúmeras adaptações – incluindo o filme “Os Outros” de Amenabar, que pega muito de seu clima: um casal de crianças isoladas numa propriedade rural, visitada por assombrações. Elegante, profundo, é a melhor amostra desse tipo de coisa.

Os 120 Dias de Sodoma – Marquês de Sade: Escrito na prisão, narra as torturas cometidas por quatro nobres a crianças, velhos, bebês, grávidas... É mais um manual de perversão do que um romance, com a última parte inacabada e publicada como uma espécie de “escaleta”. É tão absurdo que toma certo humor – não é a toa que o substantivo “sadismo” nasceu com o autor. Dele também li "Justine" em francês, na biblioteca da minha faculdade, que funciona melhor como história, mas se for para ler só um, certamente 120 Dias é o mais emblemático.

A edição da Leya com tradução minha (mas não é grosso assim, não, é fininho)

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça – Washington Irving: Novela passada na Nova York do século XVIII, baseada em lendas locais de assombração. O Cavaleiro sem Cabeça da história é uma espécie de Mula sem Cabeça do folclore americano. O livro rendeu não apenas o (fraco) filme de Tim Burton, mas um desenho da Disney dos anos 50, narrado por Bing Crosby, que é bem mais divertido e fiel ao livro. A bela edição ilustrada publicada no Brasil pela Leya em 2011 tem tradução minha.

Carmilla – Sheridan le Fannu: Uma das primeiras novelas de vampiro – no caso, de uma vampira – tem um lesbianismo latente e foi uma grande inspiração para o Drácula de Stoker. Na trama, uma jovem abriga em seu castelo uma desconhecida vítima de um acidente e as duas desenvolvem uma estranha relação... O texto pode ser encontrado em português em algumas antologias, como a “13 dos Melhores Contos de Vampiros”, publicada pela Ediouro.

Obras Completas – Saki: Filhote de Oscar Wilde, Saki é pseudônimo de Hector Hugh Munro, escritor dândi do final do século XIX. Sua obra não se limita ao horror, mas tem belos contos do gênero, especialmente de lobisomens, com uma (homo)sexualidade latente. Coloquei as obras completas aqui porque também é o volume que tenho e não seria capaz de isolar os contos. Ainda que esteja em domínio público, e eu sempre proponha a editoras, infelizmente tem poucos textos traduzidos ao português, presentes apenas em antologias – incluindo dois na ótima “Homens, Lobos e Lobisomens” publicada pela Marco Zero em 2003. Foi por lá que comecei a conhecer a obra dele.

O Senhor das Moscas - William Golding: Romance do britânico vencedor de prêmio nobel, "O Senhor das Moscas" é um estudo sobre a teoria do bom selvagem. Sobreviventes da queda de um avião, um grupo de pré-adolescentes isolados numa ilha tenta organizar uma democracia, que acaba revelando seu lado perverso da dominação pelo mais forte. A edição comemorativa da Nova Fronteira, de 2006, tem texto de apresentação meu.
Com o verdadeiro JT LeRoy, a querida Laura Albert.

Maldito Coração – JT LeRoy:
Outra das minhas traduções. Pretensa coletânea de memórias de um garoto de rua, que passou por todo tipo de abuso na infância, acabou se descobrindo tratar-se inteiramente de ficção, escrita por uma americana de meia-idade. Para mim não importa, o universo de sexo, drogas e androginia criado por Laura Albert (a verdadeira autora) é assustador e fascinante.

O Estranho Misterioso – Mark Twain:
Recebi recentemente de presente de um leitor querido. No romance, uma aldeia da idade média acolhe um jovem “gracioso e sedutor”, que conquista a todos, mas se revela um anjo amoral, de nome “Satã”, causando desgraça por onde passa. Um divertido conto de fadas de terror.

Tripé do Tripúdio e Outros Contos Hediondos – Glauco Mattoso: Poeta cego, vítima de glaucoma, Glauco tem um olhar afiado para perversões, podolatria e fetiches em geral. Podemos considerá-lo pai da literatura snuff brasileira ou torture porn. Difícil escolher uma obra, e eu tenho uma dúzia aqui, que orgulhosamente recebi de presente do próprio autor. Mas esse volume de contos publicado numa bela edição pela Tordesilhas é uma ótima amostra. 

Hugo tá no título, na foto e na autoria. 

O Estranho Mundo de Hugo Guimarães – Hugo Guimarães:
Herdeiro de Glauco Mattoso e de Dennis Cooper, Hugo Guimarães é um jovem narcisista que pratica uma literatura extrema, ou “snuff”, de sequestro, tortura, morte. Onde mais se poderia ver o estupro de Bento Ribeiro? Apenas num livro. “Algumas coisas só podem ser feitas por escrito”, está na orelha, que não à toa foi escrita por mim. Foi publicado pela Edith.
A bela edição da Suma de Letras, selo da Companhia. 

O Vilarejo – Raphael Montes: Ele já se consagrou como o grande nome do policial brasileiro atual, mas esse seu romance de terror – ou uma coleção de contos interligados – é, ao meu ver, o mais divertido que ele já escreveu. No começo do século XX, os habitantes de um vila anônima, isolada pela guerra, pela fome e pela neve, sofrem a influência direta de demônios – ou seria apenas a natureza humana se revelando em extremos?

Com Samanta, na casa dela em Buenos Aires. 

Distância de Resgate – Samanta Schweblin:
Essa jovem escritora argentina conquistou o mérito raro de ser sucesso mundial de crítica, fazendo alta literatura, com uma novela que flerta com o terror e com o sobrenatural. Cavalos mortos, crianças do mal e um clima permanente de incerteza permeia a história de uma mãe e sua filha pequena, de férias numa casa de campo. Foi publicado em português pela Record.
Darkside sempre arrasa na parte gráfica. 

Onde Cantam os Pássaros – Evie Wyld: Tem certo parentesco com o livro de Schweblin, pela tensão, a trama fragmentada, a feminilidade e a ambientação rural. Nesse romance de uma jovem autora anglo-australiana, a protagonista vive sozinha numa ilha com seu cão, e se depara com mortes misteriosas de suas ovelhas, que remetem a traumas de seu passado. Foi publicado por aqui pela Darkside. 

Bela estreia.

A Forma da Sombra – Fernando de Abreu Barreto: Romance de estreia de um autor carioca, foi uma bela surpresa que chegou aqui em casa, e acabei resenhando para a Folha. O protagonista é um antissocial condutor de trens de metrô no Rio, que passa os dias sem ver a luz do sol, e questiona sua humanidade. Uma história moderna e brasileira de vampiro, inteligente e bem escrita.


Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo – Iain Reid:
Uma jovem viaja com o namorado para conhecer os pais dele, que moram numa fazenda. Durante todo o percurso de carro ela pensa em “acabar com tudo”, com o relacionamento, mas há um clima permanente de tensão e incerteza no ar, que deixam o leitor em dúvida se o texto se trata de um drama existencialista ou uma história de terror, até o esquizofrênico desfecho. Publicado pela Rocco, é outro com tradução minha.

Os Cantos de Maldoror – Conde de Lautreamont: Prosa poética do romântico maldito franco-uruguaio, que a escreveu aos vinte e dois anos e morreu aos vinte e quatro. Maldoror é um ser amoral e niilisa, que conduz cenas que flertam com o fantástico e o surrealista. Difícil de se compreender, mas ainda fascinante de se ler. 

American Psycho – Bret Easton Ellis: um slasher irônico sobre a geração yuppie novaiorquina. Hoje parece um pouco datado, mas parte de seu charme está aí, se tornando um romance de época recente. E a ambiguidade da trama ao meu ver funciona melhor no livro do que no filme.

Hater – David Moody:
Ótimo romance de zumbis – ou quase isso; um surto mundial que faz com que algumas pessoas criem um ódio mortal de quem vêem pela frente; uma espécie de alegoria da histeria urbana de hoje. Primeiro de uma trilogia, funciona sozinho (ainda que com final aberto). Foi publicado no Brasil pela Saraiva, e a tradução também é minha.

Assombro – Chuck Palahniuk: Traduzi alguns do autor, mas não esse, de que gosto mais. É um romance sobre dezessete escritores que são reunidos numa casa para escrever, num estranho retiro, cada um trazendo histórias escabrosas do passado. Palahniuk consegue ser trash, imoral e insano. E, quando acerta, acerta bonito (ou acerta feio?).
Minha bela edição do "Ringu".

Ring – Koji Suzuki: o romance que deu origem a Samara! (Ou Sadako). Começa arrepiante, como o filme, mas segue para uma loucura que mistura ondas televisivas e hermafroditismo, mais próximas de uma ficção científica metafísica. Não deixa de ser uma mitologia interessante... (Que eu saiba, não tem edição em português - Fica a dica para a Darkside.)

As Perguntas – Antonio Xerxenesky: Aqui um romance ainda inédito, mas por pouco tempo. O novo título do jovem autor gaúcho é um terror assumido, com momentos arrepiantes, centrado na investigação de uma paulistana sobre uma seita satânica. Foi fruto de uma encomenda da RT Features, assim como o meu, ambos com os direitos já vendidos para o cinema, com a publicação pela Companhia das Letras. O dele sai em setembro. Já li e já adorei.

Neve Negra – Santiago Nazarian: Ai, me deixa? Só unzinho? Por último? Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um renomado artista plástico enfrenta dúvidas sobre a identidade de seu filho de sete anos. É um romance sobre as paranóias da paternidade, um raro registro ficcional da neve no Brasil e é terror – sim, dessa vez fiz um terror pra valer.

Sai daqui a um mês exatinho - já em pré-venda.

11/06/2017

QUANTO GANHA UM ESCRITOR

Com Paulo Scott na Garopa Literária

Aqui em Maresias. Na casa que Murilo alugou. Cheguei nesta noite fria de sábado e fui fazer um churrasco. Num descuido a coelha fugiu para o enorme quintal. Já aprendi que não adianta correr atrás. É ficar quieto na sala que ela vem espiar onde estou. Quando some por uns bons cinco minutos e começo a entrar em pânico, ela entra correndo e se esconde atrás do sofá. Essa é a experiência mais próxima que tenho como pai.



Terminei a primeira série de viagens que estava fazendo com Ana Paula Maia pelo Rio. A última data foi em Nova Friburgo, cidade mais lindinha do roteiro. Tivemos a presença ilustre do Victor Heringer na plateia, que eu conhecia só de reputação, e que a superou, no melhor sentido. Saímos para comer e beber nessa última noite fria, repleta de calor literário.

Com Victor Heringer, Marcelo Reis de Mello e Ana Paula Maia

Sempre é bom encontrar os pares. O exercício solitário da profissão (da escrita) pode gerar uma série de paranoias, inseguranças e visões tortas. É bom ver cara a cara como estão os outros, como pensam os outros, como você é visto.

Com Daniel Galera e Morgana Kretzmann

Por isso também foi lindo voltar a Santa Catarina e encontrar Paulo Scott e Daniel Galera, dois dos escritores que eu sinceramente mais admiro, como autores e como pessoas. Fui convidado para a 1a Garopa Literária, evento organizado pela linda Morgana Kretzmann na IFSC, com palestras, debates e oficinas. No meio dessas viagens eu acabei não ficando quase nada, mas consegui conhecer um pouco a cidade com Scott de guia e jantei com o Galera, que eu não via há um bom tempo. Também consegui esticar um pouquinho antes e visitar minha amada ilha, Florianópolis, e a familhinha que formei por lá.

Com Ida, na Barra da Lagoa

Assim a vida é boa, claro, mas nem sempre é assim. Eu sou daqueles que nunca reclama de trabalho, viagens, movimento, talvez porque não seja muito ou talvez porque nunca seja o suficiente, mas sempre tenho a impressão de que morro mais de tédio do que de estresse. Pode ser uma vida mansa. Ou posso ser hiperativo. Eu apenas me sinto eternamente desperdiçado...

público de Garopaba

As traduções se interromperam de uma forma assustadora. Ainda não fiz NENHUMA este ano – e isso é algo se considerarmos que já tenho mais de 60 traduções no currículo (a grande maioria, é claro, de livros vagabundos para adolescentes). As editoras estão quebrando, hibernando e me devendo direitos autorais. Viver de eventos literários é bem mais fácil; eu acho. Você viaja, conhece lugares novos, conversa sobre literatura e ganha algo como 2 mil reais de um dia para outro. Na tradução é um mês inteiro na frente do computador, 6, 8 horas por dia, para ganhar 4, 5 mil reais. Pode parecer apetecível: GANHE 5 MIL REAIS SEM SAIR DE CASA, é possível, se você for um tradutor produtivo. E ainda que 6 horas trabalhando em casa pareça mais manso do que 8 horas no escritório, 6 horas em casa significam SEIS HORAS líquidas na frente da tela; no escritório as horas são sempre brutas, diluídas no cafezinho, no banheiro, no fumódromo e facebook. Quem tem a si mesmo como patrão tem como empregado um escravo – sempre é meu lema.

Com Ana Paula em Nova Friburgo. 

Isso tudo é muito ridículo quando a gente pensa no salário mínimo... mas é mais ridículo quando a gente pensa quanto uma blogueira teen pode ganhar por uma única foto no instagram...

Garopaba

Num desses debates alguém me perguntou: "Quanto ganha um escritor?" Impossível dizer. Se todos os meses tivessem eventos, traduções, roteiros, tudo junto, eu me mataria de trabalhar, mas estaria rico. Do jeito que é, tenho de me virar a cada mês com o que aparece. Algumas vezes dá para ser feliz. 


As viagens continuam no segundo semestre, felizmente. Tenho o “Viagem Literária” marcado em agosto, em que farei solito 5 cidades do interior paulista – o projeto existe há dez anos, eu sou autor total paulistano e nunca tinha sido convidado, por isso fico especialmente feliz. Também começarei a turnei de lançamento do Neve Negra, que deve ter a primeira data em Belo Horizonte, 3 de agosto, num debate com... Ana Paula Maia, pelo Sempre um Papo. O lançamento em SP já está marcado para 14 de agosto, na Blooks do Frei Caneca, que eu literalmente consigo ver da janela do meu apartamento.

E por enquanto é só, espero que a vida me traga mais porque tenho aluguel todos os meses, como todos os dias, e respiro a cada 5 segundos.


Moqueca de Lagosta na Barra.

28/05/2017

AS VIAGENS DE MAIO

Debate em Iguape com Chacal mediado por Reynaldo Damazio. 

Está chegando ao fim minha turnê com Ana Paula Maia pelo interior do Rio. Quarta agora é a última das seis datas, em Nova Friburgo.


Tem sido uma experiência intensa esses debates semanais com a mesma pessoa, mediados sempre pelo querido Marcelo Reis de Mello, sob curadoria do Ramon Mello (não, eles não são parentes, nem um casal). Poderia ser uma repetição constante dos mesmos discursos, e em parte é, mas a diferença de público faz toda a diferença. Nas primeiras datas tivemos uma plateia de adolescentes, o que fez com que a gente levasse a conversa para um tom mais didático, explicando a cena literária atual, como funciona (ou não funciona) o trabalho do escritor. Semana passada, em São Gonçalo, tivemos uma plateia mais velha, gente que já escrevia, o que possibilitou uma conversa mais aprofundada. E ontem, em Duque de Caxias, tivemos feministas na plateia, o que levou a discussão para questões de ativismo até então não tocadas.

São debates entre uma mulher negra e um homossexual, afinal. E mesmo não sendo essa a tônica da nossa escrita, não pode ser desprezada. Foi uma questão latente durante todos os nossos encontros e ontem se falou muito sobre o “lugar de fala”. Ana Paula Maia sempre tratou de um universo muito masculino, machista, e considera que o fato de ela ser uma mulher negra seja irrelevante em sua carreira. Tenho dúvidas – independentemente da inegável qualidade de sua escrita, acho que o contraste entre a figura dela e o texto é um grande chamariz. Ela, como mulher negra da baixada fluminense, hoje pode escrever sobre o que quiser. Lancei o questionamento se eu, como rapaz branco homossexual dos jardins me dispusesse a escrever sobre o universo de miseráveis, de lixeiros, açougueiros, matadores, presidiários, não seria visto com suspeitas.   

Em Iguape. 

Questões que também discuti na sexta-feira no Festival Literário em Iguape, em debate com Chacal. Ele, homem branco, de olhos azuis, heterossexual, é um dos maiores nomes da poesia marginal desde os anos 70. Eu, vinte e cinco anos mais novo, garoto branco dos jardins, dividi com ele a mesa sobre “literatura marginal”; a homossexualidade uma credencial inegável de minoria que me pertence. Discorri sobre isso, que o fato de ser homossexual não é apenas uma credencial imediata, mas leva a um percurso próprio que pode me encaixar na marginalidade. Claro que há muitos gays integrados, coxinhas, cada vez mais; porém eu credito à minha homossexualidade muito da visão maior de mundo que eu tenho. Se eu fosse hétero, talvez ficasse acomodado entre meus pares paulistanos privilegiados – o fato de eu ter de ir além para encontrar pessoas com gostos comuns (seja para acasalar, seja apenas para compartilhar) é o que me tirou de casa, me fez ser barman em Londres, surfista em Florianópolis, exilado em Helsinque; fez com que eu me aproximasse de gente das periferias, de outras origens, outros universos, porque a cota “gay branco paulistano classe média-alta” é pequena e não me basta.

A viadagi me levou a essa cidade lindinha, Iguape. 

O debate em Iguape também teve a participação especial de um morcego, que invadiu o palco montado na praça e ficou dando rasantes em nós durante a apresentação. AMEI a cidade, uma espécie de Parati pós-apocalíptica, meio desolada, totalmente vazia, mas lindinha-lindinha, com um centro histórico rodeado de montanhas e mangues. Pena que fui e voltei no mesmo dia - por causa do debate no Rio -, queria ter passado mais tempo, passeado mais pelas ruas, visto outras mesas do Festival, que também teve nomes como Ferrez, Paulo Lins e Arnaldo Antunes, sob a curadoria afiada do Eduardo Santana.  

Iguape, lá de cima. 

Preciso dizer também que, sinceramente, para mim tem sido mais interessante debater sobre questões amplas da literatura, ou mesmo sobre a escrita da Ana Paula, como ontem, do que sobre a minha própria. Não tenho mais muito a dizer sobre meus livros; pode ser por aquele velho clichê “tudo o que tinha a dizer está lá escrito”, pode ser também porque o que está escrito não tem mais a ver comigo. Em Iguape experimentei ler meu “clássico” “Piranhitas”, como uma pequena amostra do que eu faço (como já fiz tantas vezes). Tive a estranha sensação de que não me comunicava mais com o texto. Não sou mais eu lá. E agora sinto um pouco isso com todos meus livros. Mesmo Neve Negra, que é bem recente e ainda está por sair no próximo mês, me parece algo menos pessoal.

O querido Marcos Santos é leitor constante e atuante nos debates pelo Rio. 


 O que importa é que o leitor se identifique. E tem sido lindo ver na plateia as adolescentes fluminenses negras fascinadas com a Ana Paula, os jovens viados se descobrindo comigo. Devemos inclusive estender essa turnezinha para mais algumas datas em BH e São Paulo, no segundo semestre – por que você também não agenda um debate com a gente na sua cidade, no seu festival? ;) Mas antes, me encontro com Paulo Scott e Daniel Galera dia 8 de junho, em Garopaba. Agora o ano não está nada mal. 

Quarta te esperamos para o último debate, no Sesc Nova Friburgo, 19h. 

12/05/2017

REVEILLON DE MIM MESMO

40, hoje. 


Não é o fim do mundo, mas é o começo. Hoje faço 40, e não me sinto nada jovem.




Acho meio risível. Esse povo de 40, de 50, de 60 que fala que “se sente mais jovem do que nunca”. É o que eu sempre digo: juventude está na mente; você pode ter 60 com cabeça de 20, se for um retardado mental. Apegar-se tanto à juventude me parece meio triste; você pode se achar jovem, mas os jovens ainda vão te ver como tiozinho. Eu era aquele moleque de 20 que achava ridículo os tiozões de 40 na boate. Hoje tenho 40, ainda acho ridículo, por isso não vou. 

Dandizin aos 6. 

Embora ainda me apresentem como “jovem escritor”, sou o primeiro a dizer: não, não sou mais jovem em nada, nem para ser Presidente da República. Não que eu não valorize a juventude, pelo contrário; “juventude é a única coisa que vale a pena ter”, diria Oscar Wilde; mas aproveitei a minha até o talo, então não me apego mais a isso, tenho plena consciência de que ela se foi, e não quero nem consigo mais me aproveitar dela. O corpo e a cabeça não permitem. Hoje estou em outra fase.

Premiado aos 25. 
Os mais velhos podem achar que estou exagerando – talvez com 60 eu veja como ainda era jovem aos 40. Mas sei bem que não me achava velho aos 30, então esse é o começo de sentir o peso da idade. Quando eu sentir saudade da "juventude aos 40" é que as coisas estarão terríveis realmente...

Coxinha aos 13...

Nesse aniversário emblemático, é inevitável fazer um balanço da vida. Aí que meu saldo se torna mais positivo. Se há algo que me dá conforto é pensar no que vivi, como vivi, tantas experiências que tive e tantos sonhos que realizei. Viajei muito, morei nas minhas cidades favoritas, Florianópolis, Londres, Helsinque; namorei meninos lindos; publiquei oito livros; experimentei de tudo um pouco. A vida só começa aos 40 para quem não passou por tudo isso; não tenho mais saúde e energia para tanto, não.


Gótico, trevoso aos 19...


Com tantos sonhos realizados, os sonhos deixam de ser. Ficaram para trás. Aos 40 não dá mais para pensar “no que vou ser quando crescer”, agora é só consolidar o que já foi lançado. Tenho o privilégio de fazer o que eu gosto, mas a posição que conquistei ainda está longe de ser confortável.

Comecei bem...

2017 começou terrível, terrível para mim. Dos piores anos da vida, e não por causa da “idade”. Foi sim a crise que assolou a todos, que talvez tenha um peso maior num marco como esse. Passei praticamente 4 meses sem dinheiro algum entrar, e isso mexe não só com as contas, mas também com o psicológico: “o mundo me esqueceu”, “chego aos 40 chegando ao fim”, “tudo o que fiz não serviu de nada”. Não ajudou o fato de meu namorado ter se mudado a trabalho para Maresias, e a gente mal se ver, mal se falar.

Auge?

Felizmente as coisas melhoraram bem nas últimas semanas. Chego de fato aos 40 em meio a uma turnê de debates pelo Rio, com mais uma dezena de outros eventos marcados, prestes a lançar livro novo, o primeiro pela Companhia das Letras. Se comecei o ano mendigando por frilas, agora abro a caixa de emails e aparecem pedidos espontâneos de textos. Está longe de ser a melhor fase da minha vida, mas ao menos não me sinto tão esquecido, um pouco mais valorizado, tenho mais motivos para continuar respirando.


Revirando as pastas das conquistas do passado encontro tantas e tantas matérias, páginas inteiras, tanto que conquistei, tanto que deu errado...

Alex James, do Blur, tem uma citação célebre, diz que comemorou os 20 com bebidas, os 30 com drogas e os 40 com comida. Acho que vou pela mesma linha, embora mesmo a comida hoje entre em categorias proibidas. Manter a forma hoje é um sacrifício – aos 20 eu nada fazia, tudo comia, e não engordava. Aos 30 eu tudo fazia, tudo comia, e não engordava. Aos 40 eu tudo faço, nada como e engordo só em suspiros.  “O açúcar é mais viciante e mais perigoso do que a cocaína”, vi recentemente essa afirmação por aí. Pelamor de Deus, então não nos resta nada? Fumante nunca fui; saí ileso de quase todas as drogas; exagero bem no álcool, é verdade, mas pelo menos tenho mantido um detox nos últimos dois meses; o sexo se tornou monogâmico; resta o peso da boa mesa,  que tilinta como um grilhão a que Bela Gil me impõe.


Já remoendo essa crise em BIOFOBIA

Em plena forma aos 33. 

Assim parecem estar todos os meus amigos, sambando para manter o equilíbrio. Muitos bebem todos os dias, outros na tarja preta, no sexo sem compromisso, muitos com tudo ao mesmo tempo. Aos 40, nada mais pode ser aproveitado em excesso, e para quem tanto exagerou, como eu, a parcimônia permitida está longe de satisfazer. Assim, os 40 são os novos 60, os velhos 60, nada de uma vida que começa, mas a vida que nos resta.


No topo do mundo aos 34. 


Comemoro hoje aqui em Maresias, com coelha e Murilo. Semana que vem volto para a estrada com Ana Paula no Rio. E que o ano siga com mais trabalho que me carregue do que tédio que me derrube.

Ainda na pista...

04/05/2017

ASSIM NA ESTRADA COM ANA PAULA



Não havia placas de sinalização que direcionassem a um caminho. O asfalto estava cheio de rachaduras e depressões. Nenhum animal rastejava no acostamento. Nenhum pássaro no céu ou mesmo pousado em uma árvore. Nenhum arrulhar. Nenhum ninho. Nem mesmo o vento era possível ser sentido. Ao olhar para trás, não podia ter certeza de seguir para o início ou para o fim, pois ambas as direções se assemelhavam. 



Na estrada, com 'Namaia. 

A pistoleira Ana Paula Maia acaba de voltar com livro novo: "Assim na Terra como Embaixo da Terra" (Record). Já falei exaustivamente dela aqui - está no topo entre minhas escritoras/escritores favoritos da vida. Para mim, ela tem o que é mais importante num autor: um universo próprio. Isso significa não apenas um estilo - que nela se reafirma numa prosa objetiva, com um lirismo cru pintando cenários desolados -, mas uma realidade própria, suburbana, habitada por homens brutos, personagens que ela revisita em diferentes contextos.

Assim também é sua "Assim na Terra", novela ambientada numa colônia penal fictícia, no meio do nada, onde os poucos sobreviventes caçam javalis e são caçados. Talvez seja o texto mais alegórico de Ana Paula - o cenário está mais próximo de um purgatório surrealista do que de uma representação realista de presídio, assim como ela já havia feito com os abatedouros no (excelente) "De Gados e Homens" (Record, 2013).

Para quem já a acompanha, é sempre uma delícia reencontrar seus personagens, saber mais sobre seus passados, como o índio Bronco Gil, que transforma o novo livro numa espécie de "prequel" do anterior. Para quem está chegando agora, "Assim na Terra" é uma boa introdução ao universo de Ana Paula Maia, que pode (ou deve) ser lido numa sentada, com seu fôlego trôpego, no melhor sentido. 

Nossos livros em Campos dos Goytacazes. 

Recebi o livro em primeiríssima mão, semana passada, no Rio. Eu e Ana estamos fazendo uma turnê de debates pelo interior do RJ, a convite do Sesc, mediados pelo poeta Marcelo Reis de Mello. Ontem estive em Teresópolis (única data em que Ana não participa, porque está num evento na Colômbia). Com um debate às 15h de um dia de semana, não dava para esperar muita gente - e na hora de começar, com o imenso teatro vazio, achei que não haveria ninguém. Mas uma turma de vinte alunos que vieram com a professora garantiu o ótimo papo, numa mesa redonda que fizemos informalmente, falando não só da minha obra mas da profissão do escritor de modo geral. 

Petizada de ontem em Teresópolis. 

Semana passada foi em Campos dos Goytacazes, também para um público de estudantes. Bem lindinho ver as meninas adolescentes negras fascinadas com uma escritora negra, da baixada fluminense, no palco. Eu mesmo sempre levantei essa bandeira, da diversidade, de mostrar outras caras e outros temas na literatura brasileira. Ontem, uma das estudantes me confessou: "Quando vi você chegando, achei que ia ser a palestra de um roqueiro." (Bem, você não estava errada, mocinha.)

E a turnê continua até o fim do mês - semana que vem será no Sesc Três Rios, às 19h, então acho que haverá um público mais adulto. Felizmente estou com uma agenda lotada de debates nos próximos meses, porque (também) vivo disso. E os diferentes públicos e horários garantem que as discussões não fiquem requentadas. Há quinze dias, por exemplo, tive um debate com André Fischer, na Fnac em Pinheiros, aqui em SP, para um público quase que exclusivamente LGBT; então pude falar da representatividade não apenas minha (porque afinal escrevo pouco sobre o tema), mas de novos autores que têm feito mais pela "causa", como  Gabriel Spits,Vinícius Grossos, Augusto Alvarenga e Danilo Leonardi. 

Debate na Fnac com André Fischer e os queridos do Põe na Roda. 
Estou mantendo a aba "agenda" aqui do blog atualizada, com todos os eventos que vão sendo confirmados. Confira lá, veja quando aparecerei perto de ti, e não me deixe só. 


Sorvendo o sol de Teresópolis. 


A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados.  É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é leva...